Porto Alegre, 09 de janeiro de 2019

Horário oficial do beco da Rua General João Manoel, 18h10, 28 graus, 40% de umidade

Estou há dois dias em Gramado.  Vim com a minha família passar um fim de semana na serra.  Saímos de um confinamento em Porto Alegre e prosseguimos com o mesmo no natal luz de Gramado.  As festas de fim de ano já passaram, mas a cidade continua maravilhosamente decorada.

Eu sinto uma alegria imensa sempre que eu volto à serra.  Eu fui coordenador técnico dos dois primeiros festivais de turismo de Gramado, um evento promovido pelas minhas amigas Marta Rossi e Sílvia Zorzanelo, essa última já falecida.  Desde então apeguei-me, de vez, a tudo que diga respeito à essa bela e incrível cidade 

… 

Eu criei essa seção em 2019.  Eu gostaria de escrever mais sobre o assunto, mas eu reconheço a complexidade da história.  Eu deveria ter iniciado essa experiência quando mais jovem, mas eu estava tão voltado para matemática, estatística e econometria que não me sobrava tempo. 

Desde então eu dei prioridade às minhas leituras sobre os gaúchos, mas optei por selecionar um ponto e descrevê-lo como um momento da história do Rio Grande.   Eu achei que ficou bom.  Não dou voos às alturas pela fragilidade das asas, mas não fico ansioso por deixar o conteúdo à margem.

Para escrever o post 01 eu comecei a ler a bibliografia do meu conterrâneo Ivo Caggiani, jornalista gaúcho, filho de pais uruguaios, nascido em Livramento, RS, em 27 de maio de 1932 e falecido em 19 de abril de 2000.  Proprietário do jornal Folha Popular da minha cidade natal, Caggiani foi vereador, historiador, professor e autor de muitos livros.

No post 01 dessa série, eu escrevi o seguinte texto sobre Caggiani

“Eu lembro de te-lo visto duas vezes quando eu era menino.  Li algumas notas sobre a sua vida e percebi que no ano em que eu nasci (1944) ele entregava jornais e quando eu estava com 10 anos (1954) ele já estava lançando uma nova fase do seu jornal Folha Popular.

Na época o grande jornal da cidade já era o matutino A Platéia, e a Folha Popular era um segundo jornal de Livramento.  Um dia, por alguma razão, o meu pai Aleixo Fraquelli me mandou ir até o prédio da Folha e foi a primeira vez que vi o jornalista.

Ele sentava numa mesa atrás de uma máquina de datilografia e utilizava os óculos, aros pretos, na ponta do nariz.  Eu fiquei atrás do balcão que havia na entrada do jornal e ele falou comigo de onde estava sentado.

Eu não recordo o que conversamos, mas eu jamais esqueci a sua imagem.  Eu voltei para casa pensando que aquele era o jornalista da Folha Popular, a concorrente de A Platéia. “

A obra de Ivo Caggiani serviu de ponte para eu chegar em outro autor, Rafael Cabeda, também santanense.  E foi aí que eu escolhi o assunto do primeiro post, a República do Quebracho.

Hoje, eu quero tentar escrever um segundo post sobre a História do Rio Grande do Sul.   Escolhi, como assunto, uma reunião realizada pelos maragatos na cidade de Melo, no Uruguai.

Se lembro bem, a distância de Melo a Bagé é de 120 quilômetros.    Equidistante das duas cidades encontra-se Aceguá, bem na fronteira entre Brasil e Uruguai.   Terra de índios charruas, guenoas e minuanos, na origem, as informações sobre a localidade começam em 1660 quando o espanhóis vindos do Uruguai chegaram ao local.

Um século depois, em 1753, os espanhóis da Colônia do Sacramento e os portugueses da cidade do Rio Grande se deslocaram rumo a Santa Tecla.  O exercito português chegou ao local onde já estava o exército espanhol.

Aí houve uma cerimônia militar em Aceguá.  E, fogo!  Eu vejo na wikipédia que Aceguá. em tupi, é yace-guab, e que entre outras traduções significa, lugar de descanso eterno, um lugar alto, perto do céu, para os indígenas viverem os seus últimos dias.   

Na região havia comerciantes levando mercadorias em lombo de cavalos, daí a origem do comércio entre os dois países em uma região que abrigava índios, negros, portugueses e espanhóis e, mais tarde, alemães e árabes.  Você, leitor, não imagina como eu fico impressionado sobre tudo o que aconteceu nessa região.   E eu, sabia e, confesso, sei tão pouco. 

Fazer o quê?  O carma de um professor passa por lecionar, também, sobre algo que ele sabe pouco.  Com o tempo ele vai aprendendo e à medida que ele sente que vai assimilando o conteúdo, há uma sensação de aprendizagem consolidada.

Pois eu fui morar em Bagé em 1963, às vésperas do movimento de 1964.  Eu era jovem, apaixonado por futebol e por música.  Deixei meus pais e irmão para trás.  Fui estudar Economia e morar na casa dos meus tios, primos e da minha madrinha Leonor Rich Dias.   Quando solteira, ela era Leonor Coitinho Rich, daí o parentesco comigo.  Éramos primos, também.

Pois, em Bagé eu estudava à noite e durante o dia eu fui trabalhar no Serviço de Repreensão ao Contrabando.  Havia um posto fiscal na cidade que cobria a fronteira até Aceguá.  Eu era uma espécie de despachante aduaneiro.  Eu passava o dia todo datilografando guias, instrumento obrigatório para quem trafegava com mercadorias na região.

Sempre que havia um arremate de gado ou uma exposição rural, lá ia eu para preparar as guias para que o gado pudesse ser transportado no território local.   De noite, como eu disse, eu era universitário.  Eu havia convivido com a Legalidade na condição de dirigente estudantil em Sant’Ana, então já percebia o Brasil que estava à minha volta.

Em Bagé, eu senti a força de Leonel Brisola.  Ou melhor, a importância dada à figura do governador gaúcho.  Ele tinha nascido em Carazinho, formado em Engenharia na UFRGS em 1949 e governado o Estado entre 1959-63.   Exatamente na época da Legalidade.  Brizola deixava o Piratini no ano que eu cheguei para morar em Bagé.

Eu trabalhava num Posto Fiscal Federal de Repreensão ao Contrabando que ficava situado na Avenida Ismael Soares, em Bagé.   Eu morava há seis ou sete quadras da mesma rua, mas ela mudava de nome na metade do caminho e passava a se chamar Rua Melanie Granier, local da residência da minha madrinha. 

Eu lembro que todas as tardes quando eu trabalhava no Posto Fiscal eu notava a passagem de um senhor alto,  idade tendendo para idoso, cabelos brancos, sempre com ar de muito pensativo.  Um dia eu perguntei para um colega de trabalho quem era aquele senhor. 

A resposta foi imediata. Ele é general.  Ele esteve com Getúlio nos anos 30, apoiou a posse de Jango no parlamentarismo e é general desde 1961.   Foi assim que conheci, a distância de três metros da porta do Posto Fiscal o então general Emílio Médici. 

Transcorria o ano de 1963, Médici iria comandar a Academia das Agulhas Negras quando eclodiu o golpe de abril de 1964.  Eu passava todo o dia datilografando guias e assistindo um momento tumultuado da história nacional, com o nome de Brizola na boca dos meus colegas e a imagem de Médici passando à frente do meu local de trabalho.

Termino a catarse e passo ao ponto da História do Rio Grande do Sul que eu selecionei para esse post.   Lembrando que eu trabalhava em Bagé, a 60 quilômetros de Aceguá que fica  outros 60 quilômetros de Melo, no Uruguai.

Pois foi nessa cidade de Melo, em fevereiro de 1893, que os maragatos se reuniram em um casarão, para o planejamento da invasão da província, um fato que seria da maior importância na Revolução Federalista que duraria de fevereiro de 1893 a agosto de 1895

Estavam presentes diversas personagens ao evento, sob a direção do senador do império Gaspar Silveira Martins, líder da oposição no Rio Grande do Sul, que pretendia derrubar o governo do Partido Republicano de Júlio de Castilhos.  

Castilhos estava no poder em acordo com Floriano Peixoto.   Eu estou me baseando para descrever o encontro dos federalistas no casarão, em Melo, em uma história em quadrinhos de autoria de Álvaro Barreto e Elbio Porcellis, denominada REVOLUÇÃO DE 93, Legenda dos desgarrados, editada em 1993, pela Martins Livreiro de Porto Alegre. 

O leitor pode verificar que a publicação tem quase trinta anos, mas, na minha memória o ano de 1993 é extremamente recente.  O ex senador Gaspar Silveira Martins condenava Júlio de Castilhos, o seu autoritarismo positivista e Floriano que o apoiava.

Como era o ambiente nessa reunião?  Na história em quadrinhos o senador Silveira Martins aparece acomodado numa poltrona e lembrando o que havia sido combinado na reunião anterior realizada na Estância Barão de São Luiz.  Os maragatos, ou federalistas, se propunham a libertar o Estado do Rio Grande do Sul do governo dos ximangos, ou pica-paus, de Júlio de Castilhos.

Então, no casarão em Melo, no Uruguai, Silveira Martins reafirmou que Gumercindo Saraiva atacaria Aceguá  e o General Joca Tavares invadiria por Sant’Ana, minha terra natal.   Reunidos em Sant’Ana, os maragatos receberiam os armamentos que ele tinha comprado na Argentina.  Os federalistas tomariam a cidade e a revolução se espalharia por toda a província.   

Puxa, que tempos aqueles!  Na ocasião, Bento Cunha, que viria a se tornar o traidor entre os maragatos, indagou a Silveira Martins o que aconteceria se as armas não chegassem? 

O ex-senador respondeu que as armas estavam chegando na balandra, na embarcação, Carmelita.    Ela estava aguardando ordens para entregar as armas em algum lugar da fronteira, no rio Uruguai.   Eu creio que à essa altura Silveira Martins não imaginava que Bento Cunha era um traidor e dificultaria a chegada das aramas.

Quem estava no casarão com Gaspar Silveira Martins?     A certa altura, Júlio Amaral informou a Martins que todos estavam presente.  Eram eles, Nico Ribas, Ramão Cabeda, Adão, Bento Cunha Arthur Amaral, Plínio Amaral e o próprio Júlio Amaral.

Qual o objetivo daquele encontro reservadíssimo no casarão?  No caso de Silveira Martins não conseguir liberar a embarcação, o plano consistia em dar cobertura a um enviado que iria tentar subornar o chefe da guarda castelhana ou trazer a embarcação à força.

Era o que eu tinha para o momento.  Uma reunião interessantíssima aquela programada para o casarão em Melo, no Uruguai.  Outro dia eu preparo um novo post sobre outro momento da história do Rio Grande do Sul.

Boa tarde, leitor do blog!

FOTO ABAIXO: CASA DE CULTURA MARIO QUINTANA

Eu conheci a Casa de Cultura quando ainda era Hotel Majestic, uma obra que vivenciou o seu apogeu no período 1930-50. oportunidade em que hospedou as maiores lideranças políticas e artistas nacionais. 

O empreendimento começou em 1916 e foi totalmente concluído em 1933.  A obra dispõe de sete pisos no lado leste e cinco,  no lado oeste.  Quintana viveu no Hotel Majestic no período 1968-80. 

Mario Quintana nasceu em Alegrete, cidade para onde eu viajava em caminhão tombeira da prefeitura de Sant’Ana com a turma do clube local para enfrentar o Sete de Setembro, em jogos de futebol de Salão.    

Todo gaúcho deveria conhecer a Casa de Cultura Mario Quintana em função dos diversos espaços culturais – bibliotecas, museus, acervos musicais, discoteca, galerias, teatros,  salas de cinema, cafés e livrarias – preservados no local. 

HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL, um momento, post 02, 09.01.2021, a reunião dos maragatos em Melo, no Uruguai

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