Porto Alegre, 08 de abril de 2020

Horário Oficial do beco da rua General João Manoel, 06h10, 14,9 graus C, 66% de umidade, sem chuva

Hoje amanheceu com temperaturas baixas por aqui.  Na verdade, nem foi tanto assim.  O problema é que estamos saindo, os gaúchos, de um verão que fez muito calor.  De repente, 14 graus e a ameaça do coronavírus.  De forma abrupta. E, junto a tudo, o fato de se estar idoso.  Quem sabe a experiência de vida tenha me dado um pouco de paciência.  Quem sabe, não. 

Eu vim de uma família em que éramos três irmãos, durante boa parte da vida.  A única irmã nasceu quando eu já tinha 12 anos e com 16 ou 17 eu mudei para a cidade de Bagé.  O convívio com três irmão homens acontece de um jeito.  Hoje, eu sou minoria.  Em casa somos, ou melhor, na família eu convivo, diariamente, com oito mulheres.  O convívio com oito mulheres acontece de outro jeito completamente diferente.

A vida em isolamento, sem contato direto com familiares e amigos, é uma experiência nova.  Eu tenho lembrado de Robinson Crusoé, de muita importância na minha adolescência.  O romance é de 1719.   Nele, eu era obrigado a conhecer quando criança, a figura do escritor Daniel Defoe. 

Eu achava um pouco monótona a leitura do texto do Crusoé, mas o risco de encontrar canibais em volta dava um tom de emoção, de paralisação, de medo à hora de ir dormir.   E se o cara encontrar os índios, ele vai para a fogueira?   Pobre do sujeito, náufrago, isolado e ao alcance de índios esfomeados. 

Quando eu falo em índios me vem a mente que o dia em que eu atravessava a Galeria do Comércio, em Santa Maria, e encontrei um amigo de infância, o Felisberto Barros.   Na época ele estudava veterinária, me viu e me disse, em voz muito grave, que eu avisasse o meu irmão Zezinho, que estudava agronomia na UFSM, que no cine Imperial da Rua Dr Bozano estava passando um filme em que morriam 326 índios. Eles adoravam filmes de cowboy. 

Eu tenho repetido que no período de criança eu tinha duas ideias na cabeça, a Inglaterra é o teto do mundo e o Rio de Janeiro é o pico do Brasil.  Quando eu conheci ambos os locais, foi uma festa.  Eu me senti um privilegiado.  Nada mais me resta fazer nesse mundo de tantas guerras, pensava eu.

Pois, a vida em isolamento, carregando a ideia que há um vírus à espreita e que pega velhos desavisados muda o script da estória.  Agora pela manhã, no site do CSSE da Universidade de Johns Hopkins, o Brasil contabiliza 14.049 pessoas infectadas e 688 óbitos.  O país ocupa o décimo terceiro lugar no ranking mundial em infecções e a décima segunda posição em óbitos.   O Brasil deu um salto nas estatísticas.  Lamentavelmente, eu sinto que o quadro descrito por Henrique Mandetta, o ministro da Saúde, em entrevistas na televisão começa a se confirmar.

Até recentemente, tudo me parecia um tanto distante.  O coronavírus era uma ameaça longe do Rio Grande.  Afinal, as estatísticas mostravam o vírus lá para “os lados” de São Paulo, Rio, Fortaleza e Manaus.  O resto era o resto.  Quando eu saí do isolamento e fui à farmácia para a vacina eu estava de luvas e máscara e quando cheguei ao local todos estavam vestidos também a caráter.  No percurso, de dentro do automóvel, eu via muito levando máscaras no rosto. 

Andar de luvas e máscara é extremamente incômodo.   O pior é a limitação de respirar livremente.  O que eu via à medida que o carro percorria as ruas da capital me parecia um ambiente de guerra, de caos.   Mas, no fundo, estava a esperança que o Rio Grande ficava longe de tudo.  À noite, o ministro mostrou as estatísticas e realmente a posição do Rio Grande era confortável, contudo ao apresentar os números das capitais eu fiquei impressionado que Porto Alegre é a sexta cidade do ranking nacional.  Caí, instantaneamente, na realidade.   

Que a vida está complicada eu não posso negar.  Toda a atividade de rotina mudou.  É difícil suprir o abastecimento.  O grande supermercado local que eu frequentava não atende em casa.  Eu imagino que os velhos e idosos foram esquecidos pelo nosso fornecedor.  Enchi-me de brios, peguei o telefone e liguei para o estabelecimento, mas fui atendido por uma fita gravada. 

Muitas empresas estão recorrendo à essa estratégia, mas, certamente, devem provocar muito mal estar junto aos clientes.  Ao fim e ao cabo, quando um funcionário atende, depois de uma verdadeira gincana do cliente em apertar botões, ela não demonstra a menor preparação para a tarefa que exerce.  É.  O coronavírus está me mostrando um novo Rio Grande no meio do caminho.  

A higienização pós compras é complicada.  Esqueceu uma mercadoria no pedido, azar.  O pão e os produtos de aquisições diárias, é preciso esquecê-los.   Tem feijão e arroz em casa para umas duas semanas?  E o óleo de soja, e a farinha e o papel higiênico?  Compra quanto de cada produto?  Pão dormido precisa ser conservado porque não se sabe o que vem por aí.

Paro a catarse por aqui.  Os minutos, no relógio, estão a me atropelar.  Pensei levar o post no sentido norte; ele seguiu rumo ao sul. Fazer o quê?

Bom dia leitor do blog!

meuip.co

FOTO ABAIXO: Avenida Borges, em frente ao antigo Cinema Vitória, Porto Alegre, Imagens dos meus arquivos, setembro de 2014.

 

RIO GRANDE DO SUL, post 52, 08.04.2020, saída de 17 dias de isolamento total me levam a uma catarse

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