Porto Alegre, 26 de novembro de 2020

Horário oficial do beco da Rua Gen João Manoel, 12h10, 26 graus C, 49 % de umidade, chuva chegando

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À guisa de informação eu estudei piano até o sexto ano.  Quando eu conclui o quarto ano eu me tornei professor de solfejo.  Uma experiência inesquecível.  Sempre que eu escrevo sobre algo que tem a ver com a música, eu coloco o texto na classificação acima.

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Bem, lá vou eu para uma catarse.  Algumas vezes, depois de aposentado, em 1997, eu pensei em me dedicar à música, outra vez.   Tenho mais de 50 músicas prontas.  Eu interrompi a minha atividade ligada às artes quando a minha filha de número 3 nasceu. 

Ela dormia muito mal.  Sempre.  Acordava a cada 15 ou 20 minutos, recorrentemente, por dois ou três anos consecutivos.  Depois do primeiro micro sono, só eu podia chegar perto dela.  Vieram bispo, padre, médium, pai de santo, enfim gente de todos os credos.  E, nada.  Eu lembro que o Doutor Rota, já falecido,  repetia que um dia o sono voltava.

Deixei tudo de lado, inclusive o piano, o teclado e o violão.  São 4 filhos.  Quando a de número 3 finalmente dormia, em torno de 07:00, já estava no horário de os mais velhos seguirem para o colégio.  Fazer o quê?

Mesmo assim, na minha videoteca de várias décadas eu sempre gravei matérias com músicos, além da minha rotina normal de manter atenção prioritária à agenda da Economia.   A música que eu acompanhei, eu reconheço, era um tanto antiga. 

Quando surgiu a bossa nova eu levei um choque.   Achei que era uma vertente mágica da música nacional.  Hoje, eu ainda não aprendi a apreciar a música sertaneja.  Faço força.  De alguma forma, eu tenho consciência que todos os músicos são esforçados.  

Quando, pela primeira vez, eu ouvi Elizeth Cardoso e depois João Gilberto eu era fã do Agostinho dos Santos.  No primeiro momento em que eu me liguei nesses dois novos cantores, parecia que era uma evolução, um upgrade, da melodia Balada Triste, Dindi, ou. em Segredo, que Agostinho cantava.   

O mundo da voz suave de Agostinho terminou a 4 quilômetros do pouso do PP VJZ, Boeing 707-345C da Varig, no Aeroporto de Orly em 12 de julho de 1973.   Foi um baque.  Como pode um cantor tão jovem vir a falecer, pensava eu?

Até então eu me orgulhava de ter olhado o mapa de Paris, em 1969, partido do Arco do Triunfo e chegado ao aeroporto, sem erros.   Aquele era o Aeroporto de Orly que eu havia conhecido em 1969, três anos antes do acidente fatal de Agostinho dos Santos.

Eu guiava um fusca alemão, um carro de qualidade à época.   Eu contava vantagens aos meus familiares da minha façanha de ter acertado a ida ao aeroporto de Orly com rara precisão. 

Depois, quem diria, foi ali que Agostinho viria a falecer tragicamente.   Então o aeroporto da capital francesa deixou de ter a mesma importância na minha memória.

Três perdas de músicos me consternaram ao longo da vida.  Chico Alves, o rei da voz, em 1952, Agostinho, o inimitável, em 1973 e Elis, a pimentinha, em 1982. 

Cada um em uma década diferente.   Chico e Agostinho faleceram, carbonizados, em acidentes de carro e de avião, e Elis, foi uma perda de repente, sem que ninguém entendesse e foi enterrada no cemitério do Morumbi.  

Bem, eu passo ao post de hoje, de Doris Monteiro.  Eu assisti a entrevista de Dóris Monteiro, 85 anos, cantora e atriz,  no Canal Brasil em junho passado.    Ela participou do programa Disco de Vinil que é apresentado por Charles Gavin o ex-baterista do Titãs, no Canal Brasil, canal 113 da SKY.     

O programa vai ao ar às quintas-feiras.     O episódio 315 previsto para o dia seguinte que eu fiz a gravação, no caso, 11.06.2020, das 13h30 às 14h00, teria a presença de Joyce Moreno no programa Gafieira Moderna 2001.

O leitor do blog pode lembrar que eu contei em posts anteriores todo o meu envolvimento com música nos anos 50.    Eu comecei muito cedo no piano e nos programas de calouros de rádio.   Tudo por pressão dos pais.   

Eu lembro que nos anos 60, tão logo me formei em Economia, veio o convite para eu me tornar professor.  Eu lembro de ter respondido que eu não me sentia à vontade para falar em público.  Um tanto de inibição e outro tanto de vergonha.   Perdi tempo em meio aos meus argumentos.  Fui obrigado a aceitar sob forte pressão.

Interessante que eu não tinha a menor vergonha de me apresentar em audições de piano e em fazer a voz solo nas missas dominicais das dez da manhã, da Igreja Matriz, na minha cidade natal.   

