Porto Alegre, 28 de junho de 2020

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 18h10, 9,2 graus C, 42% de umidade, sem chuva

Inicio o domingo escrevendo sobre os Estados Unidos.  São 06h00, aqui no beco, em Porto Alegre.  O frio chegou para valer há dois dias.  Optei por redigir sobre o que está acontecendo na maior economia do planeta porque eu achava que os norte-americanos encontrariam uma saída mais rápida para o quadro de infecção que me parece tende a se generalizar ainda mais, e não diminuir, conforme eu imaginava no desdobramento do meu script.

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Eu acreditava na capacidade do establishment administrar a crise política, na capacidade da economia em amenizar a recessão, na capacidade do espirito animal do empreendedor em definir alternativas, na  capacidade do FED em gerenciar a política monetária, na capacidade do discurso da inovação da academia e na capacidade de Donald Trump em minimizar, efetivamente, a crise às vésperas da eleição de 03 de novembro.   

Ledo engano.   A sociedade americana parece acompanhar tudo o que acontece na sala de espetáculos de Hollywood.  O filme de ficção parece ter tomado conta da realidade.   A direção geral está robotizada.  Em 1955, quando eu tinha 11 anos eu vi o filme … E O VENTO LEVOU, produzido em 1939, e saí impressionado do cinema.  …

Eu estava cansado, um tanto mal humorado, como podia um filme ter tanto tempo de duração.  Ao acessar a Calle Sarandi, do lado do Uruguai, tudo parecia mudar.  Havia muita movimentação, as lojas ocupadas por muita propaganda luminosa, havia muita gente transitando em todas as  direções. 

Quando a crise atual começou, eu achava que tudo era uma questão de tempo e todos acessariam a uma tal Calle de la Esperanza e tudo voltaria ao normal. 

Nada disso está se confirmando.  As premissas eram débeis para um ambiente de crise.   A natureza da crise parece implicar uma transição abrupta na chegada e extremamente lenta na saída.   

A globalização parecia ter um hardware robusto, concebido nos Estados Unidos.    Hoje, parece que ela foi atingida em pleno voo.   Ela praticou um pouso de emergência fora dos manuais de treinamento.  Houve pane na comunicação com a torre de comando.  O software não funciona.  A globalização não conseguiu nem taxiar após o pouso.   Ela parece inerte, à revelia da tripulação. 

No geral, a minha observação me leva a acreditar que as engrenagens que movimentam a economia norte-americana estão sofrendo com o impasse da crise.  É preciso ativá-las, mas falta força para a execução da tarefa.  O controle remoto deixou de funcionar, a mão de obra se sente insegura para levar adiante o conserto.  As ordens da chefia não são convergentes.  Pior, os manuais que eram utilizados desde 1929, parecem ter perdido a validade. 

Em terra, a população norte-americana parece permanecer numa caverna onde há isolamento do ambiente externo.  Para permanecer no local é preciso convicção e meios de sobrevivência.  Muitos optaram por adotar uma vida, errante, do lado de fora.   Quem está dentro evita sair.  Que está fora, volta, mas põe em risco a vida dos que permanecem dentro. 

 

Outros tantos saíram e perderam a vida na arriscada tarefa de buscar meios de sobrevivência.  O certo é que ninguém sabe, ao certo, quando o filme acaba.  E quando terminar ficará a dúvida sobre o destino de Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard e Olivia de Havilland.   Scarlett (Leigh) e Rhett (Gable) permanecerão juntos conforme os cartazes mostravam à entrada do cinema?

Quando eu vi E O VENTO LEVOU, muitos falavam que nem os diretores aguentaram o tempo de duração das filmagens.  Fui conferir agora e percebi que, efetivamente, três diferentes diretores – George Cukor, Victor Fleming e Sam Wood – ocuparam a cadeira com braços destinada ao maior responsável pela obra apresentar o THE END na tela enquanto o público começa a levantar a se retirar da sala do espetáculo. 

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Bem, à par da ficção, a verdade é que até eu, aqui no meu beco, já começo a me preocupar com o destino da política e da economia norte-americana. 

As últimas informações que eu obtive na mídia dos Estados Unidos são que os resultados do placar da Johns Hopkins continuam em alta.   Os norte-americanos estão com um olho nos 10 milhões de infectados no mundo e com o outro nos 2,5 milhões de infectados nos Estados Unidos.  E os americanos, em grande maioria, não tem plano de saúde.  Será que isso é verdade?   Absoluta?

Quando eu cheguei aos Estados Unidos eu tinha o meu MEDICAID.  Nessa crise eu ouço que as pessoas morrem nos Estados Unidos porque deixam para recorrer ao atendimento médico no último momento.   Por isso, muitos morrem.  E os que vão para os hospitais, saem praticamente falidos.  Não há dinheiro suficiente para pagar os custos astronômicos dos serviços de saúde.   

Bem no meu Medicaid, no triênio que me mantive nos Estados Unidos, eu tive cobertura de tudo o que precisei.  Nos EUA tem um sistema público desdobrado em Medicaid, para pessoas pobres, e Medicare, para pessoas velhas.   

Eu estudei primeiro em Houston, Texas, e depois, Syracuse, Nova York.   Houston está no Golfo do México e Syracuse na região dos Grandes Lagos.   Saí do calor do sertão brasileiro e fui morar no frio do polo norte.  Foi algo mais ou menos assim que eu passei. 

Quando o frio chegou, eu sofri com a dor decorrente de algum problema em um canal dentário   A temperatura estava em 10 graus centigrados negativos.   Essa é a forma antiga de dizer 10 graus Celsius negativos.  Bem, instantaneamente a dor se tornou aterradora.   

Eu fui para os Estados Unidos na condição de professor da UFSM e com bolsa da OEA.  No dia da matrícula nos EUA, já em território norte-americano,  eu fiquei sabendo que o Brasil não pagava a OEA há mais de um ano.   Automaticamente eu ficaria em standby até que a situação normalizasse entre Washington e Brasília. 

Bem, a solução que eu encontrei foi que eu poderia pagar a matricula em algumas vezes, utilizando o meu salário de professor.  E, assim eu fiz, até a minha bolsa de estudos chegar.   Foi difícil, mas valeu.   

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Fazer o quê?   Cadê socorro do setor de saúde?   Chegou o fim de semana.   Foram 36 horas no purgatório.  Afinal, em hospital eu obtive uma receita e comprei uma medicação que me deixou o rosto como se fora uma pedra. 

Naquela época, não tendo a bolsa da OEA eu poderia obter o cartão do Medicaid.   Foi o que eu fiz.   A minha vida mudou da noite para o dia.   Havia todo o recurso de saúde – médico e odontológico – necessário.   Nunca mais me preocupei com nada de gasto em saúde.   

Eu fiquei tão grato a tudo que me foi dado que decidi participar de uma pesquisa médica em torno da intensidade da dor dentro de unidade de saúde.   Fui convidado a participar.   Pensei que quem sabe tivesse chegada a hora de eu retribuir ao que tinha usufruído do governo daquele país.   

Na hora que a oportunidade surgiu eu me senti como o Vitório Gassman no filme Il Sorpasso, uma comédia italiana de 1962.  Gassman, que contracenava com Jean-Louis Trintignant e Catherine Spaak, sabia tudo, podia tudo, fazia tudo.   Eu me sentia igual, pois, tinha cartão da Medicaid, sabia tudo, podia tudo, fazia tudo.  Cheguei a me lembrar de um filme que eu tinha assistido anteriormente no Cine Grand Rex, de Rivera.

Em português o filme Il Sorpasso tinha o título traduzido par Aquele que sabe viver.   Na película, devido ao ímpeto, Gassaman se dava mal algumas vezes.  Foi o que aconteceu comigo no dia que cheguei ao hospital para me submeter ao teste da dor.

As pessoas me cumprimentavam alegremente.  O ambiente era realmente agradável.  Em dado momento me colocaram em posição de repouso.  Começaram a surgir fios de todos os lados e de todas as cores.   Eu fiquei totalmente conectado a algum equipamento central.   Foi o que imaginei junto àquela coorte de médicos e enfermeiros. 

Havia uma música de fundo que mais parecia destinar-se a fazer às vezes de um tranquilizante.   No momento, eu lembrei das viagens que eu fazia no Viscont da VASP quando eu trabalhava no Rio de Janeiro e voltava para o Sul todas às sextas feiras, à tardinha.   

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Deixar o calor da Cidade Maravilhosa e migrar para o ar condicionado do avião. Os passageiros ainda estavam entrando pelo corredor da aeronave e aquela música me sensibilizava porque era a hora do meu retorno, depois de uma semana de trabalho fora de casa  

De repente, não mais que de repente, como no soneto da Separação do Vinícius, alguém deu um sinal e o tal teste começou.  A experiência foi horripilante.  Quando criança eu ouvia falar que havia cadeira elétrica na América para ser utilizada por determinação da justiça.

Pois, naquele dia, já adulto, eu imagino que eu deva ter experimentado algo semelhante.   Passei do purgatório, citado antes, para o inferno.  Hoje quando penso em tudo o que aconteceu eu lembro de uma vez que eu estava dando aula em João Pessoa, na Paraíba. 

No intervalo entre um turno e outro, um grupo de alunos me ofereceu uma prova de uma fruta chamada tamarino ou tamarindo.  Eles me alertaram que eu nunca mais esqueceria daquele dia,   

A fruta era muito ácida.  As papilas gustativas captavam um gosto azedo.   Eu jamais esqueceria, disseram os alunos, porque toda vez que lembrasse do fato o gosto viria, instantaneamente, à boca.

… 

O caso do meu teste da dor, em unidade de saúde do Estados Unidos, não foi diferente.  Só de lembrar eu me arrepio.  Foi algo doloroso e, quem sabe por isso, inesquecível. 

Enquanto eu continuo com os filmes que eu vi no entretenimento, o gosto do tamarino na boca e o teste da dor  na memória, eu acompanho os depoimentos do Dr Anthoni Fauci dizendo que a pandemia continua à espreita dos incautos, as cenas de Donald Trump minimizando a gripezinha e os cemitérios norte-americanos acolhendo os pacientes que vem, sem direito a viagem de volta, em sono eterno diretamente dos hospitais. 

Se alguém me contasse toda essa história há 90 dias eu não acreditaria.  Nem eu poderia reunir as peças e colocá-las em ordem.  Agora parece que conclui a tarefa com êxito. 

O que me preocupa é o meu trabalho do sonho da próxima madrugada.  Como será que o meu inconsciente vai receber toda essa catarse que eu realizei?   Qual será a conclusão do seu diagnóstico?   Um velho e, pior, um tolo? 

Leitor do blog, boa noite e bons sonhos!

CARTUM, Economista pensa demais, post 24, 28.06.2020, do momento do coronavírus na terra de Donald Trump às lembranças de alguns momentos em unidades de saúde

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