Porto Alegre, 07 de agosto de 2019

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 18h10, 20 graus, pancadas de chuva para amanhã à tarde 

Há alguns pontos na guerra comercial entre a China e os Estados Unidos que não podem deixar de ser considerados à medida que a desaceleração global se consolida.  

O ponto inicial está relacionado ao comportamento sistemático do presidente Donald Trump.  Ele vem com opiniões formadas e inflexíveis.  Elas envolvem avaliações de comportamentos de agentes econômicos. 

De repente, sentado na sala oval da Casa Branca, ele encontrou a posição ideal para atacar tudo o que ele considera inadequado aos “interesses norte americanos”.    Eu utilizei os interesses entre aspas porque eu acredito que ele trabalha com uma posição inconsistente frente ao establishment.

Ao contrário de lideranças republicanas anteriores – Harry Truman, Dwight D. Eisenhower, Ronald Reagan, Gerald Ford, George H. W. Bush, George W. Bush – Trump está em embate permanente contra tudo e contra todos. 

Nessas décadas em que eu formei a minha videoteca – hoje são 65 mil horas de gravações – eu acompanhei momentos difíceis da política norte-americana em que se tornava necessária uma aproximação entre lideranças dos dois grandes partidos.  E isso acontecia. 

Temas delicados, situações críticas, eu sempre percebi que nas manifestações conjuntas eram marcadas de respeito mútuo entre republicanos e democratas.   Hoje, já não mais.

Internamente, Donald Trump investe contra oposição e também contra os seus correligionários.  Externamente, o presidente joga pesado contra tradicionais lideranças internacionais defensoras de visões alternativas e também contra parceiros fieis de tantas empreitadas que marcaram a história do século XX.   

Tendo em vista que ele está sempre bombardeando antigos aliados e velhos opositores com novas críticas, os seus posicionamentos anteriores, embora com força menor, formam um estoque de argumentos que é utilizado, vez ou outra, por analistas econômicos do mundo inteiro.

…         

A Trade War é uma dessas matérias que Trump jogou no estoque e que é recuperada a todo o momento para apostar contra a China. 

O que os leitores talvez não saibam é que desde a primeira denúncia da Casa Branca, os chineses e os norte-americanos criaram um grupo de negociação formado por um corpo técnico extremamente qualificado.   Eu acompanhei a primeira rodada que se desenvolveu em Beijing e que teve continuidade em Washington.  

À medida que as rodadas iam se reproduzindo nas duas capitais, os jornalistas divulgavam os avanços e as restrições pendentes para levar a Trade War a um final almejado.  Eu gravava os noticiários dos Estados Unidos e da Ásia porque eu acreditava que a negociação era para valer.  Será que só eu que acreditava?

….

Eu creio que foram quatro negociações consecutivas, cada uma delas formada por reuniões semanais, ora dentro, ora fora dos EUA.  Cada uma das quatro rodadas implicava semanas de encontros do grupo técnico.  Ao final de cada rodada a imprensa divulgava os novos resultados alcançados. 

Na quarta rodada, quando tudo parecia perfeitamente acordado, eis que Trump partia para a utilização de um novo arsenal de tarifas para os interesses chineses.

Em todas as oportunidades os chineses absorviam os golpes.  E, sem se curvarem, reagiram à altura.  Espelhavam a decisão americana e a jogavam de volta para a sua origem na Casa Branca.  E, dessa forma, sempre a guerra comercial voltava ao ponto de partida

…   

Eu identifiquei uma analogia entre as negociações do NAFTA e da Trade War.   Em ambas foram criados grupos de trabalho.  Eles se reuniram por semanas sem fim.   

No caso do NAFTA, Trump ameaçava se retirar do NAFTA 1, de forma recorrente, se os “interesses americanos” não fossem absorvidos pelas negociações.  Trump falava, mas não agia.

No caso da Trade War, os “interesses americanos” eram absorvidos pelo grupo, mas Trump criava novas restrições e o contexto voltava ao marco zero.   Tramp não falava, mas agia.

Hoje, o NAFTA 2 já é realidade com um nome de batismo diferente, o USMCA, ou seja, formado pelas iniciais dos três países.  Trump parou de pressionar mexicanos e canadenses e as negociações chegaram a bom termo.

