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Professor aposentado (1997) da UFRGS, 76 anos, nessa seção de MICRO CURSOS eu estou postando informações diárias que eu utilizaria se eu ainda estivesse ministrando aulas de Cenários Econômicos.

01.Internacional, 14 Argentina, 07 número de ordem do post:  à espera de um programa econômico   

“Porque hoje é sábado” eu comecei cedinho.  Eu li uma frase na mídia sobre a Argentina que me deixou curioso sobre ambos, o discurso e o autor.   “Porque hoje é sábado” e na terça-feira, dia 17, é o dia da Lealdade.  Eu pensei em verificar como está a Argentina nesse dia que comemora o nascimento do Peronismo. 

Javier Milei, 49 anos, é um economista argentino, crítico dos governos de Cristina, de Macri e, agora, de Fernández.  Eu li que Milei é simpatizante da Escola Austríaca de Economia.  Ele disse, ontem, que a Argentina está em cima de um vulcão na iminência de uma erupção.   Daí, ele ter dito, “vamos explodir, todos”.

A situação do país é crítica.  Eu tenho escrito sistematicamente sobre a crise econômica local.   Eu lembro de ter muita curiosidade com relação à proposta de governo que Alberto Fernández poderia apresentar à época da sua posse em um ambiente de tamanha polarização como é o caso argentino.   

A pandemia mudou o curso da agenda do governo recém empossado.   Houve confinamento entre meados de março e de maio.   A crise sanitária não cedeu e foi necessário promover novo isolamento.  Hoje há 965  mil casos de infectados no país, representando o quinto lugar no ranking global.  O coronavírus já causou 25,7 mil óbitos no país. 

Na verdade, eu venho monitorando a Argentina há 50 anos.  Quando Raúl Alfonsin chegou ao poder eu acreditei que a transição política poderia mudar o futuro nacional.  Carlos Meném, o seu sucessor, não  conseguiu levar adiante a transição econômica e a crise se consolidou no que haveria de vir. 

… 

A recessão já tem três anos.  A taxa de desemprego superou o patamar dos 10,0%. A inflação fechou em 53,8% no fim do ano passado.   E nesse início de 2020 a divida argentina era de US$ 322 bilhões.    As reservas caíram de US$ 65 bilhões no início de agosto de 2019 para US$ 42 bilhões no início de setembro de 2020.   

Francisco, o Papa, promoveu um seminário sobre a Argentina no Vaticano.   O FMI mudou o discurso.  Kristalina Georgieva passou a defensora dos interesses de Buenos Aires.    Viva Francisco?

Os fundos abutres diminuíram o apetite?   A divida pública estrangeira, quem diria, foi reestruturada em 31 de agosto.  De um total de US$ 66 bilhões, 99% foi renegociado.   Um quinquênio de afrouxamento no caixa com juros pela metade.  Sem risco de moratória.  O próximo passo é a negociação da dívida de US$ 44 bilhões com o FMI. 

Pois, hoje, também, Javier Milel apareceu na mídia argentina.   Ele afirmou que o governo não tem plano para enfrentar a crise.  Ele pede mais medidas para Alberto Fernández. 

Eu acompanhei a entrevista de Milel na televisão.   Ele disse que se surpreende porque Fernández fala de assuntos que ninguém lhe perguntou.  Ele criticou o Presidente porque ele prometeu que jamais reteria os depósitos.  Isso já aconteceu em 2001, quando o Congresso votou pela inviolabilidade dos depósitos e em novembro havia o corralito. 

Além da crítica a intervenção governamental nos depósitos, Milel afirmou que ao utilizar os recursos bloqueados do setor privado, as autoridades ficam com um colchão imenso de liquidez e se mantem com um estoque líquido negativo de reservas. 

Na sequencia de iniciativas de Martín Guzmán, 38 anos, o jovem ministro da Economia de Alberto Fernández, o governo adotou medidas para conter a redução das reservas.   Hoje, Martin Redrado, 59 anos, que foi presidente do Banco Central Argentino entre 2004 e 2010, afirmou que as iniciativas do governo mais atrapalham do que ajudam. 

