Porto Alegre, 05 de outubro de 2019.

Horário oficial do beco da rua General João Manoel, 18h10, 17 graus, choveu todo o dia

A análise do cenário econômico, pelo que pude perceber nesses 50 anos, apresenta fases diferenciadas.  Eu lembro de períodos de euforia e, outros, de decepção, de perspectivas óbvias e de fases surpreendentes.  Entre as tantas experiências que eu vivi como economista, eu lembro, em particular, das recessões globais.

Em muitas ocasiões eu escrevia durante meses, anos, sobre o “voo de cruzeiro” do desempenho mundial.  Um detalhe aqui, outro detalhe ali, mas o crescimento mundial me parecia bastante forte, consistente, para atravessar todas as adversidades que se apresentavam no contexto da conjuntura econômica internacional.

De repente, “e não mais do que de repente”, eu começava a perceber que algo parecia estar errado.  Havia algum indicador que começava a destoar dos demais.   Eu prosseguia elaborando os meus posts, mas um tanto atento àquele sinal que eu havia percebido ao longo das últimas jornadas.         

Um dado momento, fosse em Cingapura, em Nova York ou em Frankfurt, eu constatava que alguém sinalizava a possibilidade que uma recessão em uma fase de formação.   Assim como eu tenho o hábito de passar madrugadas acompanhando as tempestades que assolam o Hemisfério Norte e informo o leitor do blog sobre a intensidade dos cataclismos, também eu passava a me concentrar sobre a trajetória da recessão em curso.

Para exemplificar ao leitor do que eu estou falando, eu lembro da mais recente experiência que tive, aquela que ficou conhecida com a Grande Recessão de 2009.  As primeiras anotações sobre o que viria a acontecer eu comecei a redigir em setembro de 2007. 

Eu trabalhava num local anterior ao atual, que era um tanto apertado.  Eu sentava frente ao computador e tinha que desempenhar nas condições que eu dispunha.  Ligava a Internet e precisava aguardar que a conexão se estabelecesse até que enfim eu estava na rede.

Aí eu começava o meu trabalho.  O mais difícil era o que eu chamo de marco zero.  O que significa?  Objetivamente, é identificar, pela primeira vez nas circunstância dadas, que uma recessão pode se formar nos próximos meses. 

Convicto que uma recessão está em curso, a partir daí é um trabalho intenso de buscar informações que corroborem com o meu diagnóstico.   É preciso percorrer virtualmente todas as principais fontes e ir elaborando textos procurando convergir o post para as análises que eu elaborei anteriormente.     

No caso da Grande Recessão de 2009, eu citei a data de setembro de 2007 porque foi o momento que eu encontrei na Áustria um link com o que eu havia identificado dois dias antes nos Estados Unidos.    Mais alguns dias e eu percebi a presença de novo link na Ásia e o processo se consolidou.

No caso da ameaça da recessão global atual, eu detectei que algo estava “errado” na conjuntura internacional há uns quatro meses ou algo em torno disso.  A propósito, eu escrevi um post nesse dia registrando o fato. 

Rapidamente eu percebi que se formou uma polêmica em torno dos que concordavam e os que discordavam quanto à possibilidade da recessão.  No começo eu tomei partidos dos últimos.

Posteriormente, eu confesso que seria irracional manter a minha posição inicial se a Trade War vinha apresentando impacto na Economia e não mostrava qualquer sinal que uma negociação entre as partes poderia levar a algum acordo no curto prazo. 

Abri mão das minhas análises recentes, em que eu focava no voo de cruzeiro da economia internacional, e passei a procurar novos indícios da presença da recessão.

Nas últimas semanas a pressão para o FED reduzir a taxa de juros se intensificou a olhos vistos.   Ela foi reduzida em mais uma oportunidade e tudo leva a acreditar que uma nova queda de 25 pontos básicos deve acontecer até o fim do ano.

No dia 06 de setembro, Jerome Powell esteve em Zurique.  Foi um outro Powell que eu conheci nessa ida a Suiça e que eu acompanhei, na televisão, a sua entrevista coletiva para o mundo empresarial europeu.  

Eu conheci outro Powell porque eu nunca o tinha visto tão descontraído.  Tudo era motivo para ele emitir uma opinião com muito bom humor.  As perguntas eram formuladas nessa mesma linha e ele respondia de forma tal que o auditório ria do que ouvia em diversas oportunidades.

Pois foi nesse evento em Zurique que Jerome Powell disse que não via qualquer recessão no horizonte.  E, mais, que não trabalhava qualquer cenário com a presença de uma recessão.

A partir de então eu passei a trabalhar a matéria em outro patamar de interesse.  Eu pensei que se ele estava negando o fenômeno, ele o fazia de boa fé, mas ao mesmo tempo eu imaginava que se ele tinha trazido tal assertiva para uma entrevista de tamanha importância era porque ele deveria conviver com uma pressão enorme em seu ambiente de trabalho. 

Inclusive, do presidente Donald Trump.

E, sem esquecer de a presença de mais uma Trade War, em sua fase inicial é verdade.  Aquela entre Donald Trump e os antigos aliados norte-americanos que constituem a atual União Europeia.  

Os dias passaram.  A recessão continuou no foco.  As bolsas se mantiveram avançando.  E, repentinamente, surgiram as desconfianças.  Era agosto.  O mês do desgosto?  Enfim, elas também evoluíram e houve a primeira correção de percurso.  As bolsas sentiram.  Seria o efeito da recessão que tomava forma?

Que nada, as bolsas voltaram a avançar.  Incerteza?  Nem tanto, os mercados continuam otimistas.  E veio o segundo o ajuste.   As bolsas voltaram a reagir e veio o terceiro ajuste.  E nessa sequência de stop and go, o “último stop” aconteceu.  No calendário, quarta-feira, dia 02 de outubro.

O novo cenário incluirá uma correção das bolsas internacionais? 

O Instituto para Gestão de Ofertas, com sede em Tempe no Arizona, que mostrou que o momento da Indústria é comparável àquele da última Recessão.  Pronto! O dado do PMI parecia, e parece, não deixar dúvida que uma crise pode ser um fenômeno concreto.

Atenção aos navegantes, atenção no mercado do petróleo e do ouro.  O ouro negro empurra ou o ouro contém a conjuntura que está aí?

 Como piloto brevetado em 1963 se há céu de brigadeiro eu miro no petróleo, se há bruma, eu foco no ouro.  E assim os dias vão passando e eu sigo a observar essa dupla de dimensões – política e economia – e ver se há um avião da Panair em pleno voo…

Até amanhã, leitor do blog! 

FOTO ABAIXO: Os meus cinco netos, em imagem de 2016, fazendo pose para a posteridade

 

CENÁRIO ECONÔMICO, o que vem por aí, post 17, 05.10.2019, recessão e bolsas

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