Porto Alegre, 21 de abril de 2020

Horário oficial do beco da Rua João Manoel, 06h10, 19,9 graus C, 61% de umidadeloja virtual gratis

Eu moro numa cidade admirável.  Eu acredito, realmente. que eu moro numa excelente cidade. É a capital de um Estado que tem uma história densa e internacional.  Estruturou-se em torno de um celeiro e de uma linha de montagem,    

A inserção nacional evidenciou a presença de muitas lideranças locais levantando bandeiras que promoveram transformações estruturais significativas no país.  A formação regional foi forjada em guerras que custaram vidas, destruíram sonhos e configuraram uma identidade transparente ao fim e ao cabo de uma jornada de muitos sacrifícios.    

Aqui há quatro estações do ano muito bem diferenciadas.  O clima é agradável.  A população é ordeira. No interior as tradições são cultuadas.  O ambiente político é de uma polarização invejável os 366 dias dos anos bissextos.  A educação é de primeira qualidade. 

   …

Pois com esse pano de fundo, que se assemelha a um país europeu, a capital do Estado não poderia ocupar uma posição diferente.  Porto Alegre é um excelente cidade.  

Desde pequeno eu pensava quando Sant’Ana do Livramento a minha cidade natal teria a população de uma grande cidade do país?   Lá eu me sentia isolado.  Ao mesmo tempo, um privilegiado.  Tudo porque ao cruzar a linha divisória o isolamento se tornava um sonho  Eu notava que quem morasse além do Trevo da Faxina, que fica 30 km de distância do Parque Internacional, tinha inveja da gente. 

Puxa, eu poderia desejar algo mais do que tive e tenho.  Eu me criei numa cidade internacional que não se chegava de forma alguma e hoje, idoso, na quarta idade, eu curto um beco de muitas histórias.

Uma vez, eu acho que em 1959, eu saí de Santana em excursão, numa Kombi.   Eram 05h00, a cidade dormia, havia chovido e as ruas estavam molhadas.  Todos cantávamos e ríamos.  Afinal, íamos à Brasilia disputar um torneio de futebol de salão.

Horas de viagem, e chegamos perto de Rosário do Sul, distante 107 kms do ponto de partida.  A balsa havia afundado.  Era impossível prosseguir.  Eu lembro que o motorista nos disse que havia uma estrada até Dom Pedrito, distante a 125 kms de onde estávamos, e chegando lá, a viagem prosseguiria normalmente. 

Eu tinha 15 anos e tudo era uma aventura. Chovia, chovia muito, e o tal percurso era só barro e nada de estrada.  As rodas da Kombi, simplesmente, não giravam.  O barro não permitia.  Estava frio.  Era inverno.  

Alguém precisava retirar o barro para que as rodas girassem.  O problema era que o barro era retirado, as rodas giravam e o barro voltava a acumular.  O que fazer?  De um lado a balsa afundada; de outro, a Kombi travada.

Naquela época, todas as estradas eram assim.  Quando se viajava de automóvel se dizia, na região da fronteira, que tinha pegado um peludo.  Hoje, significaria que o automóvel ficou atolado no barro.  No passado, se chamava peludo.

Eu lembro, quando criança, de ir com a família de um amigo para pescar no interior do Uruguai.   Uruguai, país, não o rio Uruguai que era muito longe de Santana.  Às vésperas de sair para uma pescaria, eu lembro que os adultos perguntavam quantos peludos iam encontrar antes de chegar ao ponto de destino.  

Naquela época, simplesmente não havia estrada como a gente conhece hoje.  Então, de volta à história principal, estávamos numa Kombi, em Rosário do Sul, iniciamos a viagem para Dom Pedrito com o barro, a chuva e o frio no caminho.

A cada dois minutos, dois de nós, descíamos da Kombi e íamos retirar o barro que travava as rodas.  E assim foi por uma hora, duas horas, cinco horas, dez horas, vinte e quatro horas.  Eram 05h00 da manhã, ou da madrugada, do dia seguinte quando avistamos as luzes de Dom Pedrito.  Estávamos em farrapos.  Não sabíamos se éramos chimangos ou maragatos, mas estávamos ali como os nossos antepassados.  

No meu tempo de brevê eu passei muito frio.  No Alasca eu senti frio.  Mas  nada como aquelas vinte e quatro horas a bordo de uma kombi.  Mas, enfim, era preciso reiniciar a viagem de um novo marco zero. 

Naquela época os telefones não funcionavam, passava um ou outro motorista aventureiro na madrugada e o rádio, que era o único meio crível só se ouvia o ruído da impedância, chamada, então de descarga.   Eu recordo que se alguém ligava o rádio perguntava, sempre, como estava a descarga, o ruído descontrolado no auto-falante. 

Outro dia eu conto da viagem, que seguiu normal até Curitiba, onde a Kombi fundiu o motor e ficou na oficina por três dias para depois prosseguirmos adiante mais uma vez.

Pois é, esse era o isolamento da minha cidade natal quando eu tinha até uns 16 ou 17 anos quando me mudei para Bagé.   A cidade era outra, mas as estradas eram as mesmas.  Saí de um isolamento para outro.  Contudo eram essas vidas, a la Robinson Crusoé, que mantinham as cidades da fronteira com um encanto todo especial

Pois é, a minha infância e adolescência foram isoladas em Sant’Ana do Livramento, uma cidade excepcional.  A minha velhice é isolada, em um beco, da capital gaúcha, outra cidade maravilhosa.  O que eu posso querer mais.

De repente, e “não mais do que de repente”, me dizem que eu tenho que me manter isolado. O coronavírus me colocou em xeque.  Como estou no grupo de risco não quero levar o xeque mate.  Então preciso ficar isolado.  Ora, para um pobre ser vivente, criado na fronteira, isolado do mundo, não há de novo no momento atual.   

Você, leitor, já se sentiu isolado alguma vez?  Se, sim, busque ouvir uma boa música.  Hoje é dia de Tiradentes, um feriado que seria comemorado não estivéssemos todos em isolamento.  Há tempo de sobra para curtir um bom som. 

Eu recomendo a melodia O negócio é amar, de Dolores Duran e Carlos Lyra. Ajuda levar o isolamento em bons termos.   Dá para ouvir no Youtube, cantado pelo quarteto em Cy.  Eu prefiro a melodia na voz de Nelson Gonçalves, meu conterrâneo, e Fafá de Belém, com o seu riso desconcertante.  Está no endereço eletrônico 

https://www.youtube.com/watch?v=P3XVWVMQNXA

Experimente!

…  

A história dessa música é contada por Julia Mariano no endereço eletrônico          https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=TCm-5GiOEdM&feature=emb_title

Incrível essa história de O negócio é amar!

Bom dia, leitor do blog!

FOTO ABAIXO: Touropi, no interior de Sant’Ana do Livramento, imagem dos meus arquivos, setembro de 2014

RIO GRANDE DO SUL, post 53, 21.04.2020, memórias de isolamentos de antanho e imagens do presente

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *