Docente aposentado, 76 anos, da UFRGS (1967-1997), disciplina Cenários Econômicos, e economista da FEE durante 40 anos (1973-2012)  

Porto Alegre, 24.01.2021, 12:10, 31 graus C, 55 % de umidade

Post 01.01.28

01 Internacional, 01 Economia Global 28 número de ordem do post.

A vida de quem acompanha diariamente um grande volume de informações está associada a muitos dilemas, muitas dúvidas, em suma, uma incerteza profusa.  No fundo, eu penso que a minha atividade, desde o início, sempre esteve associada a um processo de escolhas.  

Vou recolocar as minhas ideias e simplificar o meu post.  Sobre o quê eu devo escrever?   Qual é o assunto mais importante?  Vale a pena redigir sobre a pandemia ou a recessão?  Depois que eu identifico um norte tudo fica mais fácil.  É isso aí.

Eu lembro que nesses 50 anos de embates diários, como eu fiquei sensibilizado quando eu li, em algum lugar, uma frase que dizia que “à tarde o barco estava no meio do mar”.   Sim, à medida que eu apanhei a ideia, na sequência eu andei de letras de músicas às páginas do Evangelho.     

No fundo é como se um velho navegador andasse em tempos pretéritos em mar bravio, um tanto desorientado, à espera de localizar a estrela polar.  Atingido esse objetivo tudo ficava facilitado no seu processo de escolher a direção a seguir.

Eu lembro da oportunidade em que eu viajei de Calais a Dover, uma distancia de 82 quilômetros, na travessia do Canal da Mancha.  Eu estava em um navio cruzando aquele braço que une o Atlântico ao Mar do Norte.  Eu embarquei no lado francês em um dia em que havia condições de boa visibilidade.   

Eu tinha consciência que eu estava seguindo o caminho inverso àquele percurso que as forças aliadas realizaram no dia D e que ficava a 320 quilômetros de distância do local onde eu me encontrava naquela tarde. Efetivamente, no dia 06 de junho de 1944, precisamente 83 dias antes do meu nascimento, houve a Batalha da Normandia. 

Foi, também, uma decisão em cima de um processo de escolhas.   A operação Overlord implicou reunião de três milhões de soldados aliados para fazer frente ao alemães.  Quantos filmes em que havia cenas da guerra real eu já havia assistido no cinema?

E, de repente, lá estava eu a bordo de um navio fazendo o caminho em sentido contrário.  Poucos minutos após o embarque o tempo fechou.  Íamos, todos os passageiros, em deslocamentos bruscos, subindo em direção ao céu e imergindo, inesperadamente, rumo ao desconhecido.

Dentro do barco a sensação de insegurança era total.  Eu olhava pela janela e já não via mais as falésias, as escarpas que estavam à vista quando eu havia embarcado em Pas-de-Calais.  O barco oscilava em meio às ondas crescentes e eu lembrei Juan Manoel Fangio.

Na biografia de Fangio, o grande campeão argentino de Fórmula 1, ele contou certa vez que havia passado toda a vida correndo em disputas que exigiam decisões rápidas.   Ele venceu cinco vezes o campeonato mundial de F1 e estava sempre convivendo com o perigo. 

Um dia ele estava em um restaurante em Paris.   Um osso de galinha trancou na sua garganta durante a refeição.  Então, ele pensou que seria desmoralizante ter vencido tantas adversidades nas pistas de corridas e vir a morrer sem poder respirar por causa de um osso de galinha.

E assim, lá estava eu naquele barco, no meio do mar, em dúvida se eu chegaria ao outro lado do Canal Mancha.  Foram minutos incontáveis de desespero generalizado à bordo.   Em dado momento, em meio ao inesperado eis que surgiu a primeira visão das paredes rochosas da Inglaterra, a minha estrela polar, que sinalizava o meu ponto de destino. 

Nessa catarse que estou realizando eu lembro de uma experiência semelhante que me aconteceu no ar, não mais no mar.   Durante o meu brevê, eu tinha aulas práticas durante o dia e teóricas à noite.  Havia muitas disciplinas que os alunos deviam prestar prova, junto ao Ministério da Aeronáutica, ao final do curso. 

Havia conteúdos que exigiam muito estudo e muito esforço pessoal.    Dentre eles eu lembro que as dificuldades que eu encontrei em Aerodinâmica, uma disciplina do brevê, eram as mesmas que eu tinha enfrentado nas aulas de Física no Curso Científico. Na verdade, os dois conteúdos eram da mesma natureza, tinham a mesma origem. 

O que era preciso estudar de Meteorologia, de Navegação, e porque não dizer de Motores, me fizeram levar os anos de 1961 e 1962 na base de estudos ininterruptos.   O meu exame final aconteceu em 1963 e a minha licença de piloto foi emitida pelo Ministério da Aeronáutica em 02 de setembro de 1964.

Na linguagem dos anos 60, ou, quem sabe, na linguagem da aviação, os alunos do brevê eram considerados manicacas até realizarem o primeiro voo solo.  A fase de manicaca, pilotus novatus, era a fase da inexperiência.  Depois que se realizava o primeiro voo solo a situação mudava abruptamente. 

A vida era relativamente tranquila enquanto o aluno estava acompanhado no voo por um piloto que fazia às vezes de um professor.  Depois do voo solo tudo passava a ser da alçada, exclusiva, do aluno.  Qualquer problema exigia pensamento focado e solução rápida.

Então, de volta ao leito do post, as aulas do brevê mudaram em termos de decisões, de riscos, de responsabilidades, após o primeiro voo solo.  As nossas aulas teóricas eram realizadas, à noite, na Biblioteca Pública de Sant’Ana. 

À medida que as noites do curso foram passando, os temas ficaram cada vez mais importantes e interessantes.  Eu lembro de muitas e muitas aulas sobre pane, um conjunto de circunstâncias que brecam a normalidade de voar.  Por exemplo, aquelas decorrentes de uma falha no funcionamento do motor do avião.  O que fazer frente a uma pane? 

Em sala de aula eu lembro da recomendação de jamais descer na pista do Jockey Clube.  Quando você estiver lá em cima e sofrer uma pane, rapidamente você vai enxergar, em destaque, a pista de corrida de cavalos, repetia o professor. 

Jamais tome a decisão de pousar ali porque você vai quebrar as asas do avião e se acidentar.  Durante os anos de brevê eu vi, mundo afora, pousos forçados de todo o tipo. 

Então é isso.  Está aí o meu curso de brevê, pensei comigo, em certa noite de aula na Biblioteca Pública.  O pior, todavia, estava por vir.  Pior que pane era a palavra bruma.  Bruma, o que é isso?   

É um nevoeiro, é uma névoa seca.  Em princípio algo semelhante àquela experiência que eu tive no navio atravessando o Canal da Mancha.  De repente, eu não via nada a não ser os movimentos bruscos do navio.  De repente, eu não via nada, eu via apenas o avião em pleno voo.  

No caso do avião, me pareceu algo pior.   Eu decolo, tomo altura, entro em velocidade de cruzeiro e de repente, em plena luz do dia, eu deixo de ver o que eu vinha enxergando abaixo do avião,  em terra.  Então, de um momento para outro há solução de continuidade, há interrupção, há uma quebra de continuidade.  O que eu via abaixo, normalmente, eu já não consigo mais visualizar. 

Na época que eu vivenciei essas experiências os aviões eram simples, com poucos instrumentos de bordo.  Ao entrar numa bruma, era preciso tomar uma decisão para reverter a situação rapidamente.  Onde está a minha estrela polar? Como proceder nessa situação?  Não há tempo a perder.   

Cinquenta anos depois eu continuo acompanhando, sempre que possível, o que acontece no âmbito da aviação.  Eu não esqueço as panes e as brumas.  Eu lembro, em especial, de ter lido relatos sobre acidentes aéreos em jornais de grande circulação.

Eu recordo de descrições que diziam que o piloto havia perdido a noção de localização.  Ele estava subindo?  Ele estava descendo?  O que podia ter acontecido para levá-lo a bater, inesperadamente, contra o solo?

Então eu retorno ao anos noventa.  Eu vivia com muitas atividades para realizar. Eu acordova às 05:00 e tinha um artigo de quatro mil toques para escrever em sessenta minutos.  Às 06:00 eu tinha toda uma série de atividades a desenvolver para ministrar aulas às 07:30. 

Sobre o que eu vou escrever?  Dos 60 minutos para concluir a tarefa eu não podia perder mais do que 5 minutos escolhendo o assunto, identificando o tema da minha coluna para o jornal.  

Gente, e isso acontecia todos os dias úteis da semana.  Eu lembro que a pressão era enorme.   É verdade que havia uma compensação sempre que algum leitor me desse um retorno.  E isso acontecia de forma recorrente.   Era no meio desse burburinho que acontecia a escolha do assunto.

