Porto Alegre, 12 de setembro de 2020

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Aposentado na UFRGS em 1997 eu lecionei durante 52 anos (1967-2019) e agora estou em casa.    Nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda fosse professor de Cenários Econômicos.

01.14.05 ARGENTINA, o Papa Francisco e a reestruturação da dívida externa

(01 Internacional, 14 Argentina, 05 número de ordem do post)

É sábado.  O calendário sinaliza fim de inverno, mas o tempo está danado no sul do Continente.  A Sky disponibilizou aos seus assinantes as imagens do canal 26 da Argentina.     loja virtualSurpreende-me que tenha demorado tantos anos para fazê-lo.    Desde menino eu escutava cedinho, os meus pais ouvindo as rádios de Montevidéu e Buenos Aires.  A minha mãe era uruguaia e o meu foi criado desde os 6 anos no interior do Uruguai.  Daí a origem dos seus hábitos.

Nos anos 70 e 80 eu comprava um dos dois jornais, Clarin ou La Nación, na banca existente no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico de Porto Alegre.  Até hoje eu conservo em sacos plásticos algumas edições históricas dos jornais de lá.  No fim dos anos 90 e mudança de século eu passei a escrever numa revista da Editora La Ley, de Buenos Aires.  Foi uma experiência notável.

Hoje, eu faço taxações sobre os acontecimentos portenhos nos jornais de Rio e São Paulo e acompanho pela Internet as edições virtuais das publicações argentinas.  Esse processo contribui para que eu possa me manter relativamente atualizado sobre o contexto em torno da Casa Rosada.

Eu confesso que depois dos governos de Cristina e de Macri eu não tinha muita expectativa no êxito de Alberto Fernández.    A presença do Papa Francisco no cenário político local mudou, um pouco, as possibilidades do novo governo buscar algum resultado diferente do seu desempenho histórico.

O seminário realizado no Vaticano com a presença de Kristalina Georgieva, economista búlgara, ex-Diretora do Banco Mundial e atual Diretora Geral do FMI, deu ânimo novo à velha política argentina.  O FMI era sempre o algoz das autoridades locais.   Dessa vez, Georgieva veio a público e procurou os credores internacionais para fazê-los participar das negociações da dívida argentina.

Até 2019, o relacionamento da comunidade financeira internacional com a Casa Rosada era um pesadelo.  Os credores eram conhecidos como abutres.  Os governantes viviam em calote. Kristalina deu uma nova versão à história.   

Georgieva definiu a dívida como insustentável e solicitou que os credores contribuissem para se alcançar um acordo.  Desde então, eu percebi que  Papa Francisco, com grande experiência na política argentina, parecia ter um peso que vai além do terreno religioso.   Ele se movimenta com maestria entre adversários políticos tradicionais de correntes de dentro e de fora do peronismo.   Foi assim que a Argentina chegou à novíssima mesa de negociações. 

Na pauta, a proposta de começar a pagar a dívida com o FMI em 2023.   Isso aconteceu no início de junho em plena crise do coronavírus.  Eu pensei, daqui do meu beco, que o governo de Alberto Fernández jamais imaginou que iria encontrar um problema maior que a gestão da divida.  Encontrou.   As imagens que eu acompanho do canal 26 de Buenos Aires há uma semana, evidenciam que o coronavírus roubou a cena local.

Isso era ruim?  Não tinha certeza  .  Quem sabe não seria o fio de linha que permitiria Martín Guzmán ocupar o lugar de Teseu e retirar o país do labirinto econômico em que se encontrava.   A dívida era o minotauro que devorava governantes, um após o outro, do Justicialismo à União Cívica Radical.   Isso não pode ser ruim.  De qualquer forma as perspectivas eram de dificuldades imensas.

Em fevereiro, uma equipe do FMI, liderada por Julie Kozack, subdiretora da Instituição, e acompanhada por Luis Cubeddu, chefe da missão Argentina, visitou o país.   Reuniões produtivas com Martin Guzmán.   Na agenda, um relato dos planos argentinos para o país voltar a crescer e diminuir os desequilíbrios sociais.

Quando eu li no relato da equipe que o FMI reconhece que as autoridades estão agindo para resolver a situação, para equacionar os déficits fiscais e externos, eu quase nem acreditei.   Até então, reuniões do FMI com os argentinos representavam guerras entre as partes; certamente que a presença de Francisco alterou o script.

