Porto Alegre, 14 de fevereiro de 2021

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Stella Coitinho Fraquelli, na foto acima, a minha mãe, nasceu em Rivera em 14 de fevereiro de 1921.   Ela faleceu às 20;40 do dia 30 de junho de 2008 de infecção generalizada após uma cirurgia hospitalar.  Se estivesse viva, hoje ela completaria 100 anos. 

Ela era filha de Cristóbal Coitinho, uruguaio, e Carolina da Silva Coitinho, brasileira.  Ela morou em Rivera até os nove anos de idade quando a família mudou-se para Livramento.  

O meu avô materno instalou uma colchoaria na rua Rivadavia Correa, em Sant’Ana, a uma distância de não mais do que 50 metros da Prefeitura Municipal.   A frente, havia uma loja, com pé direito muito alto, onde havia a comercialização dos produtos.  Havia prateleiras imensas em que estavam expostos dezenas de colchões.

A seguir estava o que seria a fábrica de colchões com os equipamentos e a matéria prima necessária para produzir as mercadorias. 

Naquela época o meu avô produzia colchões de crina para o verão e os de lã para o inverno.  Havia, também, colchões duplos, crina de um lado e lã de outro.  Por último, ficava a casa da família com um belo pátio ao lado.  

Dessa época a minha mãe me contava muitos fatos relacionados à Segunda Guerra Mundial.  Essa história a marcou profundamente porque ela temia demais os movimentos políticos originados à época dos conflitos bélicos.  Eu creio que pesou demais para ela a pressão sobre os italianos e alemães no pós-guerra.

Quando pequenina ela me contou que conheceu o meu pai, Aleixo (1905-2009), dezesseis anos mais velho, que visitava a colchoaria com alguma frequência.   

O tempo passou, eles não mais se viram, todavia eles voltaram a se encontrar muitos anos depois, e vieram a casar em 28 de janeiro de 1937.  Do matrimônio tiveram quatro filhos, Danilo (1939), eu (1944), Zezinho (1946) e Stella Maris (1957).

Eu acredito que ela estudou até o quarto ou quinto ano primário, mas era leitora contumaz das  Seleções de Reader’s Digest.  Lia a Selecta, livros de Monteiro Lobato e de vários outros autores nacionais.   Acompanhava os nossos estudos, dos quatro filhos, até onde eu percebia.

Tinha um bom humor admirável.  Compensava a rigidez com que meu pai tratava a nossa educação.  Era uma pessoa muito amorosa com todos.  Jamais a vi exaltada. 

Decepcionou-me quando reuniu, eu e o meu irmão menor, para nos transmitir uma mensagem muito importante.  Ela sentou numa cadeira preguiçosa, sorriu prolongadamente e disse que não existia Papai Noel.  Assim, em seco.  Eu e meu irmão menor nos olhamos e “engolimos em seco”.   Acredito que eu tinha uns cinco anos . 

Ela trabalhou muito quando nós éramos pequenos porque o meu pai tinha um armazém em Sant’Ana e ela que atendia o balcão porque ele trabalhava em Rivera. 

Nos anos 40 não havia produtos empacotados.  Havia a balança, minha mãe precisava pesar o arroz, o açúcar e tudo o demais, e os empacotava em uma folha de papel pardo que estava empilhada num canto do balcão.   Para onde quer que ela se deslocasse o meu irmão menor se mantinha agarrado à sua saia. 

Havia uma geladeira onde eram guardadas as garrafas, mas o gelo chegava em barras, numa carroça, que o distribuía a partir das 18:00.   Minha mãe guardava tudo o que era possível dentro da geladeira.  O gelo se mantinha inteiro até o dia seguinte à mesma hora da tarde.    

As carroças também transportavam as frutas e os legumes.   Eu era ainda pequeno quando eu percebi a importância de planejar essas compras de produtos perecíveis.   Outro ponto que me chamava a atenção era a importância que a minha mãe dava ao troco.   Era preciso muitas moedas para facilitar o atendimento aos cliente. 

