Porto Alegre, 17 de maio de 2019

No beco, 12h10, 24 graus, hoje não chove (Climatempo)

Eu creio que nessa semana Jair Bolsonaro acessou o que eu considero a fase de número 2 do seu governo.  Esvaiu-se o período em que o capital político pós eleições contribuía para justificar os equívocos que aconteceram e que eu acredito que acontecem em todo o governo que assume o Palácio do Planalto. 

Durante os primeiros 100 dias de governo, Jair Bolsonaro e sua equipe contavam com o capital político para pautar os debates e jogar a responsabilidade pelas dificuldades do país às administrações que o antecederam. 

A pauta era densa.  A corrupção, o populismo, as pedaladas, as propinas, o desemprego, o impeachment, tudo, enfim, justificava a posição e os argumentos dos vencedores do último pleito.

Contudo, os meses passaram e o estoque de capital político foi se esvaindo progressivamente.  E agora chegou o momento de justificar o porquê da aposta do eleitorado em Jair Bolsonaro. 

A população votou no então candidato à presidência porque acreditou que ele teria as condições de reverter a crise econômica que aí está. 

Os números das pesquisas dos institutos refletirão progressivamente o nível de esperança do público.  Até aqui imaginava-se que o presidente dispunha de uma receita para que o país retomasse o ritmo de crescimento econômico.   

Doravante é necessário migrar para uma agenda de proposições que sinalizem resultados dentro de um prazo determinado. 

A aprovação de alguma reforma previdenciária, embora necessária e oportuna, não era condição suficiente para alterar a estagnação que se enraizou no contexto atual.  E, lamentavelmente, é impossível aceitar o discurso oficial sobre o alcance da reforma.   

Eu escrevo sobre isso desde que a quilométrica proposta da reforma foi apresentada.  Eu lembro sempre que a ideia da reforma não surgiu com Bolsonaro.  

O presidente FHC tentou aprovar uma reforma.  Lula, Dilma e Temer também trabalharam com agendas específicas visando mudanças na previdência.  Sempre houve consenso sobre a necessidade de reformar para não quebrar. 

Eu creio que a proposta de Paulo Guedes é de uma densidade em excesso.  Da forma como foi encaminhada a Nova Previdência, ela tomou a forma de uma solução para todos os males do país.  Um Biotônico Fontoura que cura a história do Brasil. 

Ah, se eu tivesse a inspiração de um Juca Chaves eu apanharia o meu violão ou o meu piano e, sem perda de tempo, eu prepararia mais um post da seção Memórias de um professor de solfejo.  É uma pena que eu não disponho de tempo.   Mas que a melodia está fluindo aos meus ouvidos eu não posso negar. 

Eu percebi que a fase 1 do Governo Bolsorano tinha chegado ao fim no momento em que eu gravava a última ida de Paulo Guedes à Comissão Especial.  A frase foi contundente. 

O país está no fundo do poço, disse Guedes.  Ou a economia do país está no fundo do poço.  É isso aí.  O fundo do poço foi a senha que era preciso para avisar, na minha percepção, que ele também “estava indo para Passárgada”.

…   

Perdoe-me o leitor que eu vou abrir um parêntese no post e já volto ao texto original.  Na primeira vez que eu li o “Vou-me embora p’ra Passárgada” de João Carlos dos Santos Silva, me chamou a atenção que ele associava o local à presença de Juana, la loca, rainha da Espanha.  

Eu estive na casa de Juana de Castela quando fui à Espanha em 1969.  E eu nunca mais esqueci a minha estada no local porque foi a primeira vez na minha que eu toquei em um cravo.  Eu sempre toquei piano, mas em cravo foi a primeira vez.  

Eu cheguei a Salamanca em torno de meia noite.  Era fim de inverno, mas estava frio. Eu não tinha o menor interesse em “perder tempo na Espanha” porque eu sempre me senti 50% uruguaio e eu achava que uma convivência com mais castelhanos era mais do mesmo.

A minha mãe uruguaia, o meu pai criado no Uruguai, familiares todos do lado de lá da fronteira.  Os fatos me mostraram que eu estava cometendo o maior erro de percepção da minha vida.  Na verdade, a Espanha é top. 

Pois eu cheguei a meia noite e acessei à cidade através de uma ponte construída pelos romanos.  Muitas e muitas placas mostrando a importância do legado de Roma.  Segui em direção onde estava a iluminação que deveria ser o centro de Salamanca. 

