Porto Alegre, 26 de março de 2019

A data é 1969 e o local da imagem é a cidade de Londres.  A minha chegada à capital do Reino Unido foi um dia  muito importante, por tudo que ela representava para mim desde criança.

Explico melhor.  Eu comecei a estudar inglês, em Rivera, no Uruguai, quando eu era muito pequeno.  Eu precisava caminhar muitas quadras para chegar ao prédio do Instituto Cultural Anglo Uruguaio que ficava localizado na esquina da Praça da Igreja Matriz de Rivera. 

Para uma criança de seis a sete anos, dez quarteirões representavam uma distância imensa a percorrer.  Sozinho, cruzando a fronteira, desconfiado e cheio de cuidados para atravessar a rua, um desafio imenso para quem estava começando a conviver com o mundo dos adultos.  

Chuva ou sol, era sempre a pé.  Bem abrigado no inverno, com roupas feitas pela minha mãe que era costureira e que comprava o tecido de lã nas lojas do lado castelhano.  No verão, eu não lembro de camisas prontas, todas eram cortadas e costuradas em casa.  Era preciso caminhar onde houvesse sombra para escapar do sol escaldante do verão.

No Anglo os professores falavam o inglês com acento britânico.  Naquela época, anos 50, os Estados Unidos estavam ganhando prestígio em decorrência da vitória na Segunda Grande Guerra, mas a Inglaterra vinha de um status acumulado ao longo de toda a era vitoriana.  O inglês com a pronuncia norte-americana estava presente nos cinemas devido ao domínio de Hollywood no entretenimento local. 

Os exames de fim de ano no Anglo eram realizados por professores que vinham da Inglaterra para o Uruguai.  Todos idosos, cabelos brancos, bem vestidos, utilizando sempre terno e gravata e uma simpatia que conquistava todos os alunos do Instituto desde a primeira apresentação.

Eu lembro de chegar em casa e dizer a meus pais que eu ia me submeter a exames de fim de ano, escrito e oral, e que o examinador tinha chegado de Londres. 

Era motivo de muita vibração, de muito orgulho, poder conviver uma semana com profissionais qualificados que vinham de tão longe.  Aprovados nos exames, os alunos do Instituto recebiam certificados de conclusão de mais um ano de estudos de inglês.  E foram muitos anos nessa sequência.  

Com esse pano de fundo, o leitor do blog deve imaginar o que representava a Inglaterra para todos nós, alunos do Anglo Uruguaio.  A gente sabia tudo sobre a rainha Vitória, que havia reinado de 1837 a 1901. 

Havia muitas atividades em torno das figuras de Eduardo VIII, de Jorge VI, de Winston Churchill, da Rainha Mãe e, finalmente, da Rainha Elizabeth II.  Estudávamos sobre a Westminster Abbey, Victória Station, Buckingham Palace, BIg Ben e tantos outros locais importantes que ilustravam as páginas dos livros que usávamos, os alunos do Instituto Cultural Anglo Uruguaio, em sala de aula.   

 Pois eu cheguei a Victoria Station vindo de trem desde Dover, onde eu havia chegado depois de ter atravessado o Canal da Mancha em um navio de linha.

Na foto acima, eu estou com a Professora Celanira Prates Aita, já falecida, minha sogra naquela época.   Eu havia saído do hotel no primeiro dia em Londres e me deparei com o ônibus de dois andares, em vermelho muito vivo, cheio de propagandas, algo sem igual ao que eu conhecia dos transportes urbanos do Uruguai. 

Naquela época, os ônibus do lado uruguaio eram de qualidade muito superior àqueles existentes do lado brasileiro.  

Na noite em que eu cheguei à Victória Station em Londres, eu me senti como se estivesse participando de um filme.  Não tínhamos nada equivalente na minha cidade natal.  Na verdade em Sant’Ana do Livramento nós tínhamos a Gare da Viação Férrea, mas onde se deslocavam as antigas Marias Fumaças.  E só.  Os trens puxados às máquinas a diesel surgiram somente uns quinze ou vinte anos mais tarde. 

Na minha mente eu fiquei com as imagens da Estação de Londres com muita iluminação, trens confortáveis, espaços amplos, restaurantes, lojas, muita gente transitando por aqueles locais e muitas coisas mais. 

Ao deixar o trem e acessar a plataforma eu tive um choque.  Um choque de frio.  Nunca eu tinha passado por nada igual.  Eu estava abrigado para os padrões brasileiros, mas de nada adiantava para aquela temperatura que eu me deparava pela primeira vez. 

Eu não lembro de ter qualquer curiosidade em saber qual era a temperatura vigente no local. 

No início era um frio danado.  Logo, logo, os pés ficaram gelados.  Um cenário adverso, mas aparentemente administrável.  Todavia, a seguir, os meus braços ficaram como que congelados e passei a enfrentar uma dor muito forte na parte interna dos cotovelos.   

A situação passou a ser crítica.  Fazer o quê?  E se piorar ainda mais?  Fazer o quê?  A única solução foi buscar um hotel e fugir de tamanha adversidade.  E foi o que eu fiz.  

Finalmente eu me lembro de estar dentro de um hotel.  Quentinho.  Calefação bombando.  Fazer o quê com a Londres que eu descortinava da janela do hotel?  Como administrar semelhante impasse? 

Eu tinha vindo de tão longe, chegara a cidade dos sonhos, mas o clima era uma barreira para levar adiante os meus planos.  Andar solto pelas ruas, buscar locais conhecidos por fotografias, vivenciar a conversa em inglês in loco, tudo parecia ficar um tanto difícil para mim. 

Tão logo saí do hotel, eu vi o primeiro ônibus de dois andares e tirei a fotografia acima.  O resto da história eu conto em um outro post porque esta já está ficando longa demais. 

Grato pela atenção! 

MEMÓRIAS e outras histórias em 26.03.2019

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