No caso da Trade War, parece que a estratégia de Donald Trump não tem prazo de validade.  Ele deve prosseguir em sua empreitada sem fazer a menor alteração no comportamento de Xi Jinping.   

O que eu percebo é que, agora, as medidas chinesas estão alcançando os produtores rurais norte-americanos, eleitores fiéis do governo republicano.   Trump sentiu que os petardos asiáticos estão atingindo posições próximas àquelas do seu QG. 

E, sem perder tempo, repassou aos seus correligionários a lembrança que ele foi fiel ao campo até aqui, mas que dias difíceis podem vir à frente.  Estaria Trump falando a verdade?   Parece-me difícil crer que não é um blefe.

A couraça que manteve Trump em guerra estava localizada na economia.  Afinal, pleno emprego não é para qualquer presidente, mas é especial para ele.  

Trump precisa manter o pleno emprego.  Os seus eleitores utilizam um imenso colar em que as pérolas são os empregos e a linha é o discurso do presidente de priorizar o investimento das empresas em território norte-americano.   Ele é especialista em convencer empresas em investir internamente e propalar o argumento que não há porque gerar emprego na China, no México, ou onde quer que seja. 

Ontem eu acompanhei o movimento nos mercados da Ásia na madrugada daqui.  Passado o susto do primeiro dia a tendência dos mercados é de acomodação (vou preparar um post sobre essa ideia). 

Para finalizar o post eu acessei hoje a página de Business do New York Times e fui à seção de Markets.  O que eu encontrei? 

Eu localizei o comportamento dos principais índices do mercado asiático na ultima noite, ou seja, 24 horas após a grande quedas das bolsas. Com um delay de, pelo menos, 15 minutos, como é usual. 

Esse apanhado eu realizei levando em consideração a diferença de 11 horas entre o fuso de Beijing e o horário do meu beco que é “acompanhado pelo horário de Brasília”.   

Eis os resultados obtidos entre os quatro principais índices do continente asiático.  Lembrando que o levantamento abaixo corresponde a 24 horas após a grande queda dos mercados da segunda-feira. 

O índice Nikkei 225 do Japão estava cotado em 20.516,56 pontos, correspondendo a quedas de -0,33% no dia, -5,66% nos últimos 30 dias e -9,47% nos últimos doze meses.   

O índice Hang Seng de Hong Kong estava cotado em 25.997,03 pontos correspondendo variações de +0,08% no dia, -9,65% nos últimos 30 dias e -7,97% nos últimos doze meses.

O índice Shangai Composite da China estava cotado em 2.768,68 pontos, correspondendo variações de -0,32% no dia, – 8,05% nos últimos trinta dias e -0,38% nos últimos doze meses.

Por últimos, o índice All Ordinaries da Austrália estava cotado em 6.588,50 pontos, correspondendo variações de +0,64% no dia, -3,56% no mês e +3,91% nos últimos doze meses.  

Como se percebe nas variações acima, o o ocorrido na segunda-feira não se repetiu na terça-feira.  Para ter continuidade ininterrupta de quedas, na minha percepção, os fatos geradores da crise deveriam ter outra causa que não as palavras e mais palavras, as ameaças e mais ameaças de Donald Trump.

O fato de não ter continuidade no dia seguinte não impede que daqui há mais alguns dias haja nova variação abrupta.   Os mercados ficam muito sensíveis a qualquer fato superveniente.  A incerteza é imensa nesse momento.  

Eu percebo que a recessão em âmbito internacional passou a ser citada com uma frequência muito maior do que acontecia há umas três semanas.  

Para não tornar o post muito extenso eu deixei de analisar as desavenças entre Donald Trump e Jerome Powell.  Em plena guerra comercial eu imagino que Trump está fulo de raiva com Powell.  Trump quer os juros em queda para ontem; Powell não promete a queda nem para amanhã.

Em suma, Trump tem que conviver com o renminbi desvalorizado e com os juros nos patamares atuais.  O que será que ele irá tuitar amanhã, pela manhã?  

É isso aí.  Mais uns quinze dias e eu faço um novo apanhado sobre o contexto em torno da Trade War para manter o leitor do blog atualizado sobre os últimos eventos. 

Boa noite, leitor do blog!

FOTO BAIXO: Porto da capital gaúcha, Porto Alegre, julho de 2019.

CASA BRANCA, as últimas dos EUA, post 08, em 07.08.2019, uma reflexão em torno da guerra comercial

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