Dessa experiência eu absorvi resultados para os meus dia a dias posteriores.   Eu comecei a localizar a estrela polar de forma objetiva, mais burocrática, sem maiores entraves. 

É bem verdade que eu tinha uma meta acadêmica, profissional, docente que era chegar à modelagem matemática.   E foi isso que eu procurei obter nos Estados Unidos, em cursos nos Departamentos de Economia e de Engenharia.   Foi um período de dúvidas atrozes e de descobertas magníficas.

De volta ao Brasil eu precisei dar continuidade a outro campo da academia, à História da Filosofia.  Foram quatro anos em que eu me dediquei integralmente aos períodos dessa história, antiga, medieval, moderna e contemporânea.  Buscar a compreensão das divisões e das subdivisões.  Eu fazia fichas para resumir e destacar o que eu julgava mais importantes

A partir daí eu procurei combinar, reunir modelagens matemáticas de um lado e correntes da filosofia, de outro.  E assim, nesses 50 anos de magistério eu procurei formar um pano de fundo, onde os assuntos da economia fossem tratados.  No teto, os conflitos metodológicos em economia; no piso, a inserção da econometria nesse contexto.

Durante muito tempo eu foquei nas séries temporais.  Dediquei um tanto ao estudo dos ciclos.  Segui rumo às análises de conjuntura econômica.  Fiquei algum tempo em solução de equação diferencial.  Passei outro tanto em identificação na econometria. 

É importante considerar que eram tempos em que não havia os recursos que a tecnologia nos oferece atualmente.  Hoje, eu tenho procurado acompanhar a tecnologia de Machine Learning.    Para quem passou a vida focado na modelagem, é preciso pensar numa readaptação para pensar que é possível reconhecer padrões no conjunto de dados analisados. 

Essa vida nova focado na inteligência artificial, no lato sensu, e no aprendizado de máquina, no strictu sensu, é algo que aconteceu com Arthur Samuel no distante ano de 1959.   Eu confesso que nesses tantos anos de videoteca, de gravações diárias de imagens, eu não me deparei com esse nome. 

Nessa mesma época eu cheguei à ARPANET e a DARPA.    Explico melhor.  Em meados dos anos 70 eu gravei uma fita para a minha videoteca.  O conteúdo era em preto e branco.  Na gravação um almirante contava sobre o porquê da criação da ARPANET.  E ele repetiu, em dois momentos, a data de 1959.

Em sala de aula, eu projetava esse vídeo no telão.   Os alunos mostravam o maior interesse nesse conteúdo.  Daí eu seguia o meu roteiro de convencional de cenários econômicos. apresentava Tim Berners-Lee, James Gosling, e chegava à polêmica, vigente em 1992-94, se havia, ou não, uma Nova Economia.

…   

Eu lembro de discussões entre a Velha Economia, a economia do automóvel, e a Nova Economia, a economia do computador.  Ao passar do tempo, o automóvel internalizou a tecnologia e, desde então a solução passou a ser associada ao mercado de trabalho.  

Quanto do emprego era absorvido pelo hardware, quanto pelo software e quanto pelo setor de comunicação.   A comunicação fazia parte desse conjunto e representava apenas 10% do total do emprego do segmento.  Os demais, hardware e software, tinham a predominância do conjunto.  Bem depois chegou a ideia da mudança da economia com base na indústria para a economia dos serviços. 

O leitor mais jovem talvez não lembre da crise das empresas ponto.com.   Aí eu cheguei à palavra bolha pela primeira vez.  As ações dessas empresa registraram valorizações recordes.   Na mudança do século a bolha estourou.  Eu escrevi e fiz muitas palestras de cenários que incluam esse conteúdo. ‘

… 

Da análise de conjuntura eu avancei para flutuações. análises de séries, e fui ajustando o perfil dos programas da disciplina à sequência de crises, em nível internacional e a recorrência de choques internos para enfrentar a superinflação.

Um dia, eu optei por trabalhar as crises em três dimensões, política, econômica e administrativa.  Eu analisava os pactos políticos, o desempenho e a estabilidade da economia e, eu jogava a política econômica – monetária, fiscal, cambial e de rendas – para a dimensão administrativa.   

Dessa forma eu conclui a minha fase de FEE na década passada.   O tempo passou, a idade chegou, o mundo mudou e a pandemia confinou.  Eu penso que o biênio 2020-21 provocou uma ruptura imensa na ordem econômica internacional.  Se bem absorvidas as lições que ficaram, o mundo de 2022 será outro, sem precedentes.   A História passará a ser reescrita.