Eu creio que nos programas de rádio a exigência era outra.   Tudo era uma festa.  Era preciso que todos calouros se apresentassem para os jurados escolherem os vencedores. 

Naquela época não havia roupa pronta.  Sempre que eu ganhava um brinde eu levava para casa um corte de camisa ou algo equivalente.  Eram os prêmios distribuídos na ocasião.   

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Bem, o rádio brasileiro é de 20 de abril de 1923.   A data está associada à criação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e à figura de Roquete Pinto.   A primeira transmissão aconteceu em 07 de setembro de 1923. 

Eu sou de agosto de 1944 e aos oito anos eu já estudava piano.   Dóris tinha dez anos quando eu nasci, pois ela é de outubro de 1934.    Eu lembro bem do ano de 1952, data da morte de Chico Viola, o cantor de maior sucesso quando eu era criança.    

Nesse mesmo ano Dóris Monteiro foi Rainha do Rádio pela primeira vez.   Eu lembro também do nome dela porque era uma cantora muito popular quando eu era totalmente voltado para à música.     

Eu assisti uma outra entrevista de Dóris Monteiro, em um programa de televisão denominado Trajetória em que ela contou que era de origem portuguesa, filha de um porteiro e de uma empregada doméstica. 

Ela despertou muito cedo para a música.    Em casa só se falava em fado e isso ela não desejava.  Ela desejava ser cantora, depois, influenciada por uma vizinha, desejava ser aeromoça e, mais tarde, cantora outra vez.     

De origem pobre, ela contou que tinha um apartamento onde o pai dela fazia faxina quando ela era pequena.   Ao contrário da minha casa onde os meus pais me obrigavam a cantar para as visitas, Dóris contou que na casa dela ninguém gostava de música.  

Aos 13 anos ela estava cantando a música Caminhemos, de Herivelto Martins, uma vizinha ouviu e falou para mãe de Dóris que ela devia ir no programa dominical de calouros, Papel Carbono, apresentado por Renato Murce na Rádio Nacional do RJ, a PRE-8.  Ela foi, cantou e venceu

Na entrevista, Doris disse que foi cantando durante algum tempo nos programas de calouros até que conheceu o cantor Alcides Gerardi (1918-78), um gaúcho de Rio Grande, cantor de Cabecinha no ombro, uma música que eu conheci bem porque ela era uma melodia famosa quando eu era adolescente. 

Eu fui buscar mais informações na revista O Cruzeiro que eu comprava para a minha mãe todas as semanas.   A primeira edição que eu acessei era de 15 de dezembro de 1928.  Nem a Dóris Monteiro e, muito menos eu, havíamos nascido,

Tudo foi curiosidade.  Na edição da revista de 1928 eu vi muitas matérias sobre as praias do Rio, e, em particular, sobre o Posto 4.  Havia propagandas, muitas propagandas.  Do sabonete 33,  que era perfumado até o fim até a Casa Eritis, um estabelecimento de cabelereiros para senhoras que oferecia serviços de ondulação permanente com garantia de até oito meses.

Puxa, que Brasil era esse, o de 1028?  Antes da grande crise mundial da Bolsa de Nova York de 24 de outubro de 1929?   Havia propaganda dos saltos de sapatos Good Year que amortizavam as pancadas nos pés.

Na página 14 aparece um Chrysler em Copacabana.  Há uma moça de maiô a caráter da época, de pé no banco do carro conversível.  Na imagem, o automóvel mais parece um Ford de bigode, como se chamava na minha época de criança.   Mas está ali, em destaque, certamente porque era um fato importante.

Eu continuei folhando a revista, mas tudo versava sobre a vida nas praias.   Na página 19 há uma matéria sobre a antiga praia do Flamengo.  Lotada.  Um fiozinho de terra, mas gente aos borbotões. Na 24 era a vez da praia da Urca.  Senhoras sentadas, tomando chá e comendo bolos, em plena areia.   

Fiquei curioso e continuei buscando alguma matéria sobre economia ou política, mas que nada.  Na página 27 mais praias, dessa vez nos Estados Unidos.  Na foto aparecem as atrizes Louise Brooks, Sally Blane e Nancy Philips, da Paramount tomando o chá das 5, em bandejas, em plena areia da praia.

Mais adiante surge uma matéria com Márcia Moreno, uma atriz do cinema brasileiro.  Tudo na praia.   A revista chega ao fim com muitos conteúdos de origem norte-americano com a presença de muitas atrizes do cinema. 

Um destaque especial para uma artista de nome Eve Southern,, que deveria ser celebridade em 1928.  A revista chega ao fim, uma edição de 57 páginas, com propaganda de Odol, sabonete e dentifrício, e encerra com uma página com a imagem de Nossa Senhora. 

A seguir eu fui à busca de novas informações sobre Doris Monteiro.  Eu abri na Internet a revista O Cruzeiro de 1952 e vi a descrição em torno da seleção da rainha do rádio daquela época.  Era um ambiente tenso.   

