Porto Alegre, 11 de maio de 2019

No beco, 18h10, 18 graus, chove a qualquer hora (Climatempo)

A data da imagem é 1961 e o local da foto é o Aero Clube de Livramento.   Te acordás hermano, qué tiempos aquellos… ?   

Nostalgia a parte, talvez eu esteja em algum rito de passagem e bastou eu encontrar o conjunto das folhas dos comprovantes da época em que eu era manicaca e fui tomado de um estado de muita felicidade

Naquela época eu vivia com o pensamento em me tornar um piloto de avião.  E pensei em transmiti-la ao meu leitor.  

O blog é um registro da minha percepção sobre o atual momento da conjuntura econômica internacional.   Contudo eu sabia que em algum momento eu ia começar a escrever sobre os meus tempos de piloto.  De piloto de avião. 

Eu tenho muitas e muitas fotografias daqueles anos 60 que parecem que foram ontem.  E, realmente, foram.  Afinal, estão guardadinhas na minha memória.  

Eram dias muito alegres.  Éramos seis ou sete alunos do curso de Brevê.  A rotina era rígida.  Antes de o sol amanhecer, inverno e verão, passava um dos colegas na caminhonete do pai dele, para apanhar todo o grupo. 

A cada dia alternávamos-nos entre a cabine e a carroceria.  Era difícil em dia de chuva.  De qualquer forma, na hora da instrução o tempo podia ser favorável ao treinamento.  Por isso não havia a possibilidade de não ir ao aeroclube por razões do mau tempo

Imagine, amigo leitor, eu não sabia guiar um carro e em alguns meses eu estaria apto, licenciado pelo Ministério da Aeronáutica e sair por ai, sobrevoando os campos de Santana, de Uruguaiana e de onde quer que houvesse onde pousar.   

Um dia um dos meus amigos foi no carro do pai dele, um Chevrolet belair, importado, automático, cor laranja e branco, modelo 1955.  No aero clube ele soube que eu não sabia guiar.  Deu-me algumas instruções e me passou a chave do carro. 

Naquela manhã, em pleno aeroclube, eu “dirigi” pela primeira vez.   Foi no campo, em cima da grama, mas eu asseguro que eu dirigi.  

Chegando lá fora, o instrutor Joaquim Duarte, cujo apelido era PTB, assumia o comando de todo o grupo.  Se o tempo permitisse haveria instrução havia a ligação do motor do avião.  Para tanto era preciso girar a hélice. 

Um aluno ficava dentro da cabine e outro movimentava, manualmente, a hélice.  O motor aquecia durante uns dez minutos e partíamos, os alunos, para a instrução de acordo com uma lista previamente divulgada entre os membros do grupo.  

Um a um íamos iniciando a parte prática do Brevê.  A parte teórica – aulas de Aerodinâmica, Motores, Meteorologia, Navegação entre outras disciplinas – era ministrada em uma sala que estava disponível na Biblioteca Pública.

Na parte prática íamos, um a um, para a cabeceira da pista, fazíamos o cheque de cabeceira e decolávamos.  Faço um resumo sucinto nesse primeiro post porque há muito a descrever e muitas histórias a contar sobre o período 1961-63 quando tive essa maravilhosa experiência de vida. 

No avião havia dois assentos.  Eu, aluno. ia no banco da frente e o instrutor, no de trás.  Os comandos eram duplos.  O que havia na frente, também estava disponível atrás.   Qualquer imprevisto e o instrutor assumia o comando do avião.

Bem, para hoje a fotografia selecionada foi do comprovante de uma hora de voo.  O aluno comprava o papel abaixo que se transformaria no comprovante do treinamento recebido por unidade de tempo.

O Aluno-Piloto sou eu, identificado pelo sobrenome FRAQUELLI.   O recibo de número 0517 representa a 26a hora do meu treinamento.  Quando o boleto estivesse totalmente preenchido, esse era o comprovante que eu acumulava 26 horas de aula, de treinamento de voo, no Brevê. 

O custo de uma hora de voo era de CR$ 1.000,00 (hum mil cruzeiros), ou um conto de réis como se dizia na época.   Essa 26a hora começou a ser consumida no dia 22 de maio de 1961.  O Brasil vivencia movimentos políticos intensos. A Legalidade, por exemplo, começou em 25 de agosto de 1961.

O leitor pode imaginar qual era o pano de fundo da política brasileira à época em que eu levava adiante a minha formação de piloto.   Era política no colégio, era política no recreio, era política na missa, era política até na carroceria da caminhonete que nos levava para o aeroclube.

De volta ao boleto, onde aparece o nome do tesoureiro está a assinatura do Sr Joaquim, o nosso instrutor.  Excepcionalmente nós tínhamos treinamento de voo com o Sr Ayres. 

O leitor percebe que o boleto foi criado como um crédito a ser comercializado em 22 de maio de 1961, mas eu o utilizei pela primeira vez em 20 de janeiro de 1962.

No caso específico da minha 26a hora de voo, o boleto foi utilizado em três datas diferentes: 20.01.1962, 22.01.1962 e 27.01.1962.

Cada linha do boleto correspondia a 15 minutos de treinamento de voo.  Então, o leitor pode constatar que a minha aula do dia 20.01.1962 teve a duração de trinta minutos. 

É isso ai.  Paro por aqui por que tenho assunto para “mais de légua”.  Tenho muitas histórias interessantes do curso e da instrução de um lado, e de tudo que vivenciei no ambiente dos aviões, de outro.

Outro dia conto mais sobre “aquellos tiempos, qué cuando me acuerdo me dan ganas de llorar” como diz a letra do tango.  Longe de qualquer nostalgia foram anos de sólida formação acadêmica e, como eu escrevi antes, foram anos de muita experiência de vida. 

Boa noite leitor do blog! 

Hoje eu voltei a ter um leitor na distante República Checa conforme a estatística que o software do blog me repassou.  Seja bem-vindo leitor.  Até daqui a seis horas quando eu começarei a preparar o próximo post. 

MEMÓRIAS e outras histórias, post 53, 11.05.2019

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *