Porto Alegre, 11 de setembro de 2020

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Aposentado na UFRGS em 1997 eu lecionei durante 52 anos (1967-2019) e agora estou em casa.    Nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda fosse professor de Cenários Econômicos.

01.01.08 ECONOMIA GLOBAL, diagnósticos, propostas e a discussão em torno da presença de uma bolha especulativa

(01 Internacional, 01 Economia global, 09 número de ordem do post)

No calendário hoje é mais um dia 11 de setembro.  A imagem das torres gêmeas sendo atingidas continua na minha mente da forma como aconteceu em 2001.  Eu saía de casa.  Estava calor.  Eu vestia terno e gravata para atender um compromisso na mídia. Passei na frente da televisão, exatamente na hora em que o primeiro avião atingiu o alvo.   Sou piloto.  Imaginei que era um game.  Ao mesmo tempo me pareceu tudo muito real.  Veio o segundo avião, parei.   Percebi o que estava acontecendo.  O mundo nunca mais foi o mesmo. 

O tempo passou.  Quase vinte anos se passaram.  Vieram novas crises globais.  O Brasil atravessou duas décadas e voltou ao partidor.  Nessa manhã encoberta de fim de inverno eu penso na força da polarização, lá fora e aqui dentro, e do mal que ela cria.  O mundo anda de ré.   Paro tudo o que estava pensando e foco, de novo, nos tempos das crianças de hoje.   

Eu sinto que à medida que os dias passam, os analistas estão mais focados na crise sanitária que não vai embora e deixam de lado a economia que já chegou.    O mundo se encaminha para conviver com 30 milhões de infectados e 1 milhão de óbitos nas próximas semanas.  A vacina não chega.  A economia não se sustenta da forma como funcionava anteriormente.  A ausência da vacina precipitou uma novíssima economia?  Como pensar no futuro da infância? 

Vou tentar explicar o que penso sobre os novos tempos da economia global.  A última crise que o mundo vivenciou foi aquela que começou com as hipotecas nos Estados Unidos, avançou para as dificuldades de liquidez na economia, tomou conta dos bancos e ficou identificada como a crise financeira que levou à recessão global de 2009.    O desemprego nos Estados Unidos chegou à casa dos 10% e o processo de recuperação foi extremamente lento.  País em crise, pais sem trabalho, crianças sem educação qualificada.

Aí, a América surfou em um período sem precedentes.  A taxa de desemprego recuou aos 3,6% e parecia que a gestão de Donald Trump iria, automaticamente, para uma reeleição.   O ano de 2020 foi surpreendente.   A economia mundial permanecia em desaceleração e o quadro se mantinha em standby devido a um desempenho extraordinário da economia norte-americana.  Chegou o coronavírus e o mundo virou de ponta cabeça.  O que pensam as crianças de ontem da crise de hoje?

António Guterres, 71 anos, engenheiro eletricista, secretário geral da ONU, deu o seu diagnóstico.    Ele definiu o quadro que está à frente do leitor como decorrente de quatro fatores, quais sejam, coronavírus, clima, racismo e desigualdades.  A ONU, com todas as suas limitações, é um ponto importante de observação.   A Instituição teria conseguido evitar uma III Grande Guerra.   Todavia, o coronavírus fez aflorar as desigualdades. 

Guterres crê que a população está insegura quanto à capacidade das instituições e dos sistemas político em alterar o cenário sombrio em curso.   Ele prega um multilateralismo em rede, inclusivo e eficaz, que poderia varrer o sonambulismo e fortalecer a governança global para superar a crise atual.   A inclusão pressupõe as crianças e as suas carências.

Christine Lagarde, 64 anos, advogada e economista, foi ministra da Economia da França, diretora geral do FMI e atual chairman do Banco Central Europeu (BCE).  Um lugar privilegiado para emitir um diagnóstico do momento atual.     Ela ultrapassou diversas crises em cargos importantes, mas nenhuma foi tão brutal como essa.  Injetou muita liquidez na economia, via compra de papeis e de concessão de crédito barato às empresas, com juros no terreno negativo. 

Lagarde crê nas velocidades distintas de cada país em seu caminho de recuperação e, daí, a fragmentação da retomada.  Ela foi decisiva no plano de recuperação europeu.  É possível pensar em solidariedade? É possível pensar em comércio internacional? É possível pensar, ainda, em globalização?  Lagarde pensa muito sobre a possibilidade de combater as mudanças no clima.   Nessas crises, os empregos das mulheres somem, diz a dirigente do FMI.   É preciso um esforço de coordenação para superar o que está aí.  A solidariedade pressupõe que será uma saída para uma vida melhor para as crianças.

Hoje eu assisti três entrevistas de autoridades.  Ouvi, atentamente, Macron, Illa e Trump.   Emmanuel Macron disse que a convivência com o coronavírus está muito difícil.  Pode voltar o confinamento?  Ele disse que precisa avaliar a situação porque confinar implica preserva a vida frente ao coronavírus, mas prejudica a saúde das pessoas, em geral. e o trabalho em particular.    Salvador Illa é o ministro da saúde da Espanha. Ele afirmou que metade das regiões autônomas estão com o coronavírus estabilizado, mas na outra metade, cresce o número dos infectados.  Donald Trump acessou a sala de entrevistas coletivas da Casa Branca e recebeu a seguinte indagação: Porque o senhor mentiu? O presidente respondeu que não queria gerar pânico junto à população ao falar da gripezinha.