Eu acessei a matéria no endereço eletrônico

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=003581&PagFis=332

A escolha começou às 16:15 de um sábado e encerrou às 04:45 da madrugada do domingo com a escolha de Mary Gonçalves.  Eram 13 candidatas ao título.  O Rio Grande do Sul tinha uma representante.   Ilze Silveira estava no concurso representando a Rádio Farroupilha.  Muito conteúdo, mas nenhuma referência à cantora Dóris.

Então, segui adiante.  Novo acesso à Internet e em nova página.  Dessa vez em  https://www.flashlyrics.com/lyrics/real-combo-lisbonense/oh-32

Qual a minha surpresa porque nesse último endereço estava a letra da música Oh! Lirics.  A surpresa decorreu do fato que eu cantei e dancei essa música em companhia de uma colega de adolescência, Lori Farias, já falecida, no Cine Teatro Colombo de Sant’Ana do Livramento, minha terra natal.

Ambos entrávamos em cena vestidos de gala.  Eu utilizava cartola e smoking.   Eu cantava a música e ela dançava comigo ao estilo dos filmes de Fred Astaire.  Até hoje eu levo na memória, o olhar das pessoas nos camarotes atento aos nossos movimentos em cena. 

Novo endereço eletrônico e dessa vez fui a Wikipedia.  Havia tudo sobre a cantora em 

https://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%B3ris_Monteiro

Eu leio no texto que ela gravou 50 discos e participou de onze filmes.  Alguns dos filmes eu assisti no cinema porque ela se apresentava como cantora.   A Carroçinha, um filme de 1955 foi estrelado por Mazzaropi.  Sol sobre a lama é um filme dramático de 1963 com Glauce Rocha. 

Nesses 50 anos dedicados também à musica, uma ferramenta que eu aprecio demais é a plataforma do YouTube.  Ele cria um ambiente extraordinário para a minha produção de textos.

O mocinho bonito, uma música de 1957, Dóris Monteiro parece antecipar o que seria a Bossa Nova do fim da década dos anos 50.   Veja a melodia no endereço  

ahttps://www.youtube.com/watch?v=-QHQNDpZ0rk

Ou ainda a música Mudando de conversa, apresentada em conjunto com Miltinho, no endereço 

https://www.youtube.com/watch?v=m25qkahH34I

Também no YouTube, o leitor pode apreciar Dóris Monteiro cantando a melodia O que eu gosto de você, de autoria de Sílvio Cesar.    Ela está no endereço eletrônico

https://www.google.com/search?q=O+que+eu+gosto+de+voc%C3%AA+Doris+Monteiro&oq=O+que+eu+gosto+de+voc%C3%AA+Doris+Monteiro&aqs=chrome..69i57j69i64.5680j0j4&sourceid=chrome&ie=UTF-8

É isso aí.  Paro por aqui. Eu precisava recuperar um pouco da importância que Dóris Monteiro no meu interesse pela música.   Fiz um ziguezague nada no meu post.   De qualquer forma a catarse foi concluída. 

Boa tarde, leitor do blog!

FOTO ABAIXO: Um beco muito importante 

Pois é, amigo leitor, esse é o beco que eu moro há muitos anos.   Nele residiu o secretário de Educação Liberato Salzano Vieira da Cunha, falecido em 05 de abril de 1957, em acidente de um avião Curtiss Commando, prefixo PP-VCF, da Varig, no aeroporto de Bagé.

Eu lembro muito bem desse dia porque eu tinha 13 anos.   Era um domingo e eu jogava futebol no Colégio dos Irmãos Maristas na minha cidade natal, Sant’Ana do Livramento, aqui no RS.   

Eram 10:00 ou 11:00 e alguém gritou que tinha havido um acidente aéreo e todos os 35 passageiros e os 5 tripulantes, tinham morrido em Bagé.  Naquela época o meu pai viajava todas as semanas naquele voo. 

Na hora eu lembrei que o meu pai havia dito em casa que nessa semana não iria a Porto Alegre.  Ufa, eu pensei, dessa o meu pai escapou.  Paramos o jogo de futebol e a tristeza se abateu sobre todos.  Eu lembro, em particular, que o dia de sol se transformou num domingo cinzento.

Anos mais tarde, 1962, eu fazia o meu brevê, e aprendi em sala de aula o que era uma pane na decolagem.  Eu creio que é a pior das panes.  Ou pousa à frente, ou volta para a pista de onde decolou.  Eu creio que isso foi o que o piloto do PP-VCF tentou fazer naquele domingo. 

Ele decolou e retornou em cinco minutos.  Entrou no tráfego para pouso, por alguma razão ele arremeteu o avião – a pista estava curta para o pouso ou algum problema no comando da aeronave – e quando procedeu dessa forma, a asa do avião quebrou e o desastre se concretizou.

Pois o professor Liberato morava no edifício que aparece na foto.  Quando eu vim morar aqui nos anos 70 se falava demais no acidente de 1957.   

À noite, antes da pandemia, o beco estava lotado de gente.

MELODIAS de um professor de solfejo, post 04, 26.11.2020, Dóris Monteiro

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