Porto Alegre, 10 de outubro de 2020, 18:10, 19 graus C, 26% de umidade

Professor aposentado (1997) da UFRGS, nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda estivesse ministrando aulas de Cenários Econômicos.

01 Internacional, 09 EUA, 27 número de ordem do post:  A resiliência, o antes, a pandemia e o depois, segundo o FED

Donald Trump esteve hospitalizado no fim de semana passado e contrariando a expectativa de muitos analistas a economia tomou o seu curso normal.   Curso normal?  Sim, a transição da depressão para a recessão.  

Aparentemente, o caminho de uma recessão comum é o que eu vejo à frente.   É lógico que a pandemia está aí e eu creio que terei que conviver com a mesma por mais um ano.   Eu confesso que me frustrei com toda a capacidade de inovação que eu achei que estivesse disponível nesse 2020.  Eu acreditei que em poucas semanas o problema estaria resolvido.

Que nada!  Eu li os jornais do centro do país de 1918, da época da gripe espanhola.  Tudo como dantes no quartel de Abrantes.  Então é preciso paciência porque as políticas fiscais nacionais perderam muito das suas potencialidades.  Frente à pandemia, foi gasto muito dinheiro devido às desigualdades sociais em um sistema econômico um tanto selvagem.

… 

É isso aí.  Ou teria acontecido algo que até agora ninguém conseguiu captar no cenário norte-americano?  Eu estou monitorando autoridades econômicas internacionais e procuro não me afastar dos diagnósticos conhecidos até aqui. Ir à frente do que se sabe produz muito ansiedade e diminui a capacidade de análise na conjuntura atual.

Então Trump voltou à Casa Branca e passou a promover o Regeneron.   Eu vi a matéria em que ele falou do seu tratamento e prometeu medicação gratuita aos que passarem pelas mesmas dificuldades de saúde que ele enfrentou. 

De tudo o que passou, eu fiquei com a imagem do presidente contando vantagem e os médicos, na frente do Centro Médico Walter Reed, afirmando que é preciso dar alguns dias para confirmar a recuperação do presidente.  Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer quando é contagiado com covid-19. 

………  A RESILIÊNCIA   ………..

O termo recorrente junto à mídia nos últimos dias  é resiliência.   No caso, a capacidade da economia norte-americana voltar ao estado normal depois da pandemia.

Antes, o depois e a volta ao normal.  É isso, a resiliência. É uma forma de eu simplificar o problema e a solução da conjuntura no corrente exercício.   

… O ANTES …

Em que consistiu o antes da pandemia na percepção do FED?  O antes resume-se a um período em que a economia norte-americana cresceu, ininterruptamente por 128 meses e pousou no pleno emprego.  Houve uma melhora na distribuição. 

Mesmo assim, Jerome Powell declarou-se decepcionado com o comportamento da produtividade desde a virada do milênio.  Nesses 128 meses de expansão, todavia, melhoraram produtividade, emprego, ganhos salariais e compartilhamento de benefícios.  

No diagnóstico que eu depreendi das manifestações de Jerome Powell, havia consenso sobre a ausência de uma bolha de ativos.  Os intermediários financeiros estavam fortalecidos, tanto em capital como em liquidez.  E, aí, a pandemia atingiu a economia que estava saudável.  Como um desastre natural, disse Jerome Powell  

Então, no início imaginou-se que se houvesse resposta política rápida os setores se recuperariam com o controle do coronavírus.  Todavia, aqueles mais afetados pelo vírus, demorariam a se recuperar.  Daí, a necessidade desses últimos e a mão de obra absorvida nos mesmos contarem com o apoio sustentado do governo.

O que o FED poderia fazer frente à pandemia? Preservar a estabilidade da economia, apoiar a expansão e limitar os danos à longo prazo de acordo com a capacidade da economia. 

… O DEPOIS …

Em que consistiu o depois da pandemia na percepção do FED?  À medida que o coronavírus contagiou o mundo, em fim de fevereiro os mercados financeiros se ressentiram da corrida para a liquidez.   Todos queriam dinheiro.  A economia brecou. 

 

Generalizou-se a atividade abaixo da capacidade.  Um tombo de 31% no segundo trimestre.  Despencaram folhas de pagamentos e explodiram dispensas temporárias.   Muitos percalços no mercado de trabalho.

Então, o FED agiu.  Juros no piso, compras de ativos no teto, facilitação no crédito, viabilização no suporte do bancos aos clientes.   Destaque para a política fiscal posta em prática pelas autoridades.   

Em especial, o CARES ACT, uma iniciativa do governo Trump, materializada na Lei de Auxílio, Socorro e Segurança Econômica (CARES) do Coronavirus, de 27 de março de 2020, no valor de US$ trilhões em ajuda e assistência aos agentes econômicos

Além da CARES foram implementados outros programas que, no conjunto, resultaram em apoio total de US$ 3 trilhões, o maior desde a crise de 1929. 

