Porto Alegre, 27 de julho 2020

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 18h10, 17 graus C, 81% de umidade, chuva chegando 

Aposentei-me na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1997. Depois de 52 anos (1967-2019) em atividade eu decidi ficar em casa.   Nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda fosse professor de Cenários Econômicos.     

02.01.09  BRASIL, desempenho e conjuntura

(02 BRASIL, 01 Desempenho economia, 09 Número de ordem de post) ip

Da semana passada para a atual, a previsão do mercado financeiro, constate do Boletim Focus, para o crescimento do PIB mudou de -6,54% (30 dias), -5,95% (1 semana) para -5,77% (hoje).  À frente o Boletim Focus prevê incremento do PIB da ordem de 3,5% (2021), 2,5% (2022) e 2,5% (2023). 

Esses números previstos para o desempenho da economia brasileira divergem daqueles estimados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) na publicação World Economic Outlook (WEO), o Panorama Econômica Mundial. No documento, a Instituição estima que o PIB registrará queda de -9,1% (2020) e um avanço de +3,5% (2021).

Há coincidência de previsões, do Boletim Focus com o Panorama do FMI para o desempenho da economia de 2021, todavia a diferença é expressiva, entre as mesmas fontes, para o corrente exercício.

Parece-me que há uma divergência significativa quanto à natureza da crise.   Internamente, o país vive uma recessão; externamente, trata-se da pior recessão do período posterior à Segunda Grande Guerra.   O documento do FMI leva um título que vai direto ao ponto:  Uma crise como nenhuma outra; uma recuperação incerta. 

Internamente, o país está enfrentando o coronavírus sem coordenação geral e tendo gasto com a crise tudo o que não podia;  Externamente, os países estão bancando uma vacina e tem muito a gastar porque dispõe de recursos para tanto. 

O Boletim Focus mostra pequenas mudanças nas variações negativas no PIB de uma semana para outra.  Há perspectiva que os executivos estejam percebendo alguma diminuição no tamanho da crise? 

Num país em que o presidente da República nega a pandemia sendo vitima da própria pandemia?   Um mandatário que nega aceitar que ponham no seu colo as mortes e o desemprego.    Por no colo de quem?  

O governo não mostrou como pretende agir frente à crise.   A agenda liberal ficou no meio do caminho.  O voo de galinha que arrancou em outubro de 2017 encerrou com a presença da gripezinha.   A agenda de reformas perdeu o fôlego.    A reforma tributária veio em dose homeopática.    A política fiscal foi relaxada.    A Indústria foi esquecida. 

A equipe de Paulo Guedes parece estar se esvaziando.  Nos últimos trinta dias, Mansueto Almeida, Rubem Novaes e Caio Megale abriram mão da tarefa que desenvolviam até então e tomaram outro destino.

Mansueto Almeida, o secretário do Tesouro Nacional, deixou a equipe.  O técnico do IPEA que era encarregado de controlar o caixa e saiu porque deseja migrar para o setor privado.   

Rubem Novaes, ninguém menos que o presidente do Banco do Brasil, disse que não se adaptou à cultura do compadrio de Brasília.   Deverá exercer outra atividade junto a Guedes.

Caio Megale, diretor da Secretaria da Fazenda, manifestou interesse em retornar a São Paulo e atuar no mercado financeiro.  Foram três mudanças importantes para um governo que convive com uma crise que já está no seu sexto ano consecutivo.  

É mera casualidade que a equipe se desmonte, progressivamente, e em curto espaço de tempo.   Terá sido a crise do coronavírus que frustou os gestores perante a atividade programada originalmente?   Esperavam pela implementação de uma agenda liberal que não se confirmou?   Estariam insatisfeitos com a forma do Executivo estar em permanente atrito com os demais poderes?

Há uma eleição municipal em dois turnos em novembro próximo vindouro, dias 15 e 29, e a disputa de uma eleição presidencial mais à frente.   As decisões dos executivos que deixaram ou estão deixando as suas funções tem algo a ver com as eleições?

A reforma tributária encaminhada por Paulo Guedes tratou apenas da unificação do PIS e COFINS na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).    A chegada da CBS ao Congresso encontrou o Poder Legislativo debatendo duas outras propostas anteriores e que já absorveram as finanças públicas de Estados e Municípios.

…   

Tendo em vista que há duas propostas de reforma tributária circulando no Congresso, a criação da CBS  foi a forma encontrada pelo ministro de não ficar totalmente excluído daquela que é a reforma mais importante na pauta da retomada da economia brasileira. 

Embora toda a crítica que o ministro tem dirigido aos intermediários financeiros, mesmo assim a proposta de Guedes, que fixa a CBS em 12,0%, estabelece um percentual menor para os bancos, além de manter os regimes diferenciados vigentes.

Para quem vem de uma eleição que premiou o voto conservador, surpreende que o governo esteja tomando o Bolsa Família como base e turbinando-o para chegar à criação do Renda Brasil.   Gudes parece ser um defensor da CPMF que derrubou Marcos Cintra da Receita Federal à medida que Bolsonaro se opôs à ideia.

No ano passado, Joaquim Levy e Marcos Cintra deixaram o governo Bolsonaro.   Eu lembro do secretário da receita dar ampla divulgação que pretendia criar a CPMF e ser forçado a deixar o governo em setembro do ano passado.

Agora, o próprio Paulo Guedes parece voltar a carga em torno da defesa de uma CPFM.   Seria a forma do ministro encontrar fonte para atender as crescentes demandas sociais.     A dificuldade para o titular da pasta é que há resistência no Congresso às propostas da sua pasta. 

Fazer o quê se Bolsonaro precisa desbravar, politicamente, lugares no distante Nordeste para buscar votos, para buscar apoio político à semelhança do que aconteceu com a utilização do auxílio emergencial?   Para quem se propunha a uma agenda liberal é interessante constatar que o governo está chegando a metade da sua gestão e propondo o que era inadmissível quando do pleito de outubro de  2018.   

Como se comportará o seu eleitor sabendo que a ação está muito distante do discurso de campanha?  Além disso, ele precisa do recurso originado na CPMF, mas sabe que será uma disputa seríssima para levar de vencido o Poder Legislativo que se opõe ao novo imposto. 

É isso aí.  A semana recém está começando.  O coronavírus continua fazendo vítimas mundo afora e no Brasil em particular.   Bolsonaro se diz curado do vírus e já voltou a dirigir a sua moto por Brasília.   Ele desdenha o fato de ter sido denunciado no Tribunal de Haia por crime contra a Humanidade.   O MDB e o PP estão deixando o Centrão.  A recuperação judicial da Odebrecht é homologada.  A bolsa subiu 2,05% e o dólar comercial caiu -0,89%

Boa noite, leitor do blog.   A noite passada foi difícil aqui no beco.  Trovoadas inesquecíveis.  Amanheceu com temporal, mas o resto do dia passou sem chuva.   Agora, ela está se reapresentando.   Há muita água caindo no momento em que encerro o post.  Tomara que a próxima madrugada não repita os acontecimentos da noite anterior.

MICRO CURSOS, Brasil, post 02.01.09, 27.07.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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