Nesse ambiente de crise e de muita incerteza, o mundo está atento às autoridades americanas porque os Estados Unidos é a maior economia do planeta.   Qualquer iniciativa que aconteça em Washington DC repercute, imediatamente, nos mercados mundiais.   Convictos de que era preciso novos estímulos à economia, os republicanos de Donald Trump que haviam apresentado uma proposta de US$ 300 bilhões de dólares, viram os democratas rejeitarem, ontem, no senado, a iniciativa em pauta.   Toda a oposição votou em contra, além de um senador republicano.  

Em que consistia a proposta dos senadores do partido Republicano?  O projeto de lei apresentado pelo senador Mitchell “Mitch” McConnell, Jr, conhecido como Mitch McConnell, lider do governo no Senado. propunha um pagamento mensal de US$ 300,00 semanais aos desempregados até o final do ano, até o dia 27 de dezembro.   Ele tomou a iniciativa porque percebeu que não havia forma das negociações avançarem com a minoria Democrata na Câmara Alta.  Ao mesmo tempo, ele percebeu que era chegada a hora de avaliar se o seu partido quer proteger as crianças, o trabalho e ofercer o atendimento médico ou se os seus companheiros republicanos acreditam que nada mais deve ser feito com recursos públicos. 

Joe Biden propôs um programa denominado Reconstruir Melhor e que representa o duplo do valor da iniciativa proposta pelo governo.  Ele pretende absorver mão de obra e investir em inovação.   O foco está concentrado na Indústria dos Estados Unidos.  O valor da iniciativa é da ordem de US$ 700 bilhões.   Ora, o embate com a China em torno da 5G deverá ser estimulado, ou amenizado, caso o candidato democrata vença as eleições de novembro?  A agenda de Obama para as energias limpas e da biotecnologia voltará à pauta?   À medida que as pesquisas começam a sinalizar uma vitória democrata no pleito de 03 de novembro, começam a repercutir as iniciativas da oposição atual para enfrentamento da crise.   Um governo Biden-Harris irá priorizar o social, a educação das crianças e a saúde dos adultos?  É provável. 

Uma possibilidade que pode acontecer em meio à crise do coronavírus é que ela pode gerar uma crise financeira.  Eu concordo que há críticas pela autuação persistente do FED no combate à crise.  Ao mesmo tempo, eu tomei conhecimento que James B Bullard, presidente do FED de Saint Louis, discorda dessas opiniões.  Ele defende a atuação da Reserva Federal na contenção da crise porque ele teme uma onda de falências e, na sequência, o surgimento de uma crise financeira.   Aí viria uma crise ainda maior. 

A volatilidade não dá folga.  Um tema que é recorrente em crises como a atual é a configuração de  uma bolha.  Foi assim em crises anteriores; não é diferente, agora.   Quantas vezes eu escrevi sobre bolhas no passado?  Na verdade quando eu comecei a escrever sobre conjuntura, há 50 anos, eu me preocupava quando a ameaça de uma recessão entrava em pauta.   Eu penso que o termo bolha é coisa mais recente, algo dos últimos vinte anos, mas a minha memória pode estar falhando frente à necessidade de uma data tão precisa.

De qualquer forma, quando ficou evidente a desconexão entre as bolsas e a realidade da economia, a palavra bolha veio à baila.  Eu redigi um post há algum tempo.  É um tema complexo distinguir se alguém está aplicando num índice da bolsa de Nova York ou se está surfando em uma bolha especulativa.   A identificação da ameaça constou do relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI. 

Os responsáveis pela área de mercado de capitais do Fundo não confirmam a presença de uma bolha, mas consideram que há uma reversão do humor dos mercados com a persistência e aprofundamento da crise que aí está.   

Muita incerteza amplia o risco por parte dos investidores e pode encaminhar o processo para uma grande correção de preços.  A recessão é maior do que aquela originalmente precificadas?  A discussão está sendo profícua?   Há descolamento dos índices do lado de cá para os do lado de lá do Atlântico?   A volatilidade gera vieses no mercado de moedas?

Na pior recessão desde a II Guerra Mundial, a bolha esteve na pauta global a partir desse mês de agosto.   Os juros negativos contaminaram os preços e a partir daí, a polêmica se instaurou. 

A verdade é que não é possível esperar por uma definição do que vai acontecer.  Há dois dias eu escrevi sobre as perdas expressivas no Nasdaq e nos demais índices de NYSE.   Agora, quando estou fechando o post, eu vou à bolsa de Nova York e percebo que o Nasdaq movimenta-se no terreno negativo,

Enfim, por tudo o que escrevi, há uma busca incessante das autoridades monetárias internacionais em identificar um caminho exequível para se chegar a recuperação econômica global.   Eu escrevi há umas duas semanas sobre a decisão do FED em mudar a meta da inflação.  Hoje o BCE, o BoJ, o BoC e o BoE, estão formulando estratégias para uma atuação coordenada. 

Uma coisa é certa, os arsenais estão um tanto esvaziados com os juros no piso e a atividade econômica no subsolo.  O pior, a globalização ficou para trás e tudo acontece em meio à chegada de uma Era da desordem.  

Volto ao assunto em qualquer momento.   Enfim, há um fim de semana de imensas 48 horas à frente. 

Boa tarde, leitor do blog!

Micro cursos, Internacional, post 01.01.09, 11.09.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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