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Governantes que realizarem diagnósticos adequados partirão na frente.  A polarização subiu um tom na escala mundial.  É possível que haja um upgrade na globalização.  A distribuição ocupará espaços relevantes.  Haverá consolidação da sustentabilidade.   A configuração que vem por aí ainda não chegou por aqui.   

Encaminho o encerramento do post.  Desde as ponto.com a palavra bolha é um viés de alerta.   Surgiu no meio do caminho, eu a reconheço como uma pedra e sinto que preciso identificar as suas especificações.   Um objeto complexo que precisa ser estudado, nenhuma semelhança com um 2001 FO32 .

Então de onde eu selecionei o título Bolha para esse post?   Acontece que eu acessei o site do jornal El Economista deste sábado e fiquei surpreso com uma manchete do mesmo.   Fui à matéria e percebi algumas estatísticas que eu gostaria de compartilhar com os leitores do blog.

A manchete do jornal diz que La bolsa rusa toma la delantera frente al resto de mercados emergentes.   Há um arrazoado da autora do texto, a jornalista Cristina Garcia, em que são citadas três vacinas desenvolvidas na terra de Vladimir Putin. 

Eu confesso que não fazia a menor ideia que além da Sputnik V, os russos tinham criado mais duas outras vacinas, aa EpiVacCorona e a ChuVac.  A EpiVacCorona teria 100% de eficácia e a ChuVac que seria produzida a partir do mês que vem.  Era de se imaginar que com esse arsenal sanitário a bolsa russa refletisse o fato de forma imediata.    

O leitor acompanhou os meus posts sobre as valorizações das bolsas internacionais durante o exercício passado.    A dúvida que se colocava ao fim da gestão Trump dizia respeito à continuidade, ou não, das valorizações.   Se não como se dará a correção?  Em 3%, 5%, 10%, mais de 10%, em que patamar se dará a correção?

A questão, ou melhor, o ponto central na conjuntura, nesse sábado, é que desde novembro são expressivas as valorizações dos principais indices das bolsas das economias emergentes.

Quais são as variações desses índices?  O RTS da Rússia valorizou 19.46%, o SENSEX da Índia avançou 17,52%, o Ibovespa 15,58%, o MEXBOL do México 13,60% e o CSI da China incremento de 11,56%.

Então, o que se perguntam,  analistas e investidores, nesse domingo, “ei, você aí, me diz se existe uma bolha aí?

 

Boa tarde, leitor do blog! 

FOTO ABAIXO:  MERCADO PÚBLICO DE PORTO ALEGRE

O mercado público de Porto Alegre foi inaugurado em 1869.  Os clientes não tem auto atendimento no local.   Há muitas pessoas circulando diariamente pelas vias internas de pequenas lojinhas.   Eu vou, ou melhor, eu ia duas a três vezes por semana ao mercado antes da pandemia.

Há produtos que eu só encontro lá.  Hoje ele dispõe de serviço on line.  Desde o meu confinamento, em fevereiro do ano passado, é possível telefonar para o mercado ou utilizar o serviço via Internet disponível e eles entregam os produtos em casa. 

São 106 lojas funcionando no horário de 07:30 às 19:30 das segundas às sextas-feiras.  Nos sábados o local encerra as atividades às 18:30 e não há expediente nos domingos.   

Eu gostava demais de ir ao mercado.  Era um verdadeiro passeio.  Eu realizava as compras em um ambiente de atendimento individualizado, à moda antiga.  Os trabalhadores dos estabelecimentos comercias demonstravam sempre bastante conhecimento dos produtos oferecidos à clientela.

Os preços me pareceram sempre aqueles vigentes no mercado. Nada de excepcional, para mais ou para menos.  Há bancas para vendas de carne e peixe.  Nos açougues eu sempre me deparei com filas que me faziam esperar entre 10 e 15 minutos para ser atendido.

Na foto acima é possível perceber uma verdadeira multidão acorrendo ao local antes da pandemia.  Na verdade, algumas pessoas conhecidas eu as encontrava somente lá.   Eu acredito que há uma clientela que é fiel ao Mercado Público.

A única lembrança triste que eu tenho do local é da época do incêndio de 2013.   Eu presenciei tudo o que aconteceu. Eu vi aquelas chamas enormes se propagando pelo mercado.  Na madrugada eu pensei que a destruição era total.  Dias depois eu estive no mercado e percebi que o incêndio tinha sido localizado, não havia sido generalizado.  Foi um consolo!

A BOLHA

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