Porto Alegre, 08 de julho de 2019

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 12h10, 11 graus, não chovecomo fazer uma loja virtual

No Rio Grande do Sul o frio está complicando a vida deste economista às vésperas de completar 75 anos.   Desde 2013 não fazia tanto frio por aqui, segundo o que eu ouvi de uma jornalista na televisão. 

Na verdade eu sempre gostei muito do frio até que a minha preferência migrou para temperaturas mais amenas. 

Nos EUA eu convivia com temperaturas que alcançavam -20 graus, na escala de cá.   Era neve para ninguém botar defeito.  Ela caía e começava a derreter, esfriava e começava a formar blocos de gelo.  Mais neve, mais blocos de gelo, menos calçada para os pedestres e menos asfalto para os motoristas.  Um dilema para toda uma estação!

Chegava a um ponto que não sobrava nem calçada e nem rua.  Vinham os caminhões e jogavam sal e os blocos começavam a derreter.  Mas, aí, nevava de novo, e o processo todo era retomado e eram necessários novos caminhões com sal.   E, assim, a população passava todo o inverno entre a neve e o sal. 

O sal nas ruas liquidava com a lataria dos carros   Na primavera era preciso retirar a ferrugem dos automóveis, colocar massa nos buracos na lataria e pintá-lo.  

É verdade que lá havia calefação nas residências pois era é impossível manter-se indiferente ao clima tendo a neve como companheira. 

Eu lembro que no inicio do inverno a imprensa lembrava que as pessoas precisavam manter mantimentos em casa porque, por vezes, a gente ficava dois ou três dias sem sair de casa. 

Em Cuiabá eu senti o que era calor e assimilei a ideia que eu jamais produziria com temperaturas próximas de 40 graus no início do dia. 

Eu lembro da primeira vez que fui ministrar um curso em João Pessoa, Eram cinco horas da manhã e o sol mais parecia aquele do meio dia em Porto Alegre. 

Acordei, senti o baque e pensei que havia perdido o horário.  Eu tinha aula das 08h00 às 16h00.  Sem ar condicionado, no hotel e em sala de aula.  Um calor insuportável.  Os alunos eram profissionais com curso superior e, inclusive, alguns com pós-graduação. 

Eu dava aula sem levar em consideração a inadequação do ambiente para alcançar uma produtividade adequada aos objetivos do curso.  Os alunos eram muito receptivos e interessados.  E assim a gente avançava no programa previsto para a disciplina. 

O único registro a lamentar é que no primeiro dia de aula eles não entendiam o que eu falava e a recíproca era verdadeira.   O “português nordestino” de lá em nada convergia para o sotaque do “lusitano fronteiriço” daqui. 

Sempre que uma das partes começava a rir era preciso por a aula em standby e recorrer ao dicionário. 

A experiência no Nordeste foi algo parecido aos meus primeiros dias de estudo em Lisboa. 

Quando ao telefone, em Portugal, logo da minha chegada, eu dizia “alô”, e recebia como resposta o corriqueiro “quem está lá?”, e, aí, o português de lá parecia o francês daqui. 

No começo eu me consolava pensando que eu tinha dado azar ao não encontrar alguém que falasse um português compreensível.  Fazer o quê?

A experiência foi semelhante a que eu convivi na Paraíba, em Alagoas, no Amapá, em Fortaleza, em Vitória, e entre outras capitais em que eu estive em seminários, palestras e em momentos eventuais ao longo dos anos.   

Nem sempre se dispunha de ar condicionado e eu lembro que no horário do meio dia a temperatura chegava no pico e o rendimento de qualquer evento era limitado.

Aqui no Rio Grande do Sul eu sempre convivi relativamente bem com o frio.   

Eu lembro do tempo de criança em que as estações me pareciam mais marcadas, mais diferenciadas entre si, do que atualmente.  Inverno era inverno.  Eu não lembro de dias quentes no meio do inverno como existe atualmente. 

Eu lembro, também, dos dias frios em que eu me deslocava da minha residencia para as aulas de piano com a Madre Aliende no Colégio das Irmãs Teresianas.   Era o ano de 1950 e eu percorria seis ou sete quadras que me pareciam imensas até chegar ao colégio das freiras. 

Eu penso que eu recordo mais a época das aulas de piano porque eu me deslocava sozinho pelas ruas.   No horário do colégio eu ia junto com o meu irmão menor e nós conversávamos o tempo todo. 

Houve um tempo, 1953-54, em que eu sai dos colégios das freiras e fui estudar no Colégio Professor Chaves que ficava localizado na rua Rivadávia Correa junto à linha divisória com Rivera, Uruguai. 

Nessa nova fase eu passei estudar piano na casa da professora Mariazinha Escosteguy, esposa do, à época, coronel Irzo Sardenberg. 

Era frio, e eu lembro que eu lia nas paredes dos muros as propagandas eleitorais daquela época.  Era uma forma de me distrair e não sentir o frio e a demora em chegar à aula.

Finalmente, o ano de 1955.  Eu tinha 11 anos incompletos e fui matriculado no Curso de Admissão do Ginásio Santanense, pertencente aos Irmãos Maristas.  

Seria uma espécie de saída do Curso Primário e eu estava matriculado no Curso de Admissão ao Ginásio. 

Foi o fim do frio da infância na minha lembrança  porque foi a troca da calça curta pela calça comprida.   E, mais.  Nessa época o uniforme dos maristas era semelhante aos uniformes militares.  Tecido grosso, calça comprida, túnica, boné, sapato preto, cinto grosso, tudo ao estilo militar.  Era o fim do frio no meio de tanta roupa.

Tudo isso me passa à frente, à mente, à medida que vou caminhando por Porto Alegre com temperatura muito aquém do que estou acostumado a enfrentar quando ando como um João ninguém.   

O vento constante sopra de forma insistente a tornar intolerável o que seria uma mera andança pela vizinhança.   

À essa altura eu tenho dúvida se teria sido o frio abrupto que me fez lembrar de tudo o que lembrei ou teria sido a infância esfuziante que volta à consciência quando já caminhamos um tanto bastante do que precisávamos andar    

FOTO ABAIXO: O frio atrasou, mas chegou para valer no Rio Grande do Sul, Porto Alegre ao fundo, em 06.07.2019

RIO GRANDE DO SUL, post 44, em 08.07.2019, o frio e as lembranças das estações

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