Docente aposentado (1997) da UFRGS, 76 anos, professor de Cenários Econômicos.

Porto Alegre, 24.11.2020, 06:10, 20 graus C, 64 % de umidade 

Post 01.03.19

01 Internacional, 03 União Europeia, 19 número de ordem do post

Terça-feira, primeira hora da madrugada.  A segunda-feira recém chegou ao fim.  As informações estão sempre chegando; o blog, repercutindo. 

Os resultados da bolsa desse início de semana evidenciam alguma estabilidade no Velho Continente.  As variações foram mínimas nos principais índices: CAC da França (-0,07%), DAX da Alemanha, (-0,08%), FTSE Eurofirst 300 da Europa (-0,27%) e FTSE 100 da Grã Bretanha (-0285).   

Mesmo assim, as valorizações nos últimos 30 dias. que incluem a mudança no titular da Casa Branca, são todas positivas:  CAC France (11,86%), DAX Germany (3,81%), FTSE 300 Eurofirst Europe (6,98%) e FSE 100 Britain (8,08%).

O que está acontecendo nos últimos dias que pode estar mostrando um cenário menos otimista no Velho Continente?  Isso pode estar realmente acontecendo em momentos recentes?

Bem, nesses cinquenta anos acompanhando crises, eu me acostumei a raciocinar com uma possível recessão quando a economia global vinha bem e, posteriormente, à medida que a crise se concretizava era uma questão de tempo para o ciclo reverter e a economia retornar à normalidade.

E foi assim que eu sentia que poderia acontecer com a economia internacional quando o cenário político americano estivesse, definitivamente, definido a favor de Joe Biden.    

Nesse sentido eu lembro de ter escrito um post espelhando um cenário de retomada econômica global. Hoje eu percebo que havia duas observações que eu deveria ter apresentado ao leitor do blog e que eu deixei de fazê-las.

A primeira é que nem todas as saídas das crises acontecem de forma semelhante e a segunda é que a crise atual é inédita porque há a pandemia em curso.

Por isso, eu sinto que na retomada global atual o ambiente da Europa é totalmente diferente daquele que acontece nos Estados Unidos.

Dessa vez o segmento empresarial europeu está na pior.  A dificuldade principal que está acontecendo é que as empresas não podem ter auxílio por mais tempo. 

É fundamental um retorno à normalidade, mas o quadro do setor privado continental é tão frágil que se a injeção de recursos públicos periclitar haverá muitas quebras a contabilizar.

O papel das autoridades é extremamente difícil.  É preciso ancorar a recuperação da economia, mas já se usou recursos que não produzirão retornos.  E assim sendo, há uma possibilidade muito real de quebras no curto prazo se não continuar a ajuda recente.

No meio desse caminho estão os bancos.  Se as empresas podem apresentar dificuldades no trimestre em curso o que vai sobrar para os intermediários financeiros que estão financiando a permanência das mesmas nos mercados?

Agora, no início da madrugada eu acessei o site do Banco Central Europeu e eu me deparei com um artigo publicado nessa segunda-feira, intitulado “Uma avaliação de vulnerabilidades corporativas na área do euro” .  Os autores são os técnicos da instituição Sándor Gardó, Benjamin Klaus, Mika Tujula e Jonas Wendelborn.

O que eles escreveram?  A pandemia parou a economia, criou falta de liquidez para as empresas não financeiras e agora ameaça a solvência das mesmas.  As medidas nas áreas fiscal e monetária evitaram que as empresas fossem à falência e diminuíram a pressão sobre a economia e os bancos.

Os quatro autores avaliam as vulnerabilidades da área do euro e os fatores que determinam tal situação. O que eles desenvolveram foi um indicador que mede a solidez e o risco financeiro da empresa, bem como a contribuição dos fatores para obter o resultado final.

No texto elaborado pelos técnicos, eu leio que eles utilizam dados das contas nacionais e os combinam com a cinco indicadores, quais sejam,  de capacidade de serviço da dívida, de alavancagem e endividamento, de financiamento, de rolagem, e, finalmente de lucratividade e atividade.

A partir daí eles apresentam a metodologia desenvolvida para chegar a um indicador composto geral e dois gráficos decorrentes de tal ferramenta.  

No primeiro gráfico eles demonstram que a pandemia causou vulnerabilidades crescentes junto às empresas mas as condições de financiamento altamente favoráveis abrandaram os riscos da crise.

No segundo gráfico, os economistas mostram que as vulnerabilidades das empresas avançaram na pandemia, o apoio da política econômica evitou o aumento das insolvências.

Então, foi no site do Banco Central Europeu (BCE) que eu li o texto citado acima e que o leitor pode acessar no endereço eletrônico  

https://www.ecb.europa.eu/pub/financial-stability/fsr/focus/2020/html/ecb.fsrbox202011_01~afc02db8d6.en.html

Outras fontes me permitem reforçar a ideia em torno da crise crescente na economia europeia.   A partir do texto do BCE já dá para perceber que os bancos devem se preparar com essa realidade que está na volta da esquina. 

Ora, para quem já trabalhava com as taxas de juros no piso, o quadro de vulnerabilidade empresarial deve criar muita instabilidade junto aos intermediários financeiros.

O que há de concreto na economia europeia é a segunda onda da pandemia.  A economia regional está extremamente débil.   Eu vejo na imprensa europeia que o Índice PMI, o índice de atividade econômica da Zona do Euro, caiu de 50,0 pontos em outubro para 45,1 pontos em novembro.  

Essa queda acontece no setor de Serviços.  O leitor  que me acompanha diariamente deve lembrar que eu escrevi, mais de uma vez, que as crises econômicas atingem sempre o setor industrial, em primeiro lugar, e depois, o setor de Serviços.   Agora, o processo se desenvolve no sentido contrário.

Na crise atual da pandemia europeia, o setor industrial prossegue como for possível, mas o setor de Serviços foi atingido duramente porque, inclusive, hotéis, bares e restaurantes, pararam totalmente.

Na Europa da Zona do euro, o desemprego está registrando quedas sucessivas há três trimestres consecutivos.   Paralelamente, eu percebo que na Espanha estuda-se a criação de uma jornada de trabalho de quatro dias.

Para encerrar, eu acredito que haverá necessidade de estabelecer novos indicadores em torno do relacionamento dos bancos com as empresas na Zona do Euro.   Eu quero dizer, novos padrões, em que as exigências anteriores sejam flexibilizadas para permitir que a resiliência não se perca na segunda onda da pandemia.

Eu prossigo atento a tudo porque eu vejo com muito otimismo a capacidade de reação da economia global.   Ao mesmo tempo, eu não posso ignorar que as pedras se acumulam no caminho. 

A todas essas eu acredito que Joe Biden precisa apressar o passo porque de lá deve vir um primeiro sinal onde se encontra o fio de linha que leva à saída da crise porque o Minotauro está à espreita.

Bom dia, leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  Experiência no Conselho de Administração do Banrisul

Aos 76, isolado desde fevereiro, eu consigo avaliar um pouco da minha experiência como economista na administração do governo do Estado do Rio Grande do sul.  Nela, eu destaco a minha estada no Conselho de Administração do BANRISUL, nos anos 80, durante a Administração Amaral de Souza.

UNIÃO EUROPEIA SINALIZA A PRESENÇA DE UMA NOVA CRISE EM FORMAÇÃO?

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