Porto Alegre 29 de outubro de 2019

Horário oficial do beco da Rua João Manoel, 18h10,  23 graus, temporal desde a madrugada

Desde menino eu fiquei ligado à imagem de Getúlio Vargas do lado de cá, e à disputa entre blancos e colordos, do lado de lá da fronteira.    Explico melhor.  Eu morava na mesma quadra em que estava localizado o diretório do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).  Comícios, foguetes, grande contingente de populares, microfones nas alturas faziam parte do ambiente que cercava a minha residência. 

Paralelamente, eu morava a duas quadras da linha divisória entre Brasil e Uruguai.   E eu comprava tudo do lado de lá, do pão à carne.  Eu estudava inglês, matemática, ciências, pintura a grafite, piano, enfim todas as minhas atividades culturais eram desenvolvidas em Rivera.   O meu pai trabalhava no Uruguai e a minha mãe era uruguaia. Nas aulas entre os castelhanos eu me surpreendia com o interesses que ele demonstravam, diariamente, por assuntos voltados à política.

Eu sentia que eu precisava entender um pouco mais o que os meninos e as meninas falavam, com muita propriedade, em sala de aula.  Mesmo com as explicações que eu recebia em casa, eu ficava boquiaberto com o discernimento dos meus colegas.   De manhã eu frequentava o Ginásio Santanense dos Irmãos Maristas e pouco ou nada se falava de política.  À tarde, entre os castelhanos eu vivia outro mundo. 

Em casa eu indagava a meus pais sobre os assuntos que eram tratados em sala de aula.  Por que Blancos? Por que Colorados?   

Os blancos, que representavam os estancieiros e tinham apoio da Argentina, eram os seguidores do presidente Manoel Oribe enquanto que os colorados, que se alinhavam os comerciantes da capital uruguaia e tinham o apoio do Brasil, eram os partidários de presidente Fructuoso Rivera.  

De manhã, em Santana, eu usava o uniforme que era uma verdadeira vestimenta militar, em cor caqui, túnica pesada, mangas compridas, cinto preto grosso, sapatos pretos, com obrigação de usar, inclusive, um quepe. 

De tarde, em Rivera, não havia nenhum uniforme para vestir, mas a palavra que eu mais ouvia entre as criança era paro, greve em português.   Os colegas falavam muito alto, pareciam estar sempre na iminência de brigar e tudo era motivo de polêmica. 

Transcorria a década de 50, mais precisamente, o ano de 1954, o Corinthians era o campeão do IV centenário, Baltasar, o cabeça de ouro corintiano era o craque do Brasi, houve a morte do cantor Chico Alves e o suicídio do Presidente Vargas.   Baltazar tinha fama de um Pelé, Chico Alves era o cantor mais lembrado nos programas de auditório de rádio que eu participava e, Vargas, parecia estar acima de tudo para um menino da minha idade. 

Minha mãe comprava a revista O Cruzeiro e o meu pai assinava o jornal O Correio do Povo que na época era um jornal denso com muitas páginas.   Eu era o responsável para buscar a revista e o jornal na banca do Sr. Madureira que ficava localizada no abrigo dos ônibus, na avenida Tamandaré na esquina do Parque Internacional.    

Eu voltava para casa lendo o jornal.  Sempre havia notícias de alguma guerra na primeira página.  E assim eu conseguia acompanhar e entender alguma coisa do mundo dos adultos, além do que eu aprendia em casa e no colégio. 

Na minha época de menino quando eu ia para as aulas em Rivera eu passava no meio dos comícios.  O líder blanco era Herrera e o lider colorado era Battle.  Um dia eu entendi que a minha mãe era simpatizante de Herrera.  Quiz saber o porquê?  Ela foi rápida na resposta.  As bandeiras vermelhas faziam lembrá-la da Guerra Mundial.  O que isso tinha a ver com a minha pergunta?

Eu nasci em 1944, um ano antes do fim da guerra.   Eu lembro que desde tenra infância sempre se falava em guerra na minha casa.    Era um tema recorrente.  Dez anos depois, 1954, já tinha acontecido a Guerra da Coreia, a Guerra Esquecida, aquela que terminou via armistício, sem um ganhador.

Então, além do assunto de casa ser sempre a guerra, ou as guerras, em Livramento os italianos foram muito pressionados e aconteceram muitas manifestações populares na frente das residências de alguns deles.   Minha mãe, embora uruguaia, falava sempre no medo das bandeiras vermelhas.  Eu não entendia o porquê.

As opções à época era ser blanco ou colorado.  Os partidários de Battle carregavam sempre bandeiras vermelhas.  Daí, eu imagino, que ela optou por Herrera, mesmo sendo aquele para o qual convergiam as preferencias dos estancieiros, por causa das imagens que ela carregava na memória.

Eu acredito que ela não esquecia das multidões, à noite, em frente às casas de alguns descendentes de italianos, fazendo tremular bandeiras vermelhas e brandindo acusações contra os residentes.   

A minha mãe e toda a sua família deixou o Uruguai e veio morar no Brasil quando ela tinha dez anos de idade. 

Eu imagino que deve ter sido difícil abandonar escola, amigos e o idioma e, de um dia para outro, nascer de novo em outro país.  Assim como o temor às bandeiras eu lembro que ela sempre repetia que não era migrante e que jamais abandonaria a cidadania uruguaia.  Eu sou uruguaia e tenho a honra de ser castelhana, ela repetia com muita frequência.   