…  

Estamos em outubro.   Qual o efeito do apoio de US$ 3 trilhões até agora?  Bem, o apoio foi fundamental para que o consumo das famílias superasse aquele praticado antes do coronavírus.  O consumo de serviços caiu devido ao confinamento.   Houve o término da expansão do benefício do seguro desemprego.  

Em pronunciamento na reunião anual da Associação Nacional para Negócios Econômicos Virtuais,  Jerome Powell se disse surpreendido com a visão otimista do bem estar financeiro das famílias em julho passado.  Setenta e sete dos entrevistados disseram que estavam indo bem frente à crise. 

A onda esperada de falências e demissões não se confirmou.  O Programa de Salários e o investimento empresarial evitaram que o pior acontecesse.  A paralização dos mercados financeiros em março foi substituía pela normalidade com crédito razoável e gastos em construção e no setor automotivo. 

A recuperação ainda é incompleta, mas a dinâmica recessiva foi atenuada com a injeção de recursos em famílias e empresas e na queda de aversão ao risco.    Contudo, há um longo caminha à frente.   A taxa de desemprego foi a 14,7% e já recuou para 7,9%.  As folhas de pagamento recuaram em 22 milhões e já recuperaram em torno de 50%. 

Em agosto, na comparação com fevereiro, as diferenças de perdas foram desiguais e pesaram mais sobre as remunerações menores.   Da forma como alcançou as comunidades de cor, as crianças, o ensino à distância e o impacto sobre as mulheres a crise sanitária aumentou a divisão do bolo

… E A VOLTA AO NORMAL …   

Em que consistirá a volta ao normal na percepção do FED?  Powell parece se mostrar um tanto surpreso com a rapidez da recuperação.  Ele disse que na última reunião da Comitê Federal de Mercado Aberto constatou-se que as projeções apostam numa recuperação sólida.

Aqui, a minha surpresa em 2023.  O desemprego cai a 4,0% e a inflação a 2,0% em dezembro de 2023.  Surpresa porque demora um pouco mais do que eu imaginava.  Na verdade, uma surpresa dupla.  Porque a volta ao normal leva a economia ao pleno emprego.  Não está bom demais?

Leitor, Powell se refere a projeção de um observador mediano.  É matemática.   Sem viés, político.   Isso, eu imagino, funciona num cenário básico.  Os resultados podem estar além ou aquém do esperado.   A incerteza existe.  Tudo depende da vacina. 

Essa incerteza decorre de uma abertura rápida, resultados imediatos, mas com a pandemia vindo logo a seguir e produzindo mais incerteza.   Tudo melhorou em maio e junho em termos de emprego, mas o aumento da perda de emprego em caráter permanente continua aí.

É preciso focar nos riscos e ádministrá-los da forma que der.  E se vier uma segunda onda do vírus?  Será preciso recorrer à ciência, à mascara e ao confinamento.   E se a situação se prolongar e a melhoria obtida até então entre em desaceleração?   Se o progresso vier em lentidão, as disparidades avançarão.  Uma tragédia no que foi a economia antes da pandemia.

Para o chairman a recuperação surpreendeu pela rapidez, mas está longe de terminar e é preciso considerar a  intervenção política no processo em curso.   Pouca intervenção implicará recuperação lenta, com insolvências e falências.   Empreendimentos e salários seriam afetados. 

Aparentemente, gasto em excesso não gerará desperdício,  A economia ainda esta em perigo e a articulação das políticas monetária deve prosseguir para afastá-la de tal situação.   Tudo à luz da nova metodologia da meta flexível da inflação. 

A propósito eu publiquei um post no blog no dia 31.08.2020 sobre a Revisão das metas de longo prazo e da estratégia de política monetária por parte do FOMC.   Confira o que eu escrevi no endereço

http://antoniocarlosfraquelli.com/2020/08/31/micro-cursos-internacional-post-01-09-14-31-08-2020-se-eu-ainda-estivesse-em-sala-de-aula/

Bem, prosseguindo, o FED vai apresentando as suas razões à medida que há mudanças importantes na crise.  Caíram as estimativas da variação do PIB potencial e das taxas de juros, exigindo novos desafios à política monetária.   Mesmo assim é importante considerar que a economia pode conviver com emprego mais elevado sem elevar a inflação. 

Antes de finalizar a sua mensagem no evento, eu percebi que Jerome Powell voltou a enfatizar a mudança na estratégia da meta flexível de inflação.   Depois ele falou na continuidade da política monetária acomodatícia à espera de melhores resultados.   

Deu uma palavra final sobre a meta das taxas de zero a 0,25% para os fundos federais, e que isso deve persistir de forma coerente com emprego máximo e inflação de 2,0% ou moderadamente superior a 2,0% devido à Revisão de Metas citada acima. 

Foi isso aí que eu depreendi da leitura da manifestação de Jerome Powell.   Eu procurei manter a divisão em três partes, quais sejam, antes da pandemia, concomitantemente à crise sanitária e o que vem depois. 

Boa noite, leitor do blog! 

MICRO CURSOS, Internacional, post 01.09.27, 10.10.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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