Porto Alegre, 20 de agosto de 2019

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 12h10, 16 graus, sem chuva 

Não tem como.  Eu quero focar em outros temas, mas eu não posso ignorar que o mundo está centrado na possibilidade da chegada de uma recessão global para o segundo semestre do próximo ano. 

Eu trabalho à frente da televisão.  Eu não a desligo nunca.  Só quando tem algum fato superveniente que eu desconecto da conjuntura internacional pelo tempo necessário e logo retorno ao meu ponto de observação da economia. 

Hoje, quando o dia começou aqui no beco, conectado, eu já me deparei com um verdadeiro arsenal de informações sobre a recessão que está em curso.  Eu confesso que estou em uma situação de extremo desconforto porque eu me incluo entre aqueles que não concordam com o argumento que a recessão está aí e que é preciso agir preventiva e rapidamente.   

Nas seis recessões norte-americanas anteriores eu me sentia “a bordo” dos eventos.  Nessa, não.  Na recessão mundial de 2009 era sinal para um lado, sinal para o outro.  Eu acompanhava essas movimentações e as analisava.  Agora, há poucos fatos concretos quando comparados àqueles das crises anteriores.  

Ao mesmo tempo eu não posso negar que os analistas não mudam de assunto e, pior, pedem providências para evitar o pior.  Tendo em vista que as medidas solicitadas são as mesmas de eventos semelhantes do passado recente, fica fácil tomar partido em um, ou outro argumento.

Para o meu gosto, as polêmicas atuais são pertinentes.  Isso porque há um contingente expressivo de analistas que pedem comprovação que a recessão está chegando.  Eu acredito que me alinho a esse grupo.  Eu também busco provas que a recessão está configurada e que tudo é uma questão de tempo.

Alguns economistas que eu acompanho há muitos anos através da minha videoteca estão exigindo que a desaceleração seja mostrada na mídia. 

De concreto, o PIB mundial de acordo com o World Economic Outlook (WEO), o Panorama Econômico Mundial do FMI, mostra que a taxa de crescimento foi de 3,8% (2017), 3,6% (2018) e está estimada em 3,2% (2019).  Esses números até eram maiores, mas o FMI reduziu em 0,1% a taxas de crescimento de 2019.   O Fundo previa 3,3% de crescimento do PIB para o corrente ano e o reduziu para 3,2% no mês passado. 

Isso é o que há de evidência.  Então. quando os jornalistas indagam aos entrevistados nas economias avançadas, onde está a desaceleração, ela está no parágrafo anterior.  Daí até uma recessão em 2020 é preciso muito argumento.   

Paralelamente, sob a óticas das economias nacionais, eu lembro ao leitor que a economia norte-americana convive com taxas de crescimento de 2,9% (2018) e 2,6% (2019).  Trata-se de uma desaceleração muito tênue.  No caso da Zona do Euro, o PIB cresceu 1,9% (2018) e deve registrar incremento de 1,3% (2019).  Por fim, o Japão já mostra sinais mais próximos de uma possível crise, 0,9% (2019) e 0,8% (2018). 

Isso que eu registrei acima é também o que há de evidência.  Ou seja, frente à indagação da prova da desaceleração os números para EUA, UE e Japão são esses.   E assim, mais uma vez, daí até uma recessão em 2020 é preciso muito argumento. 

A par de todos os números listados , os jornais da Europa dão conta nessa terça-feira que o Bundesbank comunicou que a Alemanha deverá entrar em recessão durante o próximo mês de setembro.   Um ponto a favor dos que estão convencidos que a recessão mundial ocorrerá no segundo semestre do próximo ano.

O pior de tudo é que ao alinhar algumas ideias em torno da desaceleração, os executivos se mostram apreensivos por crescimento econômico.  Muitos executivos não pedem provas da desaceleração, mas estão desesperados por crescimento.

A par da descrição da conjuntura atual, os gráficos abundam pelas telas da televisão.  Eu creio que o indicador mais apresentado é o comportamento do S&P Futures, mas não posso deixar de citar também o Dolar Index Spot.   

No contexto da polêmica sobre a presença da recessão, os gráficos mostrando o comportamento dos indicadores são acompanhados por sinais de decolagens e/ou de pousos.

Nesse sentido eu vejo com frequência o destaque dado à elevação dos rendimentos dos grande grupos empresariais.  Simultaneamente, eu percebo a ênfase dada à fuga das taxas negativas quando se trata de dinheiro novo nos mercados. 

Eventualmente eu tenho assistido algum comentário referente ao comportamento das cotações da onça do ouro.  Eu escrevi um post recente explicando a importância do ouro em momentos de muita incerteza para os investidores.    Recomendo ao leitor do blog que leia o post que eu publiquei no dia 09 de agosto.   Por enquanto a cotação da commodity parece ser uma preocupação de longo prazo, mas não se pode deixar de registrar que a valorização da onça já é um fato concreto.

… 

No meio de toda essa polêmica, eu assisti hoje uma entrevista concedida por Eric Rosengren ao canal Bloomberg.  Nos Estados Unidos o Sistema de Reserva Federal é formado por diversos Bancos da Reserva Federal.   No caso de Eric, ele é o presidente do Banco da Reserva Federal de Boston. 

Na matéria divulgada na televisão, Rosengren afirmou que as condições da economia são ainda muito boas.  Ele comunga com a ideia que os economistas ligados ao setor privado não enxergam uma recessão.  Ou seja, se não há problemas não há porque implementar medidas de afrouxamento monetário.  

No raciocínio explicitado pelo presidente do FED de Boston, ele mostrou-se convergente aos argumentos de Jerome Powell.  Não é possível pensar agora em novas reduções nas taxas básicas de juros.

Donald Trump também toma parte na polêmica à medida que ele pede um corte de 100 pontos da básica de juros.   Embora ele tenha sido o responsável pela indicação de Jerome Powell para o FED, as desavenças entre ambos já vem de algum tempo.   Trump defende o corte e 1,00% na taxa; Powell, rejeita qualquer corte no momento.

À essa altura é preciso estar atento à programação de Jackson Hole Economic Symosium que acontece na próxima sexta-feira na cidade do mesmo nome e que fica localizado em um vale ao Oeste do Estado de Wyoming nos Estados Unidos.   

O evento que é promovido pelo Banco da Reserva Federal de Kansas City conta com a presença de lideranças dos bancos centrais e de representantes de governos e da mídia, além de executivos, cientistas e analistas voltados para a economia internacional.

No evento são tratadas visões de longo prazo para a política econômica, ao mesmo tempo em são discutidas políticas relacionadas à coordenação de atividades dos bancos centrais, os riscos vigentes na conjuntura econômica internacional e a situação de países que convivem com crises recentes. 

Por tudo isso, eu acredito que Jackson Hole é o ambiente adequado para que o tema da recessão global seja devidamente analisado por quem tem a tarefa de tomar medidas preventivas para evitar o pior.

Boa tarde, leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  Rua da Praia ao anoitecer, Centro Histórico de Porto Alegre, agosto de 2019. 

   

 

 

CENÁRIO ECONÔMICO o que vem por aí, post 16, em 20.08.2019, ainda a recessão mundial

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »