Porto Alegre, 25 de julho de 2020

Horário oficial do beco da Rua João Manoel, 18:10, 12 graus, 54 % umidade, frio retornou

Todos os anos, eu acompanho a temporada de furacões que afeta o Hemisfério Norte.   Hoje, há três, praticamente ao mesmo tempo. O Hanna está chegando ao Texas e está colocando em alerta o estado de Louisiana e também o México.  O Douglas está chegando ao Havaí e o Gonzalo prossegue em deslocamento no Mar do Caribe.

Na minha videoteca eu devo ter dezenas de gravações das passagens dos furacões.  Na verdade, durante o tempo que eu vivi no Exterior me chamaram a atenção os fenômenos supervenientes.   

Em Lisboa, em particular, eu vivia perto de um Hospital, em que as sirenes tocavam dia e noite.   As trovoadas em dia de temporal me pareciam mais fortes do que eu conhecia até então. 

Eu lembro, ate hoje, do terremoto que eu vivenciei em Lisboa em 1969.   Quado eu cheguei a Portugal eu não tinha uma percepção do que era um docente.  Com o tempo, depois de muitas circunstâncias que me surpreenderam, eu passei a aceitar normalmente que um professor era um profissional extremamente valorizado.   

Eu lembro que na véspera eu fui dormir aceitando a ideia de fixar residência em Portugal.  Era duro distanciar-me de meus pais e familiares por um longo tempo, quem sabe sem chance de voltar para o Brasil, mas o futuro estava se configurando extremamente promissor.   Eu ainda era inexperiente em termos de saudade.   Mal eu sabia o que me esperava em termos de viver distante dos meus entes queridos. 

Na madrugada de 29 de fevereiro de 1969 tudo mudou na minha vida.   Eu acordei com um ruido ensurdecedor.  E fiquei um pouco dividido.   A primeira ideia que me veio à mente foi a de um acidente com metro que passava nas imediações.   A seguir eu lembrei dos terremotos que destruíram Lisboa nos séculos XV e XVIII.   Não pode, não iria acontecer mais uma vez justamente quando eu morava na cidade.

Aconteceu.  Outro dia conto os detalhes.  Nunca mais foi possível dormir com tranquilidade depois do barulho de construção caindo, pessoas gritando, tudo no escuro.  Todos nos movimentávamos rapidamente sem saber para onde ir.   De concreto ficou a ideia que a minha estada no país não passaria do fim daquele ano.      De qualquer forma eu deixo o endereço eletrônico do site que conta a tragédia que vivi naquela madrugada de 1969. 

…https://www.youtube.com/watch?v=veyeux83c_E

Anos depois nos Estados Unidos, o temor era com os temporais de neve.  Certa vez eu me deslocava de Syracuse, em Nova York, para Pittsburgh, na Pensilvânia.    Era inverno, outra vez.   Anoiteceu, a neve foi fechando a estrada, a calefação da minha caminhonete Ford Falcon modelo 1964 parecia que já não dava mais vencimento. 

No dia a dia dentro da cidade eu jamais arriscava.  A neve acumulava, as mudanças de temperatura transformavam o gelo em uma rocha que só era retirada com retroescavadeira da prefeitura.  Naquele dia da viagem havia sol abundante com baixíssima temperatura.  Eu não fazia a menor ideia do que poderia acontecer.

A distância entre origem e e destino era de 370 quilômetros aproximadamente.  O percurso seria coberto em 5:30.  As três primeiras horas foram de sol de brigadeiro.   De repente, o clima mudou.   O dia ficou cinza.   E a tempestade começou a cair.  O tempo foi passando.  Eu estava há uma hora do meu ponto de destino e torcendo que as condições rodoviárias se mantivessem dentro de um mínimo de segurança.

… 

Eu precisava chegar ao ponto de destino pois eu sabia que muitos faleciam congelados em veículos em momentos cruciais do frio.  Os últimos trinta minutos foram tensos.    Eu lembro que ao chegar àquela que era a capital do aço do início do século XX, eu só tinha um fio de asfalto no meio da via.   O fio do asfalto compensava o meu fio de esperança de chegar a salvo. 

Os problemas do clima, de tempestades e de terremotos se tornaram lembranças muito presentes em minha vida.  Uma vez eu participei de uma excursão no Japão em que eu cheguei a um lugar que mantinha uma paisagem maravilhosa.   O guia do grupo ia à frente e éramos um conjunto de umas 25 pessoas.   

Quando cheguei ao ponto de destino eu vi um grande lago, circular, com navios no seu interior.  Não eram barcos comuns.  Eram aqueles utilizados no passado por vikings ou grupos semelhantes.  Depois de alguma espera houve um embarque e parecia um momento mágico.

Eu lembro que os japoneses que promoviam o curso no país eram extremamente atenciosos.  Num dado momento eu me aproximei do coordenador do evento, Mr Kato, e lhe indaguei porque a água era de um verde garrafa, um verde escuro, como eu jamais havia visto algo parecido. 

Ele sorriu e me respondeu que nós estávamos à bordo de um barco dentro de um vulcão que há muito tempo estava inativo.  Eu o acompanhei no sorriso mas eu quase não acreditei.  Eu visitei vários lugares onde havia gêiser, aqueles locais em que há erupções periódicas que resultam em colunas de água quente projetadas ao ar.   Até aí, tudo bem.  Contudo, daí a um vulcão era algo inimaginável para mim.

À essa altura o leitor deve imaginar que esses “acidentes de percurso” tem me acompanhado ao longo da jornada.   Mas, independentemente de todos os fatos passados eu fico atento aos furacões sempre que eles surgem no Hemisfério Norte.   É uma oportunidade impar de ouvir especialistas de todas as áreas afins à meteorologia, um conteúdo que eu me apeguei quando fiz o curso de piloto privado no início dos anos 60. 

Eu aprendo demais em todas essas ocasiões sobre o clima, mas também sobre as consequências econômicas de cada um desses eventos.  Os governos retiram as populações das regiões com alguma antecedência, as habitações obedecem um protocolo de segurança e há uma estratégia de logística para enfrentar o pior. 

O processo de convivência com os acontecimentos começa uns quatro dias antes do furacão pousar em terra, no continente.  No início são previsões, depois a mídia passa a cobrir atividades da população até que chega o momento da cobertura específica em que jornalistas especializados repassam aos telespectadores a proximidade do perigo.

No momento em que estou fechando este post o furacão Hanna está tocando no solo texano.  É o primeiro dia do primeiro evento da temporada no Texas.  Nos próximos dias toda a atenção da mídia estará focada nas ocorrências locais, custos, impacto social e desdobramentos dos fatos.  Dependendo do que acontecer eu volto a preparar um novo post sobre o assunto.

Boa noite, leitor do blog!

 

MEMÓRIAS e outras histórias, post 61, 25.07.2020, Furacões, terremoto, tempestade de neve e vulcão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »