Docente aposentado, 76 anos, da UFRGS (1967-1997), disciplina Cenários Econômicos, e economista da FEE durante 40 anos (1973-2012)  

Porto Alegre, 12.01.2021, 12:10, 27 graus C, 58 % de umidade

Post 02.07.05

02 Brasil 07 Indústria 05 número de ordem do post.

Abro as cortinas dessa terça-feira.    Ela foi tumultuada para a indústria nacional.  A Ford, a pioneira das montadoras a chegar no país. isso no distante ano de 1919, despediu-se ontem do Brasil. 

Atualmente a empresa representa a quinta montadora do país e mantém 7,14% do mercado.  Haverá cinco mil trabalhadores que ficarão desempregados.   Após o encerramento dos estoques, eu imagino que se você é cliente do produto, em breve será preciso adquirir o carro, via importação, da Argentina.   Fazer o quê?

O Presidente disse que a indústria queria subsídios. O ministro da Fazenda disse que o fato aconteceu quando a indústria estava apresentado uma recuperação fortíssima.   A empresa argumentou que vem de perdas sucessivas compensadas por auxílios da matriz, mas a situação se tornou insustentável.   

O que está acontecendo na realidade?   Bem, em “termos sucintos”, a pandemia confinou o cliente e ele deixou de ir à concessionária e confinou o empregado e ele deixou de ir à fábrica.  Bolsonaro disse que a empresa não disse a verdade porque ela almeja subsídios.  Seria muito simples se assim fosse.   

A FORD tem uma engrenagem mundial e é preciso analisar o processo em curso, inclusive em seu componente tecnológico, de uma decisão em âmbito nacional, nessa dimensão global.

O Ministro disse que há uma forte recuperação da Indústria, mas o que há, na verdade, é um avanço da contratação na modalidade temporária – Lei 6019, de 03.01.1974 –  por parte do setor.

Segundo a referida legislação há um intermediário – agência liberada pelo Ministério do Trabalho que é a responsável total pelo vínculo – no processo de absorção da mão de obra.  A empresa honra o compromisso com o intermediário sem reflexo na sua despesa com pessoal, simplificando, em parte, o processo decisório em âmbito de gestão.

Bem, foi essa modalidade temporária que avançou de 1,485 milhão (2019) de empregos gerados para 2,0 milhões (2020) de empregos gerados.  Desse último, 65% se deu na Indústria.   É essa fatia do mercado de trabalho que Guedes considera a forte recuperação.

O Presidente e o seu ministro da Fazenda não devem se mostrar surpresos com o ocorrido.  No primeiro mês do governo Bolsonaro, o seu secretário de Produtividade alertou as montadoras que se elas precisassem fechar as fábricas que o fizessem.

 

Na indústria a geração, de emprego na modalidade temporária, em 2020,  ocorreu no agronegócio, nos alimentos, automóveis, embalagens, farmacêuticas, metalurgia, mineração, óleo e gás.

Eu creio que a principal justificativa da FORD passa pelos investimentos necessários à reestruturação das fábricas, da tecnologia analógica para a tecnologia digital.    É um problema de dimensão global.  É um quadro complexo, difícil, para todas as partes. 

A saída da FORD me parece sinalizar que é chegado o momento de uma grande reflexão por parte das autoridades brasileiras.

O país vivencia crises há seis anos consecutivos.  Não há um programa mínimo de retomada do crescimento.  A inflação está de volta.  O discurso das reformas ficou surrado. 

O agronegócio contribui para manter o país em pé.  A indústria. no fundo do poço, movimenta-se em cima de uma base de comparação extremamente frágil.  Qualquer variação no piso repercute com força na mídia.  O Setor de Serviços é a bola da vez da pandemia, ela sofreu de forma inédita em todas as partes do globo. Tudo servia de motivo para formalizar um novo confinamento.     

A educação e a saúde correm atrás de um diagnóstico inadiável, de preferência para ontem.   A infraestrutura tem um número imenso de obras no meio do caminho.  Eu penso que é preciso criar uma figura que coordene todos esses ministérios e transmita credibilidade à comunidade internacional.  

A Johns Hopkins University mostra que o Brasil tem 8,1 milhões de infectados e 204.690 óbitos nesse preciso momento em que consulto o site da Instituição.  O país ocupa a vice liderança mundial em óbitos, perdendo, apenas, para a terra de Donald Trump.   

Ontem, Angela Merkel disse que o pior da pandemia ainda está por vir.   Estou pensativo sobre as palavras da chanceler.   O que será que ela quis dizer?   Ela estaria pensando sobre a eficácia da vacina?  Vem mais do mesmo, ou vem algo ainda mais destruidor?  

Gastou-se recurso em demasia com o auxilio emergencial.  O déficit fiscal avançou o sinal e empurrou a dívida a níveis de participações crescentes do PIB.  As agências de análise de risco estão com os olhos voltados para o país.

A taxa de desocupação chegou a 14,6%  em outubro de 2020.   Há 14.1 milhões de desempregados no país.   Há, ainda, a necessidade de contabilizar os 5,9 milhões de desalentados, que são os que desistiram de procurar trabalho, e os 33 milhões de subutilizados, que são os que gostariam de trabalhar mais.   

Ora, nesse atual mercado de trabalho, o recorde do desemprego coloca o emprego temporário à conta de mero troco.   Além de tudo, o país apostou no parceiro internacional errado.   Como dizem na minha terra, o país deixou de “apostar no cavalo do comissário”.

Dia 20, mais tardar dia 21, será o dia do governo brasileiro se posicionar com relação à nova administração norte-americana.   O país não pode deixar passar a data sem um discurso convincente. 

Eu penso que virá um grande acordo internacional, liderado por Joe Biden, e que proporcionará uma saída financeira global da recessão da pandemia.  Eu creio que vai passar o último trem para o futuro.  O Brasil não pode perder essa oportunidade.  

Por tudo isso eu creio que está passando do tempo de uma grande reflexão do que há de vir por parte das autoridades brasileiras.   Fecho as cortinas dessa terça-feira. 

Boa tarde, leitor do blog!

FOTO ABAIXO:  A FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA – FEE (1974-2018)

A foto abaixo mostra técnicos da Fundação de Economia e Estatística (FEE), à época da sua fundação, no início de 1974.   A Instituição teve origem na antiga Superintendência de Planejamento Global (SUPLAG) da Secretaria de Coordenação e Planejamento e no Departamento Estadual de Estatística (DEE) que funcionava na rua Duque de Caxias, 1691.  

Eu vim para Porto Alegre em outubro de 1973 e fui trabalhar na SUPLAG.   O governador era Euclides Trichês e o secretário do Planejamento era o Professor Carlo Veríssimo do Amaral, que foi meu colega como professor da UFRGS.   Foi um trabalho complexo de gestão publica conceber a migração da SUPLAG e do DEE para a FEE.   

A equipe era liderada pelos professores Rudi Bratz, presidente, em pé e de gravata no centro da imagem, e Edi Fracasso, diretora técnica, de roupa azul marinha, ao seu lado, ambos docentes do Departamento de Administração da UFRGS.  

Eu estive na presidência da Instituição, interinamente, em três governos, Guazzelli 1, Collares e Yeda.  Quando eu não estava em atividade na FEE eu era deslocado para a Secretaria de Coordenação e Planejamento (SCP), onde exerci diversos cargos e funções. 

O titular da pasta era o Coronel Emílio Maurel Muller, que ficou à frente da SCP durante dois governos consecutivos, as gestões Sinval Guazzelli e Amaral de Souza. 

Durante esse período eu estive no Conselho de Administração da primeira gestão do antigo BADESUL, no Conselho de Administração do BANRISUL e na Secretaria Executiva do Sistema Estadual de Processamento Eletrônico de Dados (SEPED) que funcionava junto à PROCERGS.

O leitor não imagina o que havia de investimentos em recursos humanos na FEE.   Havia especialistas, mestres e doutores em Economia, Estatística e muitas outras áreas afins.   Os meus quarentas anos de Fundação foi o maior aprendizado que obtive em toda a minha vida.   

Eu sou muito grato por ter passado a vida toda convivendo com um ambiente de tamanha qualificação técnica e científica.   A instituição era uma estrutura de pensar, refletir, acompanhar, analisar, escrever e propor soluções para a população, a economia e a esfera pública do Estado do Rio Grande do Sul.

Participávamos da elaboração das mensagens do Orçamento Plurianual e das propostas orçamentárias anuais, dos planos de governo e das Mensagens do Governador à Assembleia Legislativa, quem quer que fosse o partido que estivesse representado no Palácio Piratini.

A Instituição tinha parcerias e acordos em níveis nacional e internacional.   Participamos do treinamos recursos humanos da esfera pública, por iniciativa do Ministério do Planejamento, em diversos estados brasileiros.   Realizamos estudos, pareceres, análises de todos os campos de atuação da Fundação. 

Mantínhamos publicações de interesse do Governo do Estado por décadas sucessivas e sem interrupções na produção e na divulgação das mesmas.  Uma verdadeira memória viva de tudo o que acontecia em território local.   

À medida que eu rumo para os meus 77 anos e desconheço o futuro da minha memória, eu penso onde está todo aquele estoque de conhecimento da FEE, acumulado em várias décadas?  Éramos um exemplo seguido por diversos estados brasileiros.   

Eu imagino como a tarefa do governador atual ficaria  mais leve se ele pudesse contar com uma instituição que lhe fornecesse diagnósticos, estratégias e elaboração de programas na gestão da economia e da esfera pública estaduais.

Até hoje eu prossigo sem entender as razões técnicas que levaram a FEE à extinção, entre outras fundações, pelo governo Sartori. 

DEPOIS DE UMA LONGA JORNADA, INICIADA EM 1919, A PIONEIRA DAS MONTADORAS COMUNICA O FECHAMENTO DE TRÊS FÁBRICAS

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