Três dias depois que Kozack e Cubeddu deixaram a Argentina, Kristalina e Guzman estiveram juntos no encontro do G20 na Arábia Saudita e na oportunidade a diretora geral do FMI confirmou que apoiava o ministro e o Presidente Alberto Fernández na busca da estabilidade da economia argentina.   Um aval importante junto aos antigos abutres de que há novos tempos na gestão da dívida argentina e da redução da pobreza.   

No final de março, o Fundo emitiu uma nota técnica a pedido do governo argentino e da diretora gerente do FMI.    A nota era, na prática, um a pedido da Casa Rosada em que Kristalina dava o seu nihil obstat à sustentabilidade da dívida pública argentina.   A proposta do governo de Alberto Fernandez mostrava que podia sustentar a dívida a médio e longo prazo.  Eu creio que depois dessa declaração os abutres podem ter se tornado pombas da paz.

Em junho, pela primeira vez o Fundo de Kristalina Georgieva mostrou um pouco do antigo FMI de Christina Lagarde.   A Instituição mostrou-se, mais uma vez, em harmonia com a proposta argentina, mas destacou que os recursos dos país tem uma margem limitada para pagar os credores e honrar o principal e o serviço da divida do FMI.   Parece-me que a realidade tocou fundo na mesa de negociação da dívida argentina.

No início de agosto, o governo veio a publico para informar que pretendia apresentar um plano para pagamento de uma dívida de US$ 44 bilhões.   A negociação seria com o FMI, os credores privados deveriam dar o seu beneplácito e o governo garantiria a operação com a promessa de um equilíbrio fiscal.   Em suma, a Casa Rosada se posicionava como aquele que diz devo, não nego, pago, como posso.

No final do mês passado, em verdadeira medida orquestrada, Kristalina comunicou que havia se reunido com o presidente da Argentina.  Disse que a conversa foi positiva e que a pandemia mundial foi parte da agenda.   Fernández se comprometeu em levar a economia à retomada e a proteger os mais fracos.   Encerrou o relato dizendo que Alberto Fernández antecipou a solicitação de iniciar renegociações de um novo programa com aval do FMI.

No dia primeiro de setembro, os argentinos conseguiram, finalmente. fechar um acordo com 99% dos credores privados da dívida externa no valor de US$ 66,1 bilhões.  Isso significa que o governo de Alberto Fernández precisa negociar, agora, US$ 2 bilhões com o Clube de Paris e US$ 44 bilhões com o FMI. 

Leitor, o processo todo se deu via tele-negociação.  Pendente de negociação ficará 1% do total, que corresponde aos que resistem a reestruturação.  O milagre foi realizado!

E assim, ao fim e ao cabo, de todas as idas e vindas, o Papa Francisco parece ter produzido esse milagre.   A inspiração divina se sobreporia ao mundo de Cesar?   Tudo o que aconteceu, aconteceu porque Francisco foi parte das negociações ou porque Sua Santidade aproveitou a deixa da pandemia e partiu para realizar o milagre?  Eu não sei.   Eu não creio em bruxas, mas que houve “bruxaria”, eu não tenho dúvida. 

Ontem, 11 de setembro, o Equador e a Argentina, com as dívidas reestruturadas e com as possibilidades do default devidamente arquivadas, passaram a se voltar para o “placar” do mundo dos negócios das dívidas externas.   Era a vida pós milagre que passava a nortear a gestão dos dois governos. 

Hoje, 12 de setembro, os jornais de Buenos Aires divulgaram que o risco país do Equador caiu de 2700 para 953 pontos enquanto o risco Argentina ficou reduzido de 2100 para 1108 pontos.  

A situação da Argentina prossegue a mesma: desempenho de ré e instabilidade nas nuvens.  O PIB argentino deve recuar 9,1% em 2020 de acordo com o World Economic Outlook (WEO), o Panorama Econômico Global do FMI.   O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) que havia fechado o exercício de 2019 na casa de 53,8% ao ano, recuou para 42,5% ao ano no acumulado nos últimos doze meses até julho. 

Mesmo assim, quem diria, o país conseguiu partir para o canje da sua dívida.   Ainda tudo é muito temprano para uma avaliação melhor do que está acontecendo na conjuntura econômica daquele país, mas que tem a prece do Papa, no meio dessa história toda, eu não tenho a menor dúvida.

Boa tarde, leitor do blog!

MICRO CURSOS Internacional, post 01.14.05, 12.09.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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