Porto Alegre, 24 de março de 2020

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Ontem, eu fiquei surpreso com a entrevista das autoridades brasileiras na televisão.  Foi tudo muito rápido e sem a presença de Paulo Guedes.  Quando eu apanhei o chimarrão para servir o mate, o que me parecia que estava começando já estava, na verdade indo para o seu epílogo.

… 

Explico melhor.  Eu tinha ficado muito preocupado quando eu vi a equipe do ministro Paulo Guedes, no fim de semana ou algo parecido, propondo aquele elenco de medidas totalmente fora de um contexto nacional.   

Daqui do meu beco parecia que cada assessor puxava o assunto para um lado e não havia uma consolidação do conjunto que cabia ser de responsabilidade do titular da pasta. 

E assim eu passei muitas horas sem dirigir o que a equipe desejava atingir com todas aquelas medidas pontuais apresentadas na televisão.  Cada um falava sobre um subconjunto de um possível diagnóstico e jogava medidas para aquele aspecto parcial apenas.

Eu passei o fim de semana pensando que era  preciso que o ministro Paulo Guedes desse uma visão global do que a equipe estava pensando, mas ninguém voltou ao assunto.

Eu estudei Direito do Trabalho na Faculdade de Direito.  Fiz estágio de seis meses na Justiça do Trabalho.  Os meus mestres, o professor Milton Monteiro e o professor Ronaldo, na UFSM, eram autoridades no assunto.   A gente digeriu a CLT como foi possível.  Depois, anos depois, veio a reforma trabalhista.  Mais conteúdo para um tema extremamente sensível. 

E, aí, vem um rapaz e diz na televisão que os contratos de trabalho estavam suspensos por quatro meses.   No momento eu pensei que não era possível ouvir aquilo.   

Passaram alguns dias e algumas horas e o presidente Jair Bolsonaro vetou o artigo da MP que previa a suspensão dos contratos de trabalho. 

À essa altura eu creio que cabe uma observação sobre a entrevista de ontem do presidente.  Ele veio a público, disse meia dúzia de frases e se retirou.  Daqui, do beco, eu sentia como se os ministros tivessem ficado à deriva. 

Retirado o presidente do recinto, os jornalistas procuraram identificar a quem dirigir perguntas que deveriam ser direcionadas a Jair Bolsonaro. 

A pergunta foi formulada sobre a polêmica da MP que teve artigo vetado pelo presidente e ninguém parecia responder. 

De repente, apareceu um assessor em cena e procurou justificar o artigo que já tinha sido vetado.  Ao invés de dizer porque retirar o artigo, ele procurou justificar porque os brasileiros não tinham entendido o conteúdo da medida.

Ao final, com duas ou três perguntas respondidas de forma incompleta, a entrevista foi encerrada sem maiores explicações.

Acho que o momento é difícil.  Eu imagino o exercício teórico para conceber um pacote para o momento.  E assim, de repente, e não mais do que de repente, surge algo, sem um pano de fundo acadêmico, procurando estabelecer meia dúzia de decisões sem qualquer articulação maior.

Vou esperar o próximo capítulo.  É indispensável um titular da pasta que apresente um diagnóstico que convença e estabeleça uma estratégia de ação confiável.

Em resumo, eu fiquei surpreso com a entrevista coletiva para a imprensa porque foi tudo muito rápido e sem a presença de Paulo Guedes. 

Bom dia leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  Avenida Borges com o prédio da Guaspari ao fundo, Porto Alegre, imagens dos meus arquivos, dezembro de 2014.

BRASÍLIA, distante de todos, post 38, 24.03.2020, ainda a entrevista coletiva para a imprensa de ontem, à tarde

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