Porto Alegre, 08 de dezembro de 2020

Horário oficial do beco da Rua Gen João Manoel, 12h10, 30 graus C, 24 % de umidade, nada de chuva

À guisa de informação eu estudei piano até o sexto ano.  Quando eu conclui o quarto ano eu me tornei professor de solfejo.  A minha vida mudou a partir daí.   Foi uma experiência inesquecível.  Sempre que eu escrevo sobre algo que tem a ver com a música, eu coloco o texto na classificação acima.

Olhando o meu passado de aluno, eu recordo o biênio 1949-50, e as minhas aulas do jardim de infância no Grupo Escolar Professor Chaves.  A escola ficava localizada bem na linha divisória com Rivera.  A gente utilizava o tapa-pó e uma gravata borboleta grande, de cor azul marinha, como parte do uniforme.

De repente, na minha percepção eu fui transferido para o Colégio das Madres Teresianas.  Era aula na turma do primeiro ano primário e havia o curso de piano que eu estava começando.  Então, eu ficava numa salinha muito pequena, como tantos outros alunos, e tinha que ficar tocando ininterruptamente.

Eu lembro que eu dava uma pequena parada e eu ouvia um ruído nos vidros do brete que eu me encontrava.   Era a Madre Aliende que utilizava uma vara de um metro e quando ela via que eu parava de tocar ela batia forte na porta para eu perceber que ela estava me controlando.

Assim eu comecei a minha vida na arte do piano.  Os meus amigos brincavam e eu tinha que estudar música.  Fazer o quê?  Os autores dos livros de piano se repetiam ao longo do curso.  Sempre havia um livro de Hanon que era utilizado para o estudo de escalas musicais.  Havia, dentre outros, os livros de Bach, Chopin, Czerni e Clementi,  

No começo do curso eu considerava uma “dose” ficar fechado na salinha, durante 50 minutos, tocando as escalas do Hanon.  Os meus pais queriam que eu estudasse piano, mas eu não tinha as menores condições em conversar com eles sobre o conteúdo do que eu estudava. 

Eram aulas e mais aulas, e em prazo determinado eu tinha que dar conta da lição à professora de piano.   Eu pensei comigo que se era para ser, que fosse.  seja.  Eu não tinha um amigo que estudasse piano. 

Eu simplesmente tinha um estudo de natureza secreta.   Bem, mas essa era, apenas, uma via do carma.  A outra tinha a ver com música popular porque eu tinha que cantar para as visitas que chegassem na minha casa. 

Daí, para participar dos programas de calouros dos finais de semana no auditório da Rádio Cultura de Sant’Ana, a minha cidade natal, foi um passe mágico.  Logo, piano no colégio das freiras e musica popular na Rádio AM que ficava localizada na Rua dos Andradas, a rua principal da cidade.

Eu levei muitos anos nesse caminho. Anos depois migrei para o Conservatório Kolisher da professora Elenita Bartolomé, onde prossegui os estudos de piano e conclui o curso de Solfejo.  Com direito a diploma e audições em piano de cauda, no salão nobre da Prefeitura Municipal.

Na sequência, eu me tornei professor de solfejo e eu dava aula para alguns alunos.  Uma experiência maravilhosa para alguém muito jovem.   Daí eu tive algumas experiências cantando e dançando no palco em companhia de uma colega, em um ambiente de inspiração do tipo Fred Astaire. 

Eu ainda lembro de eu, solo, cantando uma música do gênero fox, ou seria um rock balada dos anos cinquenta, em que a letra dizia “Eu digo oh,     que coisa louca quando eu vejo meu bem,    seguro da mão zinha Oh … ”  e a música prosseguia…  

Eu dançava, ou sapateava, com fraque, cartola e bengala e eu lembro do público acompanhando o meu desempenho com muita atenção.    Era um evento promovido pela União Santanense de Estudantes (USES) e o cineteatro Colombo estava lotado. 

De repente, chegou a hora de frequentar o Curso Científico e pensar numa profissão.   Não havia curso Científico no Colégio Marista local.  Então, a opção que se criou aconteceu no Colégio Estadual Professor Liberato Viera da Cunha, que iniciou os cursos de segundo grau na cidade, no ano de 1960.   

Transferi-me de escola.   Ao invés de turmas exclusivamente masculinas, como havia no Colégio Marista, na minha nova escola as turmas eram mistas.   Era um mundo novo que se abria à minha frente.  Às aulas tradicionais, ao estilo militar, ficaram para trás.  A partir daí havia meninas, jovens, em sala de aula.  

Entre 1960-62, a música ficou em segundo plano na obrigação de frequentar e avançar nos estudos.  Contudo, ela ficou assimilada em minha forma de conviver com a realidade.   E, assim foi, até 1963, quando eu deixei Sant’Ana e fui morar em Bagé na casa dos meus tios, primos e da minha madrinha. 

Eu ainda tive uma nova aproximação com a música anos mais tarde.  Depois do período 1968-74 em que eu, praticamente, estudei e residi no Exterior, eu voltei a lecionar na Universidade e fui, por minha conta, estudar piano com a professora Ana Maria Porto Alegre, aqui, na capital gaúcha.

