Porto Alegre, 07 de outubro de 2020, 06:10, 14 graus C, 79% de umidade

Professor aposentado (1997) da UFRGS, nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda estivesse ministrando aulas de Cenários Econômicos.

01 Internacional, 14 Argentina, 06número de ordem do post: Kristalina Georgieva em busca de solução para a crise 

A crise argentina é antiga.  Eu tenho escrito sobre a economia local desde a transição dos governos militares para o governo de Raul Alfonsín (1983-89).  Foram muitos, muitos textos.  Olhando para o passado, eu sinto como se eu analisasse uma economia em crise sistemática. 

Eu lembro de ter escrito sobre uma declaração de Alfonsín em que ele dizia que tinha conseguido realizar a transição política, dos militares para o poder civil.   Quanto à transição econômica, da inflação para a estabilidade, essa tarefa ficaria a cargo de Carlos Menem. 

De lá para cá, o caminho foi tortuoso.  Em muitas oportunidades a situação se tornou crítica.  Um dia, veio o calote externo.  Credores no varejo e FMI no atacado.  Depois, os credores se tornaram abutres e o FMI, o vilão.

Nesses 50 anos eu vi de tudo na Argentina.   Ou melhor, eu acompanhei de tudo no país vizinho.  Ditadura, guerra das Malvinas, atentado terrorista à AMIA, hiperinflação, as crises cambiais, o currency board, o corralito, o desemprego,  a explosão da pobreza, a marginalidade social, o controle de capitais, a queda das reservas, o esgotamento do justicialismo, a decepção com Maurício Macri e mais o quê?

Eu confesso que não tinha muita expectativa na dobradinha Fernandez Cristina.   Sempre eu balizei o meu estudo no crescimento econômico e na abrangência das recessões.  No caso da Argentina, o que poderia propor o novo governo?

… 

O analista não pode deixar de citar o peso da polarização na política argentina.  No começo dos meus 50 anos de análise eu lembro de justicialismo versus radicalismo.  Partido Justicialista frente à União Cívica Radical. 

Nessa polarização, muita presença do sindicalismo.  O agronegócio vai dando um passo depois do outro, à medida que as condições permitem.   A crise atingiu uma dimensão tal que o calote parece ter escondido a luz no fim do túnel. 

Nesse interim, surgiu a pandemia.   Eu escrevi em post anterior que a essa altura da crise, o Papa Francisco entrou em cena.  Concebeu um seminário sobre a economia argentina no Vaticano.  Convidados os representantes do FMI e da Casa Rosada.   A gestão da crise saiu da UTI e foi para o quarto do hospital

Mudou alguma coisa?   Eu penso que o FMI de Christine Lagarde era um, o Fundo de Cristalina Georgieva é outro.  Eu creio que e preciso registrar que houve mudança na negociação da dívida com os credores.  Kristalina intercedeu e, surpreendentemente para mim, foi fechado o acordo de reestruturação dívida de US$ 100 bilhões. 

Tudo continuou e continua como antes porque a inflação está nas nuvens, a economia anda de ré há três anos e o câmbio não tem  jeito.  O dólar blue foi a 154 pesos.  Houve o lockdown, terminou e foi retomado.  No segundo trimestre, o PIB levou um tombo de -16,2%.  Em agosto mais recessão, a construção despencou em -17% e a indústria em -7%.  

Em condições normais, o pior dos mundos.  Em condições de pandemia, há dois híper atores no cenário, Francisco e Kristalina e dois fatos novos, o distanciamento do default e o aumento da plataforma marítima.   

Com a expansão da superfície submarina em 1,78 milhão de quilômetros quadrados, o país que estava localizado, exclusivamente, no Continente da América Latina, agora, também ocupa território no Continente do Ártico.  

Pois hoje Kristalina Georgieva falou à CNN.   Ela está em Buenos Aires para interagir com Martin Guzman, ministro da Economia, e escutar o governo e o povo argentinos. 

A Diretora Gerente do FMI não fala da Argentina como todos nós, simples mortais.  E eu acho que ela não poderia agir diferente depois de um possível acordo com o Papa.  Eu penso os argentinos merecem uma palavra de esperança nesse momento tão difícil.  

Kristalina afirmou que o importante é dar apoio às empresas e aos trabalhadores.  O FMI não veio cortar gastos, mas ajustar gastos.   Os conselhos dados à Argentina são dados a todos os países.   

Tudo porque, lembrou a Diretora Gerente do FMI, essa crise é um choque exógeno.   Ela fez pensar o impensável.  Produção e consumo com cautela.  É preciso flexibilizar para estimular a economia. 

Ela encerrou afirmando que está com muita expectativa sobre o andamento das discussões.  Ela deseja ajudar a Argentina.  Ela deseja definir objetivos de crescimento de médio prazo.  Aí ela está totalmente correta. 

E ela concluiu dizendo que pretende identificar quais os obstáculos para o crescimento.   Acredito que, mais uma vez, ao desejar configurar um diagnóstico da situação.   É preciso que a economia saia forte da crise para atender o desejo dos argentinos.  Foi a sua ultima mensagem dessa quarta-feira.

Boa noite, leitor do blog!

MICRO CURSOS Internacional, post 01.14.06, 07.10.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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