Porto Alegre, 24 de maio de 2020

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Eu redigi um post sobre a conjuntura argentina há 45 dias.  Na primeira onda, o país ocupava a 52a posição no ranking mundial da pandemia e na segunda onda, a economia caiu -2,5% em 2019.  

Eu escrevo sobre a economia argentina há cinco décadas.  No fim do século passado e na transição para o atual eu participei durante alguns anos como articulista de uma revista publicada em Buenos Aires.  Então, durante boa parte desse tempo a minha percepção é que a economia sempre esteve à beira de uma crise. 

Daí até um default, uma moratória, um calote, era uma questão de um curto espaço de tempo.  Sempre que isso acontecia era necessário recorrer ao socorro do FMI para obter um acordo de standby. 

Ontem, o país vivenciou mais uma experiência dessa natureza.   Deveria honrar compromisso financeiro com os credores e isso não aconteceu.  Foram tantas vezes que o calote argentino se repetiu, ontem, pela nona vez   Eles fazem parte das minhas análises constantes do blog sobre conjuntura internacional.

A Argentina viveu um longo período com o casal Kirchner na Casa Rosada, depois houve a gestão Maurício Macri e, agora, o país vive com Cristina na vice-presidência e Alberto Fernández como primeiro Mandatário do pais.   Macri realizou um acordo de standby com o Fundo à época em que Cristine Lagarde era a chairman do FMI, hoje ela ocupa o cargo de presidente do Banco Central Europeu, . 

Veja, leitor, uma breve retrospectiva da instabilidade da economia argentina

O país liquidou a sua conta (US$ 9,5 bilhões) com o FMI em 2006, reestruturou as suas dívidas (US$ 100 bilhões) em 2011, e pagou (US$ 11,2 bilhões) ao setor privado em 2012.   O FMI passou a exigir mudanças na metodologia das estatísticas do país em 2013, mas Cristina se negou a aceitar qualquer interferência do Fundo por que já havia liquidado a conta com a Instituição.  Depois, voltou a traz e concordou em conversar com o Fundo sobre a metodologia das estatísticas nacionais. 

Maurício Macri assumiu com uma receita liberal em 2015 para fazer frente às políticas de esquerda.  No para-brisa Macri prometia  inflação controlada, pobreza zero e atração de investimentos.   Sua gestão foi um desastre.  No retrovisor, em 2019, Macri deixou rastro de uma conjuntura com inflação de 40% e tendo voltado a dependência do FMI.  

Foi isso.  No governo Macri a pobreza passou de 28% para 35% da população.  Macri resolveu o impasse da metodologia com o FMI, mas deixou o país com inflação anual em 53,8%, a maior desde 1991.   Os investimentos não chegaram, a meta de inflação foi abandonada, o desemprego aumentou, a divida avançou e Macri recorreu ao apoio de Donald Trump para obter um empréstimo de US$ 57 bilhões junto ao FMI.  

No fim da história, Maurício Macri não conseguiu honrar compromisso financeiro assumido com o Fundo, perdeu as eleições e devolveu a economia a Alberto Fernández e Cristina Kirchner em condições lamentáveis. 

… 

O novo governo lançou um pacote emergencial.  Fernández propôs aumento de impostos e congelamento de aposentadorias.  Mas as medidas eram insuficientes para reverter o quadro da economia.  Então, a dúvida:  quem poderia socorrer à Casa Rosada?

O chapolin colorado tomou a forma do Papa Francisco.   Ele promoveu um seminário sobre a economia argentina no Vaticano com a presença de Kristalina Georgieva, a economista búlgara que é a diretora-ferente do Fundo Monetário Internacional (FMI).  

Desde então mudou a régua no relacionamento da Casa Rosada com o Fundo.  No Banco Mundial surgiu a figura de Carmem Reinhart, economista de Harvard.  Ela advertiu a trajetória inevitável do país rumo ao calote porque desconfiava dos planos de Martin Guzmán para tratar o default.  Mesmo assim assegurou apoio do ministro da economia. 

Finalmente chegou a sexta feira, 22.05, e não havia como pagar os R$ 503 milhões em bônus aos credores.  Nesse domingo, 24.05, a Argentina tem até o dia 02.06 para negociar uma proposta com credores.  Em meio à crise do coronavírus, Alberto Fernández reforçou o seu discurso que não vai pagar intermediários financeiros a custa de um diferimento na retomada do crescimento da economia do país.

Do Vaticano a Buenos Aires todos elevam as preces para encontrar uma saída para o default.  Voltarei ao assunto em meados da próxima semana. 

Boa noite, leitor do blog.  Faz frio e chove aqui no beco.  É o inverno entrando no tráfico aéreo para pousar em Porto Alegre em 21 de junho. 

FOTO ABAIXO: 

Eu bati a foto da Niagara Falls, na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá, do lado norte-americano em 1970.  Eu morava a 250 quilômetros das cataratas e lá estive em diversas oportunidades.   Na maior parte das vezes, eu estava de passagem para Toronto. 

Na verdade, todos os brasileiros que me visitavam demonstravam interesse em conhecer o Canadá.  Niagara Falls é uma cidade canadense.  Dali até Toronto era preciso prosseguir, via rodoviária, por mais 130 quilômetros.   

Então, a distância de Syracuse, Estado de Nova York, onde eu estudava, até Toronto, no Canadá era de 380 quilômetros.  Eu realizei esse percurso durante os meses do Verão, mas todos que me visitavam desejavam ir até o local durante o Inverno quando as cataratas estavam congeladas,

Era preciso muito cuidado para se colocar na estrada em dias de mau tempo.  Havia risco de nevar?  Essa era a primeira pergunta a responder.  Os pneus para neve possuíam pequenos cravos de metal que facilitavam a tarefa do motorista, mas quando a nevasca acontecia era um Deus me acuda.   

No começo a neve parece sabão, depois se assimila ao barro e, por fim, não há mais visibilidade, nem sinalização, nem estrada e nem onde parar.  Se interromper a viagem fora de um local adequado, o motorista corre o risco de morrer congelado. 

De qualquer forma a ida à fronteira era um excelente passeio.  A vista era maravilhosa.  Uma das vezes que eu fui às cataratas eu estive em Buffalo e fiquei muito impressionado.  A quantidade de neve era imensa.  Na época a população era de 462 mil habitantes (1970).  Eu conferia a população mais recente e ela era de 261 mil habitantes (2010).  A queda de habitantes por década é muito acentuada.

Quanto a Niagara Falls, há cidades dos dois lados, Canadá e EUA.   

ARGENTINA, instabilidade sempre, post 25, 24.05.2020, retrospectiva recente e novo calote

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