Porto Alegre, 11 de setembro de 2019

Horário do beco da rua General João Manoel, 12h10, 15 graus, frio e chuva estão de volta

Eu nasci em Livramento, Brasil, uma cidade vizinha à cidade de Rivera, Uruguai.   Minha mãe, Stella, era uruguaia e o meu pai, Aleixo, era brasileiro.  Órfão muito cedo, em 1908, o meu pai foi criado por uma família uruguaia e viveu boa parte da sua vida no interior do Departamento de Rivera. 

FOTO ABAIXO:  Aleixo Fraquelli, 104 anos, Stella Coitinho Fraquelli, 89 anos, meus pais, ambos já falecidos. 

 

Anos mais tarde, meu pai veio do interior do Departamento para trabalhar na cidade uruguaia. Paralelamente, foi a família de minha da minha mãe que deixou Rivera e se transferiu para Livramento.  Isso no final dos anos 20 ou início dos anos 30, uma década antes de eu nascer, em 31 de agosto de 1944.

 

FOTO ABAIXO: Participação do nascimento do autor do blog, em edição do jornal A Plateia de 01.09.1944. 

 

A par de trabalhar em Rivera, durante alguns anos o meu pai foi empregado de uma casa bancária que havia em Livramento.  A empresa se chamava Sociedade Comercial Sul Brasil Limitada que tinha sede em Livramento e filiais em diversas cidades do Rio Grande do Sul e na capital do país, o Rio de Janeiro.

 

FOTO ABAIXO: Propaganda da casa bancária SUL Brasil em edição de A Plateia, de 01.09.1944.

 

Desde menino eu fui muito ligado ao cinema.   Na minha cidade natal havia o Cine Teatro Colombo, mas no lado de Rivera, Uruguai, os brasileiros tinham quatro cinemas – Grand Rex, Avenida, América e Astral – disponíveis.  

A infraestrutura oferecida à população dos cinemas de Rivera era muito superior àquela existente do lado de cá da fronteira. 

A par da atividade desenvolvida no palco do teatro, como é o caso da matéria divulgada na nota do jornal daquela época, o Colombo tinha uma programação um tanto concentrada em apresentação de seriados para os adolescentes nas tardes de domingo. 

 

FOTO ABAIXO:Apresentação da cantora Olga Praguer Coelho no Cine Teatro Colombo, jornal A Platéia, 01.09.1944

 

Já a programação noturna que começava no horário de 20h45 apresentava dois filmes.  O preço para assento na Platéia era de CR$ 1,50 e na Geral o preço da cadeira era de CR$ 0,80.   

 

FOTO ABAIXO: Programação do Cine Colombo correspondente ao dia 01.09.1944

 

Já os cinemas de Rivera apresentavam semanas e mais semanas de filmes franceses, italianos, russos e assim por diante.  Aos domingos, havia uma programação que iniciava em torno de 13h00 e encerrava após às 20h00.  Adolescente, eu assistia quatro filmes durante as tardes de domingo, e como eu boa parte dos jovens da minha cidade natal. 

É dessa época o meu interesse pelo cinema.  E, creio, eu o mantive vivo até o fim dos anos 50 e meados dos anos 60.  Depois, eu passei a ter atividade profissional muito intensa e pouco tempo restou para o lazer. 

De qualquer forma, o post de hoje tem a ver com cinema.  Eu gostaria repassar ao leitor do blog algumas informações ligadas a dois filmes que eu vi e que me marcaram como apreciador da arte.  Um eu assisti há muitos e muitos anos; o outro, nessa semana. Por que?  Porque eu penso que é possível realizar algumas comparações entre ambos.

O primeiro filme leva o título de IL SORPASSO, Aquele que sabe viver.  Ele acontece no dia 15 de agosto, data em que os italianos comemoram a Ferragosto, a festa de assunção da Virgem Maria. 