O ministro Guzmán, um heterodoxo na titularidade da pasta da Economia, ao elevar as medidas do bloqueio dos depósitos – a liquidez representa oitenta por cent0 dos depósitos –  praticamente forçou as empresas à reestruturação das suas dívidas em dólares. 

Depois de feriados consecutivos por uma semana, criou-se uma situação de total incapacidade de devolver os depósitos em dólares.  E assim, conclui Redrado, que dadas as normas atuais é preciso monitorar, diariamente, a intervenção líquida das autoridades monetárias para conferir se houve liberação de algum depósito e conferir se há brecha cambial à margem. 

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Assim, à medida que a negociação com o FMI entrou na pauta é preciso viabilizar a possibilidade do exportador liquide a  sua posição em dólares em total liberdade.  Ele é que deve decidir a liquidação quando desejar.  É fundamentar elevar a oferta de dólares e aumentar a demanda de pesos que só acontecerão se houver um programa de retomada da economia.

Os agentes econômicos locais precisam um horizonte maior para o cenário econômico, o bloqueio dos depósitos deve ter o caráter de transitoriedade e nada mais.  Já houve precedentes na gestão da política cambial no passado recente.  É só lembrar o bloqueio de 2011-15.    O que era para ser provisório permaneceu por quase um quinquênio e esvaíram-se US$ 30 bilhões das reservas que são tão caras para preservar a estabilidade econômica.

Sobre o tema da conjuntura econômica local, manifestou-se na mídia durante o dia de ontem o economista Jorge Roberto Hernán Lacunza, 51 anos, foi ministro da Economia (2015-19) de Maria Eugênia Vidal, governadora da Província de Buenos Aires, e posteriormente, em agosto do ano passado, foi ministro da Economia do governo Maurício Macri em substituição a Nicolás Dujovne.

No contexto atual, afirmou Lacunza, é preciso não deixar dúvidas sobre os depósitos do setor privado e muito menos sobre a solidez dos intermediários financeiros.   Quanto à taxa de câmbio, sempre haverá convicção que as medidas postas em prática não resolverão o problema vigente.  O que ficar pendente de decisão, o câmbio corrige.

Então, ao fim e ao cabo, eu acredito que a gestão da economia argentina mudou de patamar.   A barreira tradicional de negociar com o FMI está bem encaminhada.  O impasse costumeiro de esbarrar nos fundos abutres foi superado.  O problema é o que fazer depois?   

Até agora há medidas heterodoxos de caráter extremamente limitado.  Não permitem que a economia retome o seu crescimento porque não horizonte à vista.  Os agentes econômicos esbarram aqui e acolá e a economia não consegue tomar um curso.  Todas as medidas do governo são pontuais à medida que os problemas acontecem.

Por tudo isso e “porque hoje é sábado”, há necessidade do governo formular um plano de retomada da economia.  A recessão se aprofunda e a inflação não dá folga.   Ontem houve novo aumento dos preços dos combustíveis. 

O litro da super passou a ser cobrado a $ 61,84, a INFINIA em $ 71,34, o DIESEL 500 a $ 51,75 e a INFINIA DIESEL a $ 67,56 e o GNC $ 21,31.  Hoje, esses preços serão internalizados no orçamento do consumidor e a inflação tomará novo fôlego.

Enfim, “porque hoje é sábado” cabe reafirmar que a situação permanece crítica.  A barreira do FMI está sendo removida, mas o quê o governo irá propor em termos de estabilidade econômica e de retomada do crescimento? 

Tudo acontece em um cenário de restrições adicionais geradas pela pandemia, que não perde forças.   O que esperar do governo de Alberto Fernández?   Uma boa resposta para o dia 17 de outubro, El dia de la lealtad.  dia 

Boa tarde, leitor do blog!

MICRO CURSOS Internacional, post 01.14.07, 17.10.2020, se eu ainda estivesse em sala de aula

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