Porto Alegre, 24 de abril de 2019.

Eu bati a fotografia abaixo em 2014 e a imagem é do Largo do Parque Internacional onde está localizada a pedra alusiva à figura de Francisco Reverbel de Araújo Góes, o ex-prefeito da minha cidade, o Pancho Góes. 

Porque eu trago essa informação nesse post?  Bem a história é um tanto longa.  Em 1959 eu terminava o curso ginasial no Ginásio Santanense, o colégio marista da minha cidade natal, Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul.   Depois de estudar muitos anos em colégio religioso, não havia curso científico em Livramento. 

Naquele ano de 1960 foram, então, criados os cursos Científico e Clássico no Colégio Estadual Liberato Salzano Vieira da Cunha.  Era uma opção à Escola Técnica de Contabilidade que funcionava, à noite, no Colégio dos Irmãos Maristas. 

Naquela época, 1960, o meu pai me matriculou no Curso Científico, no Colégio Estadual, que funcionava à tarde, e no Curso Técnico de Contabilidade para frequentar à noite.  Por alguma razão que eu não lembro eu frequentei o curso de Contabilidade por alguns meses e o abandonei.  

A vida no colégio estadual tinha algumas novidades.  Era um curso misto, ao contrário do colégio marista que era só para alunos homens.  Não havia prova semanais e caderneta com a colocação do aluno na turma durante cada semana que deveria ser rubricada pelos pais para o aluno entrar no colégio.  Havia um irmão marista regente em sala de aula.  Uma ou outra atividade era realizada com outro professor. 

No colégio estadual havia um professor por disciplina, as provas eram mensais, havia atividade no grêmio estudantil e, quem sabe o fato mais importante, foi lá que eu fiquei interessado em saber, de fato, o que era a política.   No colégio estadual tudo me parecia light.  Não havia a rigidez e o controle sobre o aluno como nos tempos do colégio marista. 

Progressivamente eu fui me aproximando das atividades estudantis, passei a participar da diretoria do Grêmio Estudantil Rui Barbosa (GERB), daí foi um passo para participar também da União Santanense de Estudantes Secundários (USES) e de conhecer o caminho de articulação das USES com a UGES, a União Gaúcha de Estudantes Secundários. 

Aqui, no RS, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB, partido do Getúlio Vargas que tinha se suicidado em 1954, era o partido mais importante.   O país vivia aquela fase anterior à Legalidade. 

Jango e Brizola, de um lado, e Carlos Lacerda da União Democrática Nacional (UDN), na oposição, estavam entre as figuras políticas mais populares no país. Lacerda já era conhecido desde à época de Getúlio porque ele tinha sido vítima do atentado à rua Toneleiros em que foi assassinado o Major Vaz.   A responsabilidade recaiu sobre o guarda-costas de Getúlio e a historia do Brasil tomou o seu curso. 

Bem, a história que eu conto nesse post tem esse pano de fundo que eu descrevi acima. O prefeito da minha cidade se chamava Pancho Góes e o vice-prefeito, do mesmo partido, era Camilo Alves Gisler, o Camilinho. Ambos eram do PTB do Jango.

FOTO ABAIXO:  No monumento abaixo, a figura à direita é a imagem de Francisco Reverbel de Araújo Góes, o Pancho Góes.  

Eu lembro que durante a campanha para a prefeitura a propaganda dizia “Pancho Góes é bom sozinho que dirá com Camilinho”.  Eu creio que foi a primeira vez que eu acompanhei com interesse o que estava acontecendo na política municipal.      

Mas a história continua.  Na eleição seguinte foi Camilinho que se candidatou e se elegeu como prefeito.  Ele foi empossado em 01 de janeiro de 1960. 

Com o tempo houve divergências entre ambos, Pancho e Camilo, a bancada ficou dividida entre os dois e as tensão levou à concretização de uma tragédia na politica santanense.

No dia 18 de agosto de 1961, antes de viajar à capital para pedir intervenção do partido no diretório municipal, Camilo esteve em Rivera e, à tardinha, ao entrar em Livramento, em um jeep, ele foi acompanhado de perto por Pancho, que estava numa caminhonete, e que disparou contra o seu conterrâneo.  O luto tomou conta da minha cidade. 

E assim eu chego no ponto que eu gostaria de descrever nesse post.  À noite houve o velório no salão nobre da prefeitura.  O evento ia durar toda a noite.  Eu e outros três colegas fizemos, então, a guarda de honra do caixão fúnebre de Camilinho. 

A noite parecia não ter mais fim.  Nós, na guarda de honra estávamos vestidos de terno azul marinho, camisa branca e gravata.  Não podíamos conversar porque o local era público.  Era esperar o relógio andar no  seu curso até a manhã chegar.

Às três da madrugada chegaram alguns senhores com algumas malas e ficaram próximos ao local onde nos encontrávamos.   Abriram as malas, retiraram material das mesmas e se dirigiram ao caixão.  O que estava acontecendo, eu pensei?  Há alguma atividade durante um enterro que eu não tinha conhecimento? 

Abriram o caixão e passaram a mexer no cadáver.  E o empurravam e puxavam, para um lado e outro.   O que eles estavam fazendo?  Uns quinze minutos depois, quando cobriram o rosto do Camilinho com gesso, eu fui entender que os homens tinham vindo preparar uma máscara mortuária do prefeito.   

E assim eu passei a noite com o cadáver muito próximo da guarda de honra do colégio estadual.  Não era um fato comum passar a noite junto a um cadáver e com os trabalhadores mexendo na cabeça do Camilinho, de um lado para outro.   

Contudo, foi o episódio que eu vivenciei naquela noite de 18 de agosto do distante 1961.  Não foi um evento fácil de acompanhar, mas representou bastante para o meu amadurecimento.  Quem diria, o Camilinho morrer dessa forma…

Agora são 12h10 de quarta-feira  em Porto Alegre, Brasil.

MEMÓRIAS e outras histórias em 24.04.2019

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