Os anos passaram e a dona Stella deixou o balcão do armazém e estudou corte e costura.  Ela já tinha a prática desde muito jovem.  Todavia quando eu cheguei à adolescência minha mãe tornou-se modista.  Em cima da sua imensa mesa de costura havia um quadro, grande, da Academias Teniente de Buenos Aires que lhe concedia o título de modista.  A sala da minha casa vivia cheia de senhoras da sociedade que eram suas clientes. 

Quando eu e os meus dois irmão saímos de casa ela sofreu demais.   Se vínhamos passar os dias de férias em casa ela já sentia antecipadamente o nosso retorno à Universidade.  Anos mais tarde eu levei meus pais para morar em Santa Maria e quando me mudei para Porto Alegre, trouxe-os para cá.

Os anos no exterior foram muito difíceis.  Foram anos consecutivos com trocas de informações via correspondências que tardavam demais em chegar ao destino.  As perguntas formuladas eram respondidas com trinta dias de atraso. 

Finalmente quando reunimos para morar em Porto Alegre a pressão diminui um pouco.  Éramos dois filhos vivendo em Porto Alegre e outros dois distantes daqui.   

Eu visitava meus pais todas as tardinhas depois do trabalho.  Minha mãe atualizava-se de forma ininterrupta para poder conversar comigo.  Foi o que eu percebi com o passar do tempo. Éramos parceiros de chimarrão e tínhamos muito boas conversas.  

Quando ela adoeceu e foi para o hospital a situação ficou difícil para todos.  Muitas vezes eu saia da aula à noite e ia no hospital perto da meia noite, mas ela já estava dormindo.   Eu chegava o seu lado, transmitia-lhe um bom pensamento, permanecia alguns minutos vendo-a dormir e ia embora.

E assim tudo aconteceu rapidamente até o dia do seu falecimento.  Hoje a saudade está forte.  É um dia para eu lembrar os bons momentos que estivemos juntos, durante tantos anos. Tenho a certeza que vamos nos rever em algum momento no futuro.

Tenho fé e muita esperança no que há de vir.  Pode demorar, mas vivo sem pressa.  O amor à família, o carinho dos amigos, o apreço aos colegas e a atenção dos leitores me ajudam a levar o barco a navegar em meio à incerteza. Tem sido assim desde que a minha mãe seguiu em frente.  À essa altura é importante manter o rumo.

Por enquanto tenho a convicção que os pensamentos maternos continuam alinhados comigo e tem se mantido bem próximos.  Nesse interim eu consigo apreciar a luz, a beleza do verde na minha sacada e curtir a chuva toda a vez que ela chega. 

A ansiedade é normal, mas tem passado longe de mim.  Tudo tem contribuído para que eu me mantenha otimista à pandemia que vai passar, à vacinação que vai chegar e ao país que vai acordar.   Eu tenho a certeza que a mudança será brusca, mas os movimentos serão lentos.  Em suma, isso é um pedacinho do que eu chamo vida!  

FOTO ABAIXO: MINHA MAE E EU EM EVENTO DE MINHA FORMATURA DO CURSO GINASIAL, 1959

Na foto abaixo eu estou na noite da formatura do curso Ginasial no Ginásio Santanense, colégio dos Irmãos Maristas em Sant’Ana em 1959.   O evento aconteceu no Clube Caixeiral de Livramento, localizado na Rua dos Andradas, a via principal da cidade. 

Cada formando era acompanhado por uma pessoa selecionada no deslocamento do plenário até à mesa onde estavam as autoridades educacionais.   Minha mãe me fez companhia naquela ocasião. 

Foi um momento importante porque ao concluir o curso ginasial eu migrei para o Colégio Estadual que iria abrir o primeiro ano do Curso Colegial, científico e clássico, na cidade. 

A formatura representava alcançar o teto do nível de estudos disponíveis em Sant’Ana naquele ano.   Minha mãe estava muito orgulhosa e eu estava contente de ter conseguido uma grande vitória ao receber um diploma tão importante em um evento daquela natureza.  

STELLA COITINHO FRAQUELLI, MINHA MÃE

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