Em 1971, quando eu estudava nos Estados Unidos, surgiu a Frente Ampla no Uruguai.  O ambiente político que eu conheci no país  mudou.  O Partido Colorado perdeu espaço eleitoral. 

No pleito de domingo a disputa aconteceu, principalmente, entre a Frente Ampla e o Partido Nacionalista, o blanco.  Os colorados continuam no embate, mas com preferência menor do eleitorados.

Encerrada a contagem dos votos, os resultados do primeiro turno mostraram que Daniel Martinez da Frente Ampla obteve 939.363 votos (39,17%),  Luiz Lacalle Pou do Partido Nacionalista (Blanco) alcançou 685.595 votos (28.59%), Ernesto Talvi do Partido Colorado obteve 295.500 votos (12.32%)  e Guido Manini Rios do Cabildo Abierto, fundado recentemente,  atingiu 260.959 votos (10.88%).

Os dois candidatos derrotados – Ernesto Talvi e Guido Manini Rios – prometeram apoio a Lacalle Pou, forma encontrada para buscar uma convergência de propósitos nos segundo turno e encerrar a dominância da Frente Ampla no poder.   Somados os três partidos de oposição chegaram a 51,79% do total da preferência do eleitorado. 

Agora, o desafio de Daniel Martinez consiste em quebrar com a lógica do voto útil e buscar os votos necessários para alcançar a maioria dos 50% mais um voto.   A tarefa é árdua.  O desgaste de ser governo cobra o seu preço.   Eleitores dos partidos adversários estão definidos.  Haveria espaço para buscar apoio entre aqueles que não se apresentaram no pleito?.

Outros candidatos dos demais partidos apresentaram resultados menores.   São eles, pela ordem, o Partido Ecologista Radical Intransigente, o Partido de la Gente, que também prometeu apoio a Lacalle Pou,  a Unidade Popular e o Partido Independente. 

O que eu ouvi de analistas castelhanos é que muitos eleitores do centro que votaram na Frente Ampla nas eleições anteriores, agora optaram por acompanhar a oposição.

Desde o domingo eu estou com o computador ligado na Rádio Carve de Montevidéu.  Realmente o meu lado castelhano acompanha as discussões políticas o dia inteiro.   Não tem uma folga.  Nesse vai e vem das mudanças de estacões de rádio eu tenho ouvido muitas referências ao presidente Bolsonaro. 

Os radialistas tem repetido que Bolsonaro disse que os argentinos escolheram mal ao votarem em Alberto Fernández.  Outra ponto  que tenho ouvido é que o Presidente criticou os chineses durante todo o tempo e, agora, em visita o país, ele resolveu “se rebobinar” e dizer que busca investimentos.   Eu nunca tinha ouvido o termo rebobinar no sentido de mudar de opinião.

O Uruguai está na iminência de virar para a direita no ballotage?   No Parlamento as disputas também foram renhidas. 

...

Para o período 2020-25, a Frente Ampla elegeu 42 deputados na Câmara dos Representantes contra 30 do Partido Nacional, dos Blancos.  A frente perdeu 8 escaninhos e os blancos ganharam 2 cadeiras das eleições de 2014 para o pleito de 2019. 

O Partido Colorado manteve a mesma representação sem alterar o tamanho da bancada, 13 deputados, enquanto que o Cabildo Abierto, que não existia em 2014, tem agora 11 representantes na Câmara Baixa.

Já no Senado, a Frente Ampla perdeu duas cadeira e elegeu 13 senadores, os blancos com 10 assentos e os colorados com 4 cadeiras, mantiveram a mesma representação do pleito anterior, enquanto que o Partido Independente perdeu a única cadeira que dispunha ao passo que o Cabildo Abierto elegeu três senadores.

Uma palavra sobre a minha terra natal.  Rivera foi o único departamento do Uruguai em que o Partido Colorado saiu vencedor, com uma diferença de mil votos sobre os blancos.  Exatamente o das bandeiras vermelhas. 

Por ora, é isso aí.   Nos próximos dias eu redigirei um post sobre as perspectivas para o Uruguai.  Estou sempre muito ligado no Uruguai porque lembro de meus pais, da quantidade de familiares de Taquarembó e de Montevidéu que nos visitavam sistematicamente, dos parentes que moravam em Rivera, e de toda a minha adolescência do lado de lá da fronteira.   Todos eram muito comunicativos.   Tudo era motivo de uma boa discussão e de muito riso e de muita alegria.

A minha vida no Brasil nos anos 50 representava em ser aluno do Colégio Marista, o Ginásio Santanense, dos colegas de sala de aula, da disciplina rigorosa na cobrança dos estudos e só.   A minha vida como adolescente em Santana teve uma mudança abrupta quando fui estudar na primeira turma do Curso Científico do Colégio Estadual Professor Liberato Salzano Vieira da Cunha.   Eram turmas mistas, professores qualificados, um ambiente muito acolhedor em sala de aula.  Foram novas amizades e uma mudança significativa de humor no dia a dia.   E assim a “vida burocrática” dos Brasil dos 50 deu lugar a um “marco zero” nos anos 60.   

… 

Bueno, como se diz na fronteira, o post já está ficando muito denso e eu encerro por aqui.   Volto a falar sobre o Uruguai nos próximos dias.

Boa noite, leitor do blog!

FOTO ABAIXO: Rua da Praia, Centro Histórico de Porto Alegre, outubro de 2019

 

URUGUAI, estabilidade sempre, post 05, 29.10.2019, algumas divagações e eleições presidenciais

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