Fiquei uns dois anos e meio nessa nova experiência com a música, mas tive que interrompê-la em função de ter quatro filhos para criar e uma, simplesmente, não dormia.  E, eu, também não.   E isso durou três anos e eu interrompi, de vez, os estudos sistemáticos de piano.

Paralelamente ao piano iniciei o estudo de violão.  Foi outra experiência muito rica para mim.   Eu comecei a compor e a ver a música de uma forma totalmente nova.  Interessei-me em saber quem foram Hanon, Czerni, Bach e todos aqueles músicos que eu conhecia desde menino.

Eu fiz todas essas considerações preliminares para chegar ao ponto central desse post, qual seja, a música sertaneja.  Eu li que se trata de um gênero musical iniciado em 1910.   Nos meus tempos de convergência para a música, eu sabia da musica caipira e da música gaúcha.    

Essa música sertaneja tem quatro fases, a caipira, a transição, a romântica e a universitária.   Eu voltei para o Brasil em meados dos anos 70 quando a música sertaneja romântica surgia com muita força.  Eu lembro de ouvi-la como se fosse algo totalmente novo.  Eu não conhecia todo o histórico do processo em curso.  Não era algo que me chamasse a atenção, sob o ponto de vista artístico.

Quando surgiu a música sertaneja universitária ela atropelou tudo e todos.  Essa foi a minha percepção à época do início dos anos 2000.   Eu continuava gostando do samba e das músicas castelhanas, por questão de berço.  Mas aquele novo gênero me chamava a atenção porque era totalmente diferente de tudo o que eu gostava.

Os anos foram passando, a música sertaneja tomou conta da juventude brasileira, a televisão abriu um espaço tremendo para megashows e a situação, o novo perfil musical se consolidou como top no país.

Eu achava que muitos artistas abusavam de tons devidamente altos e o conteúdo das letras não tinham uma representatividade com a configuração que a música popular seguiu na vertente iniciada com  Noel, Cartola e sucessores até à chegada da bossa nova. 

Em suma, eu via a televisão brasileira investindo totalmente no sertanejo e todos aqueles que vinham de outra ramificação – Jobim, Chico, Vinicius, Caetano, Gil, Menescal – simplesmente apareciam pouco na mídia. 

Eu imaginava escrever um livro sobre a música brasileira começando pelo samba do telefone.  Quando eu me dei conta de tudo o que a música sertaneja ocupou na cultura brasileira eu pensei que para mim tinha sobrado, apenas, o pagode. 

Eu imaginei que esse meu diagnóstico se explicava porque eu estava idoso e à essa altura seria difícil eu mudar a minha percepção da música popular.  Como o livro que eu pensei ficou apenas na promessa eu pensei em escrever alguns posts sobre músicos brasileiros.

… 

Na época em que eu me considerava alinhado aos músicos, os meus cantores preferidos eram Maysa e Agostinho dos Santos.  Eu acompanhei a atuação de músicos importantes, como Noel, Cartola, Pixinguinha,  Beth Carvalho, Elis, Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e vários grupos de pagode.  

Mas e a música sertaneja?   Porque eu não consigo apreciá-la se ela representa 80% da preferência dos jovens brasileiros?  Porque cheguei a terceira e às vésperas da quarta idade?  Essa dúvida me acompanhou durante muito tempo.

Ontem eu li um artigo na Zero Hora, assinado por Daniel Feix e intitulado Questão de gosto?   Eu li o artigo com calma, procurando assimilar parágrafo a parágrafo, sem qualquer espírito de polarização e, ao final, eu acredito que consegui captar uma informação expressa pelo autor.

Entre tanta e tantas ideias que ele desenvolve no texto ele disse que rejeita o sertanejo atual por que ela é uma música acrítica.  É isso?   Bem é hora do ponto final.   O post está demasiadamente extenso e está a exigir um ponto final.  Volto ao assunto em breve.

Boa tarde, leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  ESCADARIA DA RUA FERNANDO MACHADO

A escadaria abaixo está localizada na rua em que eu resido em Porto Alegre.   Era um antigo mirante.  Quando eu vim morar nesse endereço em 1973, dali se enxergava o Guaíba e todas as redondezas.  

A rua General João Manoel começa junto ao Guaíba, sobe em direção à Rua Duque de Caxias, atravessa-a e termina em um beco onde eu moro.  Descendo a escadaria o transeunte consegue acessar à rua Fernando Machado.  Tudo dentro do Centro Histórico da capital gaúcha. 

O belvedere passou a ser construído em 1928.  O projeto é de autoria do arquiteto Cristiano de La Paix Gilbert.  Muitos conhecem o local como a Escadaria do Amor.

Nessas cinco décadas que eu resido no local eu acompanhei fases distintas em termos de segurança do local.  Atualmente com a pandemia o beco e a escadaria se mantém a maior parte do tempo com movimentação inexpressiva. 

A foto acima mostra que além da beleza da obra, o colorido da mesma era destaque na época em que eu utilizei a câmera para fotografá-la.

 

MELODIAS de um professor de solfejo, post 05, 08.12.2020, a música sertaneja

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