Porto Alegre, 06 de abril de 2019

A foto é de 1970 e a imagem é da bookstore da Syracuse University (SU) nos Estados Unidos.     A livraria era um prédio antigo, como todos os edifícios da mesma calçada, do mesmo quarteirão e do mesmo bairro.  Ir à bookstore era um momento mágico.  Era uma atividade complementar àquela permanência diária de algumas horas na Biblioteca da Syracuse University. 

A minha ida para os Estados Unidos aconteceu depois de eu ter passado os anos de 1968 e 1969 em Portugal como professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) onde eu percebia que eu havia conseguido um upgrade na minha formação acadêmica.  Em Portugal eu “cai na realidade” que a minha atividade docente seria alcançada à medida que eu acessasse bibliografia em inglês, francês e alemão.

Eu lembro que ao chegar na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, pela primeira vez, havia um roteiro de atividades me aguardando.  E a primeira atividade na programação era uma entrevista com o biblioteconomista da Instituição.  A primeira pergunta de um vasto questionário que ele me formulou foi:  quais os idiomas que o professor domina?  

Já nos Estados Unidos, na Syracuse Universitiy Bookstore que aparece na fotografia abaixo, eu já me sentia bastante à vontade na utilização dos livros técnicos em inglês.   Eu lembro que os professores dos departamentos em que cursei disciplinas – Economia, Matemática e Engenharia – identificavam as obras que iam ser utilizadas ao longo do trimestre.  Os alunos precisavam consultar se havia exemplar suficiente na biblioteca para o encaminhamento de pedidos de livros adicionais.  

A Universidade da cidade de Syracuse no Estado de Nova York, foi fundada em 1870 e na época que eu lá estudei a biblioteca contava com um número expressivo de obras, e se lembro bem, algo como 1,8 milhão de volumes. 

Naquela época o computador estava localizado no CPD da UniversidadeNão havia PC.  Não se falava em Internet e em www.  Falava-se em programação.  Era preciso estudar linguagens de programação.  A gente estudava FORTRAN, APL e outros conteúdos em cursos específicos oferecidos na SU utilizando livros que estavam disponíveis naquela época.   As informações entravam no CPD da Universidade através de uma máquina de leitora de cartões.  Eu, estudante, precisava acessar uma máquina perfuradora de cartões para preparar o conjunto dos cartões que iriam rodar um programa no computador.  

Então nesse mundo de transição para o presente o livro era tudo.  Onde quer que eu fosse na Europa, na América do Norte ou na Ásia, o que eu buscava, constantemente, era bibliografia.  Adquirida a obra era preciso colocá-la em Porto Alegre.  Eu reunia uns 50 a 100 livros, colocava em um baú e o despachava, via navio, para o Brasil.  Nada se extraviava e tudo podia ser aproveitado em sala de aula do lado de cá do Atlântico. 

Um dia, surgiu a possibilidade de adquirir uma coleção da Encyclopaedia Britannica.  Era inimaginável para um mero professor de economia em início de carreira.  Um antecedente do Google?  Quando eu fechei a compra eu me senti realizado.  Um Britânica em papel lavável.  Era o que diziam.  Era preciso conviver com o ritual de empacotar os livros de forma adequada, despachá-los por mar e orar.   Até hoje eu mantenho a coleção da Enciclopédia na estante da sala da minha casa.  Hoje, ninguém entenderia porque tanto apreço por uma coleção de livros.  

A fotografia do post desse domingo foi batida durante a primavera.  Eu tenho diversas imagens em frente ao prédio da bookstore durante o inverno.   A temperatura chegava a 20 graus negativos.  A neve caia, logo derretia, à noite com a queda na temperatura, a neve original se transformava em um bloco duro, uma pedra.  Se o sal não fosse sobreposto ao bloco de neve, a pedra não parava de crescer.  A calçada ia desaparecendo rapidamente.  As ruas iam se tornando estreitas, a neve original se transformava em algo parecido a barro e a cidade ia se tornando um espaço de circulação progressivamente reduzido. 

Hoje eu acho que o livro está no fim.  Eu ainda compro jornais do centro do pais.  E faço isso diariamente.  De posse dos jornais eu faço a taxação das matérias utilizando a classificação da biblioteconomia.  É muito papel guardado.  A atividade corre em paralelo às taxações de jornais na Internet.  Do mundo todo. É muita informação chegando ao meu beco através dos cabos submarinos que cruzam os oceanos.  Ou, como dizem alguns, em nuvens. 

Paro por aqui porque tem assunto pedindo passagem na minha mente e é preciso dormir.  O sono e o fuso horário são os meus fiéis parceiros nessa empreitada de escrever sobre a economia enquanto tiver chimarrão rodando junto ao computador. 

MEMORIAS e outras histórias em 06.04.2019

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