Porto Alegre, 17 de novembro de 2020

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Ontem eu assisti um filme na televisão.  O título?  O milagre de Milão.  Quando eu liguei a televisão o filme já tinha começado, mas eu resolvi acompanhar as imagens mesmo assim.  Eu estive em Milão quando eu fui conhecer a região do Lago di Como e, em particular, a cidade de Como, local de origem do meu avô que migrou da Itália para o Brasil, ou para a Argentina, em meados do século XIX.

O filme era em preto e branco.  Fui em busca de informações e constatei que o filme é de 1951, trata do período pós Guerra e foi dirigido por Vittorio de Sica.   Durante a minha infância e adolescência eu não perdia filme italiano. 

Em Rivera, do lado de lá da fronteira, havia quatro cinemas:  o Grand Rex para um público de 1100 pessoas, o Avenida para 400 pessoas, o Astral para 650 pessoas e o América para 800 pessoas.    O Grand Rex era o cinema mais importante da cidade naquela época.  Todos os domingos havia matiné, no horário de 13:30 até 20:00, com apresentação de quatro filmes, com intervalos de três minutos entre um e outro.

Ir ao cinema era um lazer generalizado no início dos anos 50.  Eu era pequeno.  Eu lembro que todos os filmes eram em preto e branco.  Eu creio que em 1953 ou 1954 surgiram os filmes coloridos nos cinemas de Rivera.  Logo em seguida, ou, simultaneamente, surgiu o Cinemascope.  Era a famosa tela panorâmica. 

Eu ficava na expectativa que surgisse um filme em cinemascope.  Depois, se lembro bem, surgiu o Eastmancolor, que era da Kodak.  E o processo não parou de evoluir desde então.  Então, nessa época, a minha lembrança associava cinema, com filmes italianos e imagens coloridas.

Ao mesmo tempo e na mesma época, e até antes, minha mãe sempre falava na Guerra.    Eu nasci em 1944, mas sem saber precisar quando eu comecei a perceber esse sentimento da minha mãe, o tema da guerra era recorrente.   

Ela, uruguaia, me passava a ideia de alguma associação da guerra, às multidões e às bandeiras vermelhas.  No Uruguai da minha mãe havia duas forças políticas importantes: os blancos de Herrera e os colorados de Batlle.   Os meus avós maternos, de sobrenome Coitiño, migraram para o Brasil quando a minha mãe tinha onze anos.

Um pouco mais tarde, eu soube das grandes manifestações que aconteciam na fronteira à frente das casas de famílias de origens alemãs e italianas.  Essa associação da guerra com manifestações contra descendentes de italianos não combinava com os filmes italianos, coloridos ou não, dos gêneros românticos ou de comédias.  que eu assistia em Rivera.

O tempo passou e eu, já professor de Economia, comecei a organizar a minha videoteca.   A minha experiência docente começou na área de Mercado de Capitais.   Eu sentia que a matemática financeira me deixava um tanto acelerado.  Num primeiro momento eu senti a necessidade de maior formação acadêmica em métodos quantitativos.

Nos Estados Unidos eu fiz 10 cursos nas áreas de matemática, estatística e econometria.  Muita informação de mercado de capitais e muitas ferramentas de análise vindas das Ciências Exatas, nos departamentos de Engenharia, Estatística e Matemática,   

Em Nova York eu recebi um oficio do Instituto de Pesquisas Espaciais.  Surpreso, porque eu não havia solicitado emprego na Instituição, no ofício constava que eles haviam avaliado o meu currículo e tinham interesse em profissionais com a formação que eu havia realizado nos Estados Unidos.

De volta ao Brasil, eu optei por voltar para o RS.  Nessa época eu recebi convites para trabalhar no eixo Rio-São Paulo, mas eu preferi permanecer no sul por causa da idade adiantada dos meus pais.    E eu não me tornei técnico da CIENTEC porque na entrevista inicial me foi dito que não havia interesse maior da Instituição em profissionais com formação em Econometria.

Aquela primeira frustração à la brasileira durou, apenas, uma noite.   No dia seguinte, nova entrevista, dessa vez na SUPLAG, uma superintendência da Secretaria de Planejamento do Estado, que seria origem da futura FEE.

E assim, eu fui contratado devido ao perfil que eu havia alcançado a partir do meu mestrado em Economia na Syracuse University, em Nova York. 

Na minha nova atividade profissional no RS, também pouco se falava em Econometria.   A palavra corrente era ideologia.  Migrei de uma expectativa da área quantitativa para um estudo concreto que me levou à filosofia e à história.  Foram quatro anos focados em História da Filosofia.   Um estudo aplicado.  Até hoje tenho centenas de fichas construídas nos anos 70.   Lembre, o leitor que não havia notebook nessa época.  Era resumo em ficha ou via datilografia.

Estudei como nunca.   Senti-me possuidor de uma certa firmeza ao reunir mercado de capitais, com Econometria e com História.  Foi assim que cheguei ao tema do método em Economia.   Dois grandes conflitos metodológicos em Economia.   No  segundo conflito metodológico eu tinha a Economia Neoclássica, com a Matemática, de um lado, e a Escola Histórica Alemã, com a Estatística, de outro.   As soluções eram várias, dentre elas, o Materialismo e a Econometria.    

… 

Eu sentia que avançava numa dimensão acadêmica, mas os aspectos de razões emocionais que eu carregava por influencia materna – o temor à guerra e a pressão sobre os oriundos – prosseguiam comigo.   Ao mesmo tempo a Itália dos filmes nada a tinha a ver com o contexto presente em minha mente.

Com o passar do tempo foram tantas comédias e tantos filmes românticos com Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Vittorio De Sica, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale que eu assimilei a ideia da Itália do glamour.

À medida que eu iniciei a minha experiência docente e, logo depois, eu comecei a formar a minha videoteca, eu passei a monitorar as matérias que tinham origem na Europa do século XVIII.   Posteriormente, fui reunindo material, imagens, sobre o Velho Continente do início do século XIX e todo o processo de migrações para os Estados Unidos.

Em especial, nas imagens dos anos de 1800 eu passei a perceber o nível de miséria vigente no Velho Continente.  Em particular, nos vídeos do inicio dos anos 1900, eu localizei um filme que mostrava as condições em que 11 milhões de pessoas migraram da Europa para a América do Norte no período de uma década apenas.   Foi o maior processo de migração que o mundo conheceu.  O beneficiado?  Os Estados Unidos. 

Na sequência como docente eu passei a utilizar esses vídeos em sala de aula.   Eu jamais esqueço em que um dia para motivar os alunos eu procurei mostrar alguns minutos da vinda dos europeus para a América.   A minha ideia era criar um marco zero junto aos alunos.  

De repente eu fui surpreendido pelo pranto de uma aluna.   No começo eu pensei que ela tivesse se sentido mal em aula.  Ledo engano.   Ela disse ao grupo que ao ver as imagens ela entendia o que a avó dela contava para os familiares quando criança.    A avó era migrante da Itália para o Brasil.

O que havia no vídeo?   As pessoas eram carregadas como mercadoria no casco do navio.  O espaço era mínimo por migrante.   Eram lamentáveis as condições materiais – alimentação, higiene, saúde – dos migrantes para uma viagem em que os navios atravessavam o oceano.   Em dia de sol era uma multidão no convés dos navios.  Óbitos confirmados implicavam jogar o defunto ao mar.

Em 1970, nos Estados Unidos, eu participei da organização de um Festival das Nações.   A cidade de Syracuse, Nova York, foi a sede do evento.   Ali eu pude perceber que os Estados Unidos é um cadinho de gente de todo o mundo.  Passei a considerar difícil uma comparação dos Estados Unidos com os demais países.  Pareceu-me que o país era um mundo à parte.   Um imenso combo.

Ora, à essa altura da minha formação, eu passava a entender a visão real dos italianos que eu obtivera em casa com a ficção dos filmes italianos do inicio dos anos 50 que eu assistia no cinema.   Ou seja, eu passei a perceber que havia um hiato entre os dois lados da moeda.

Eu carreguei esse hiato na minha memória até à noite passada quando eu assisti o filme o Milagre de Milão.   No filme, uma idosa localiza um nenê num repolho.  Ela vem a falecer e a criança vai para um orfanato.  Ela permanece ali até crescer e apresentar condições de buscar emprego.   A guerra havia terminado há pouco. 

O menino apelidado de Totó é representado pelo ator Francesco Golisano.  Adulto ele convive com Milão daquela fase dificílima do pós guerra.  O filme dirigido por Vittorio De Sica é uma obra prima em preto e branco.  No filme a madrasta  aparece numa visão e entrega uma pomba branca mágica para Totó.   E ele passa a ter super poderes naquele ambiente de muita miséria.

Eu penso, hoje, que De Sica foi muito feliz em retratar a Itália do fim dos anos 40.  Há um ambiente de miséria total.  Os locais em que vivem os trabalhadores reproduzem esse ambiente de miséria generalizada.  Milão que De Sica mostra é de penúria total do trabalhador.  O realismo social é acompanhado de uma estrutura de poder degradante.

No filme, Totó está ao lado de dezenas de trabalhadores, em uma área que é vendida pelo proprietário.  Acontece de tudo naquele ambiente de miséria.  Essa multidão é ameaçada por tanques, cachorros e policiais armados, criando um ambiente de pressão sobre as pessoas acompanhado de cenas de comédia.  Uma tragicomédia?

Numa cena, as dezenas de trabalhadores estão sentados ao ar livre e vão concorrer a uma loteria.   Os números estão nas mãos dos trabalhadores e a namorada de Totó vai retirar o papel que indica o vencedor.  O número sorteado é 90.   Há uma demora para que alguém apresente o papel com o número 90.

Há manifestações dos trabalhadores para que se realize um novo sorteio.  Em dado momento, uma pessoa chama a atenção de outra que ela foi venceu o sorteio.   O sorteado apresenta todo o tipo de instabilidade psicológica até que é levado para o centro do evento para receber o prêmio.

Criado o ambiente adequado, há uma mesa em que a multidão se concentra em torno do local.   O sujeito sorteado senta à mesa e recebe um pequeno frango assado como prêmio.  Muitos querem um pedaço do frango, mas o vencedor do sorteio nega dividir o prêmio.   Ele devora o frango e é aplaudido.

Em outra cena os trabalhadores compram um assento para assistir ao por do sol.   E eles ficam à espera que a tardinha chegue e possam perceber todos os detalhes do sol se pondo.  Em outra cena um grupo de representantes os trabalhadores vão ao centro do poder e são recebidos com chá e doces. 

Eles ficam estupefatos ao ver como o proprietário vive.  De volta as moradias, são atacados pelas forças policiais do sistema.   Tudo acontece de surpresa, da comédia à tragédia.

Durante as ações policiais às moradias dos trabalhadores, Totó utiliza dos poderes da pomba mágica para equilibrar o drama social.   Sempre há uma solução para cada enfrentamento dos policiais aos trabalhadores.

Para encerrar, o filme o Milagre de Milão mostra a praça do Duomo em um ambiente de miséria total, bem diferente daquela praça que eu conheci a Catedral, em 1969,  no centro da cidade.   O fim do filme é de ficção.  Eu deixo de contar como o filme termina para evitar que alguém que queira assistir o espetáculo perca o estímulo para tanto.

É isso aí.  O milagre de Milão é uma obra notável.  Vittorio de Sica dirige o espetáculo com maestria.  O filme dá uma dimensão de como era a Itália ao fim da IIa Guerra Mundial.

Boa noite, leitor do blog!

Em tempo:  aos 76 eu vivo o desafio do aprendizado de máquina.    Ou seja, a necessidade de compreender a matemática em nível conceitual.  Enquanto vou escapando da covid19 vou fazendo frente à essa nova realidade acadêmica.  Fazer o quê?

FOTO ABAIXO: Uma participação em programa da Rádio Guaíba

Em 2007, a Rádio Guaíba AM 720, produziu uma série intitulada Rio Grande 20 anos de crise: de Amaral de Souza à Yeda Crusius.   No dia 02 de abril daquele ano, o conteúdo do programa estava voltado para o governo Amaral de Souza (1979-83).   Na oportunidade, eu era Diretor de Planejamento da Secretaria de Planejamento do Estado e fui convidado a participar do evento.   Até hoje eu mantenho guardada, em algum lugar da minha casa, uma cópia da minha participação no programa da Rádio Guaíba. 

MEMÓRIAS e outras histórias, post 63, 17.11.2020, o entorno do filme O milagre de Milão

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