O filme de 1962 é estrelado por Vittorio Gassman, Jean Louis Trintignhant e Catherine Spaak, e dirigido por Dino Risi.  O filme é preto e branco e acontece em Roma e na Toscana durante a Ferragosto.   

Eu lembro que o filme começa com o play boy Bruno (Gassman) de 42 anos se deslocando em um carro Lancia Aurelia B24 por Roma a procura de um telefone público durante o fim de semana em que tudo está fechado na capital italiana. Quando ele encontra um aparelho ele vê que em prédio vizinho está Roberto (Trintignhant) estudante de direito realizando algum compromisso discente.  

Bruno convence Roberto a acompanhá-lo e a história se desenvolve com muita ação.  Bruno é um bon vivant que sabe tudo, fala sobre tudo, fala alto e parece que pouco ouve.  Leva Bruno por todos os lugares.  O estudante tímido conhece nessas andanças a filha e a ex-mulher de Bruno.   

É uma comédia romântica que se desenvolve no mundo do pós-guerra.   Todo o filme gira, até onde eu o lembro bem, em torno de Bruno, vivido por Vittorio Gassman.  

As cenas ao longo da estrada dentro do carro Lancia, a interação com outros automóveis que viajam na mesma estrada, a chegada a locais de repouso, a ida a ambientes com presença de muita gente, tudo acontece com muito bom humor. 

Eu lembro que durante muito tempo eu queria saber como era o título do filme.  Certa ocasião, conversando com o meu colega e amigo Enéas de Souza eu indaguei-lhe sobre o espetáculo e ele me deu o nome do filme, Il Sorpasso. 

Pois nessa semana eu lembrei desse filme porque assisti um outro que mostrava algumas semelhança com o anterior.

Dessa vez eu estava em casa, era em torno de meia-noite, liguei a televisão em busca de um programa de esportes mas dei de cara com o filme A GRANDE BELEZA.   

Eu não sabia do que se tratava, mas fui assistindo, assistindo, assistindo e fiquei até o fim do filme.  Fui achando interessante, as imagens eram muito bem apresentadas, o conteúdo fazia o espectador pensar sobre o que ia acompanhando.

O filme é a história do jornalista Jep Gambardella, com uma atividade noturna intensa e que elabora uma análise da sua existência ao longo do filme.  A direção é de Paolo Sorrentino. O filme é de 2013.

Em IL SORPASSO, Vittorio Gasmann é um playboy de 41 anos enquanto que em A GRANDE BELEZA o ator Tony Servillo é um escritor de 65 anos.

Jep escreveu “O aparelho humano”.  Durante o filme ele curte a sua fama e vive em festas da alta sociedade.  Assim como Gassman, Servillo é o tipo sabe tudo.  Ambos conhecem todo o mundo.  Gassman é mais expansivo enquanto Servilho faz um papel mais contido.

As imagens do filme dirigido por Sorrantino são notáveis.  As mudanças de cena são bruscas.  Cada personagem que contracena com Jep tem uma história marcante. 

Tendo passado todo o filme adiando a elaboração de uma nova obra, citando autores, fazendo apenas o que deseja, falando sobre artes e literatura, encerra com uma imagem extraordinária de Roma.  

Dois filmes que fazem o espectador pensar em torno da vida.  Creio que levo os conteúdos de ambos pelo conteúdo das obras bem como pelo desempenho dos atores.

Boa tarde leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  Dois estabelecimentos comerciais bastante próximos um do outro, localizados na Rua Rivadávia Correa e que eu frequentava nos anos 40 e 50.  A Casa Caggiani, onde a meus pais adquiriam sapatos, era de propriedade do pai do meu colega de colégio Sergio Caggiani.    A Fármácia Nacional, conhecida como a Farmácia do seu Bica, era um dos locais em que eu ia comprar medicamentos com muita frequência.  As propagandas são da edição de 01.09.1944 do jornal A Plateia, de Livramento. 

      

MEMÓRIAS e outras histórias, post 56, 11.09.2019, dois filmes nas minhas lembranças

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