Porto Alegre, 24 de março de 2020

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Eu fui criado ouvindo minha mãe, que era uruguaia, falando em Monteiro Lobato.  Meus irmão menor e eu recebíamos livros desse autor em nossos aniversários.  Os livros vinham com uma dedicatória escrita pela minha genitora na página de rosto da obra.  E eu lembro que sempre que ela nos entregava o presente ela carregava no sorriso como se ela quisesse demonstrar que o presente era mais do que um simples livro.

O tempo passou e fui saber que Monteiro Lobato era um paulista de Taubaté que faleceu aos 66 anos, em 1948, quatro anos depois do meu nascimento.   Então, à época em que eu era criança, minha mãe certamente deve ter acompanhado os últimos dias do famoso editor e escritor de livros.  Dizem que na última entrevista à imprensa ele falou em “o petróleo é nosso”.

Isso porque minha mãe era muito bem informada.  Na minha casa, no fim dos anos 40 e início dos anos 50, eu ia buscar o jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, na Banca do Senhor Madureira, que era localizada no abrigo dos ônibus que havia na Avenida Tamandaré, próxima à linha divisória com o Uruguai.    

Eu lembro de ter recebido no natal de 1951 ou 1952 o livro Peter Pan, publicado em 1930, de autoria de Monteiro Lobato.  Na obra, Dona Benta conta a história do menino para o grupo do Sitio do Picapau.   Peter Pan reside na Terra do Nunca. 

Monteiro Lobato foi promotor, fazendeiro, empreendedor do mercado editorial, escritor para um público infanto-juvenil e para adultos, criador de personagens, adido comercial nos Estados Unidos, fundador de companhia de petróleo, fundador de empresas para fins de perfuração, criticado por meio mundo por simpatizar com o socialismo, preso político,  autor de um número expressivo de correspondências direcionadas ao engenheiro de petróleo Karl Werner Frankie, o Charley Frankie, em suma, marcou posição no país como um polemista ao longo da sua vida.

…   

A Petrobrás foi criada em 03 de outubro de 1953 por Getúlio Vargas.   As duas primeiras refinarias – Materipe e Cubatão – foram herdadas do CNP existente à época.   

Bem eu escrevi tudo até aqui apenas para dizer que sempre que eu vou a algum sebo eu procuro publicações antigas, aqui do Rio Grande do Sul, para saber o que se debatia em épocas específicas da história do Estado.

Um dia, eu creio que durante o mês de fevereiro, eu fui ao Martins Livreiro e encontrei uma Revista do Globo, número 591, de 25 de julho de 1953, e a levei para casa para ler quando fosse possível. 

Os dias passaram, eu comecei a ler a revista como faço em outras ocasiões com outros materiais publicados, e iniciei a elaboração do post que publico hoje.  De um lado, o meu interesse e a minha curiosidade em torno da obra de Monteiro Lobato; de outro, a Revista e o seu conteúdo.

Quando eu adquiri a revista eu percebi que ela foi publicada um mês antes do meu aniversário, ocasião em que eu completei nove anos.    Nessa época eu estudava no Colégio Professor Chaves, situado na esquina da Rua Rivadávia Correa com a linha divisória com o Uruguai. 

A minha professora da terceira série do Curso Primário, se chamava Casemira.  Eu, assim como os meus irmãos, fazíamos os dois primeiros anos do Primário no Colégio das Irmãs Teresianas.   Depois, íamos para uma escola pública e ali ficávamos até à época da Admissão ao Ginásio, correspondente do quinto primário, quando éramos matriculados no colégio marista da cidade.

Pois bem, nessa época e nessa idade eu já sabia quem era Monteiro Lobato.  Quando eu vi a revista do Globo eu pensei em buscar algum conteúdo que tivesse relação com o autor dos livros da minha infância ou, ainda, com o petróleo.

Não deu outra!  No momento em que cheguei à página 33 e seguintes eu localizei um artigo, ou uma reportagem, assinada por Oswaldo Mendes, intitulada Petróleo no Amazonas.

O que diz a matéria?  Já havia a noção da mensagem “O petróleo é nosso”, mas nada de petróleo na Amazônia.  O autor escreveu que no momento em que surgisse petróleo poderíamos utilizar a frase, que foi utilizada por Getúlio Vargas quando da descoberta do petróleo na Bahia.

De acordo com o texto, em 1953 já se havia gasto durante sete anos na Amazônia sem que se encontrasse uma gota de ouro negro.  O consolo parecia ser que em outros países as autoridades dispenderam um tempo muito maior para chegar ao mesmo resultado.

Os brasileiros começaram a empreitada na Amazônia em 1946.  O padrão de comparação era o caso das reservas existentes na Venezuela.   Foram seis anos de estudos e pesquisas para a escolha do local em que foi utilizada a única sonda existente na região para perfurar o solo.

Foram dois furos na região e o resultado foi nulo.  Na matéria o autor fala na chegada de mais duas sondas para utilização na Amazônia.   A perfuração em Cururu, em Marajó, foi a mais profunda, tendo chegado a 4.100 metros.

A propósito eu fui ao Google procurar a tal perfuração em Cururu e encontrei a matéria correspondente ao endereço abaixo, que faz referência à tarefa.

file:///C:/Users/User/Downloads/3260-19147-1-SM.pdf

Daí todo o equipamento foi levado para o Rio Capim em Badajós, tarefa que levou quatro meses para transferir a sonda de uma localidade à outra.   Na oportunidade em que a Revista do Globo foi publicada, julho de 1953, estava sendo realizada a terceira perfuração na Amazônia com a unica sonda disponível da região.

Em suma, a leitura do texto me mostrou que o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) imaginava encontrar uma bacia sedimentária maior do que a existente na Venezuela.   O CNP era presidido pelo Engenheiro Plinio Catanhede que inspecionou o trabalho em Badajós.  A equipe local estava sob a coordenação do Engenheiro Plinio Carneiro.  Em 1953 havia uma equipe de 500 técnicos na região.  Um geólogo americano, de nome Palmer, aparece em fotografia exibindo amostras do subsolo de Badajós. 

Para encerrar, muitos anos depois, anos 70 ou 80, eu fui apresentar uma palestra sobre cenários econômicos para clientes da empresa.  Eu lembro que eu fui convidado e viajei até Manaus e, de lá, fui levado até Urucu, onde se chegava, ou se chega, somente de helicóptero.  Também estive na ilha de Marajó quando eu participei de um programa de formação de recursos humanos promovido pelo Ministério de Planejamento do Brasil.   Na época eu não sabia das experiências – históricas – com a busca de petróleo junto aos rios Carpim e Cururu.   

Esse post foi importante para mim porque eu fiz uma revisão de alguns fatos que foram importantes para a minha formação e que tiveram inicio lá na minha adolescência.   Ufa!  Encerro, com o meu texto desejando boa noite a todos os leitores do blog.

FOTO ABAIXO:  Avenida Borges de Medeiros, Porto Alegre, imagens dos meus arquivos, 2104

 

ECONOMIA DO PETRÓLEO, post 66, 24.03.2020, das minhas memórias de ouvir falar em Monteiro Lobato à perfuração da primeira sonda na Amazônia

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