De repente eu cheguei a Plaza Maior.  Fui tomado por uma emoção indescritível.   Em duas ocasiões eu senti sensações semelhantes, quando cheguei à Catedral de Colônia e quando me deparei na frente do Monte Fuji.   É como se estivesse chegando à Terra Prometida!

O ponto é que a tal emoção veio pela primeira vez em Salamanca, na Plaza Maior.  Eu creio que eram duas horas da madrugada.  A Plaza Maior estava vazia porque era uma noite fria. Noite fria e ainda feriado.  Eu parei o carro e caminhei pelas proximidades. 

Era uma iluminação incrível.  Um quarteirão fechado, pulsando história, inaugurada em 1756, e descrita como um “quadrilátero irregular, mas assombradamente harmônico, de acordo com a opinião de Miguel de Unamuno, um filósofo espanhol”.   É isso, Unamuno disse tudo. 

O estado de espirito vivenciado em Salamanca me fez mudar a opinião sobre a Espanha e eu passei a querer conhecer outros lugares.  A menos de cem quilômetros de Salamanca estava localizada a cidade de Tordesilhas. 

E assim, no dia seguinte pela manhã eu me encontrava na casa onde havia sido assinado o Tratado de Todesilhas, no dia 7 de junho de 1494, que dividiu o Brasil entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela. 

Eu bati uma fotografia na casa onde o tratado foi assinado.  Eu fotografei a placa alusiva ao evento na frente da casa.  Sensacional!  Outro dia farei um post sobre a tal fotografia. 

E foi nesse dia que eu estive frente ao cravo de Juana de Castela, Juana la loca, e ensaiei uma melodia que eu levo comigo em minha memória até hoje. 

Então, a poesia de João Carlos dos Santos Silva teve esse significado para mim e, por alguma razão quando Paulo Guedes disse que “o país estava no fundo do poço” eu senti que ele estava deixando o discurso convencional.

Parecia-me que Guedes estava partindo para um outro ponto, que bem poderia, em sentido figurado, ser Passárgada.  Daí ao cravo da rainha foi um mero exercício de memória.

Agora eu retorno ao argumento do post original.   O que me chamou a atenção quando Paulo Guedes expressou a sua opinião aos congressistas em Brasília quanto à situação atual do país, é que ele jogou a responsabilidade do momento atual para a classe política.  

Foram vocês que deixaram o Brasil nessa situação, disse o ministro.  Foram doze anos de gestão que deixaram o Brasil nessa situação. 

Eu, disse o ministro, não sou o responsável pelo cenário que está aí.  Vocês é que tem que resolver o impasse.  Naquele momento houve a transição da fase 1 para a fase 2 do governo.  A negação de quem era o responsável para tirar o Brasil do poço. 

É isso aí, eu creio que o governo Bolsonaro passou a fase 2 porque abandonou o discurso mítico de que a reforma previdenciária mudaria o Brasil.  E caiu na realidade de vez.

E mais, ao invés de reconhecer que o seu governo foi eleito para tirar o Brasil da crise ele transferiu a responsabilidade àqueles que não foram escolhidos para assumir o Poder Executivo em primeiro de janeiro passado.

Paulo Guedes tem, sim, a obrigação de sinalizar qual a proposta de governo para terminar com a estagnação e colocar o país nos trilhos outra vez.   

Eu torço pelo sucesso do ministro porque sou brasileiro acima de tudo.  Agora, eu torço que ele tenha alguma proposta pronta para levar o país à retomada do crescimento.  É impossível imaginar que o país possa ir para uma segunda recessão. 

Em posts anteriores eu repeti em algumas ocasiões que a possibilidade da ida das multidões às ruas era uma questão de tempo.  O problema, hoje. é a ameaça de uma segunda recessão. Não é um contingenciamento na verbas para a educação que é o problema. Ela é uma medida, antes de tudo, administrativa.    

É isso aí.  O post está longo demais.  Eu quis registrar a mudança de fase na gestão do governo Bolsonaro.  Urge pressa em propor como mudar o que está aí.   

Unificar discursos, acertar o passo e ter o que propor porque ninguém tem dúvida que o país tem um imenso futuro.  É preciso, apenas, criar uma ponte para chegar lá.   E estou convencido que a criatividade do brasileiro está acima de tudo e de todos.

É isso aí, Brasil.  Criatividade da nossa gente acima de tudo e acima de todos!

Boa noite, leitor do blog! 

FOTO ABAIXO: Mercado Público, Porto Alegre, 16.05.2019

 

BRASÍLIA distante de todos, post 10, em 17.05.2019

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *