Docente aposentado (1997) da UFRGS, 76 anos, professor de Cenários Econômicos.

Campo Bom, 15.02.2021, 12:10, 29 graus C, 59 % de umidade 

Post 02.01.24

02 Brasil 01 Conjuntura recente  24 número de ordem do post

Estou em Campo Bom, na região de Novo Hamburo.  Lugar muito quente no verão.  Passo o dia aqui e retorno a Porto Alegre à noite  As fontes das minhas consultas diárias estão todas acessíveis.  Vou dar uma atenção à conjuntura nacional para atualizar os leitores sobre como estou vendo o Brasil nessa segunda de carnaval. 

O Brasil participa da corrida global à vacinação.  Depois de Manaus, as aglomerações no Rio de Janeiro  ameaçam derrubar o sistema de saúde local.  Hoje, o prefeito Eduardo Paes disse que interromperá a vacinação porque há falta do produto. Desde o início de 2021 eu venho escrevendo  sobre as dificuldades mundiais com a logística da vacina.  Os óbitos se propagam pelas grandes metrópoles aqui e acolá. 

A economia não decola e o desemprego permanece nas nuvens.  Havia toda uma expectativa com relação a alguma recuperação em curso na economia.   O IBGE, ou melhor, os números divulgados pelo IBGE frustraram expctativas vigentes até então.

Na prática houve uma desaceleração da recuperação econômica esperada para o fim de 2020.     Uma constelação de fatores foram responsáveis para que isso se concretizasse.  A inflação dos alimentos, o fim do auxílio emergencial, o freio do setor de serviços colocaram uma pá de cal sobre o otimismo incipiente em curso. 

A indústria que sinalizava ajustamento de estoques, viu a confiança do empresário da indústria se fragilizar por dois meses seguidos.  O comércio registrou queda abrupta em dezembro.  Em duas décadas não se conhecia uma queda de 6,1% no último mês do ano.  Finalmente, o setor de Serviços vinha se mantendo com crescimentos modestos embora persistentes, mas tudo mudou quando o ano chegou ao fim.   É preciso recuperar confiança, mas a novidade é a possibilidade da redução de jornada. 

O novo auxílio emergencial está à volta da esquina.   Bolsonaro percebeu que é impossível deixar de atender os dependentes do auxilio emergencial.  Tudo leva a crer que no mês que vem o auxílio estará de volta com prazo de validade até junho.  

Essa iniciativa deveria amenizar a situação mas eu li que Ana Maria Vescozi previu que a situação irá piorar antes de melhorar.  Em que consiste essa transição?  Bem a economista visualiza uma tempestade perfeita até junho. São muitas as razões, mas ela destaca dentre outras, a inflação acima da meta, a inadimplência em alta e os efeitos da pandemia.

Eu penso que será difícil implementar o auxilio emergencial,   As contas públicas não comportam mais choques adicionais.  Está difícil, quase impossível, manter o endividamento crescente do país.  Em algum momento, no curtíssimo prazo, virá novo alerta das agências de análise risco quanto à instabilidade da nossa conjuntura.  

A proporção da divida sobre o PIB alcança níveis inimagináveis para quem pregava a obediência ao teto de gastos.  A penumbra vigente sinaliza o reconhecimento de um novo estado de calamidade pública à frente.  Eu creio que a situação de excepcionalidade nos dará uma sobrevida até a metade do semestre.  Depois há que se pensar sobre uma estratégia factível que nos leve até às próximas eleições.

Paulo Guedes associou recentemente o auxílio emergencial para enfrentar a pandemia como uma ação desencadeada numa economia de guerra.  O ministro alertou que se colocar dinheiro aí vai ter travar ali.   Bota em auxilio e trava em educação e saúde?  A situação beira o insustentável.   O duro é proceder dessa forma à medida que a economia começa a avançar no sétimo ano de crise ininterrupta.  

Numa série montada a partir de 2005, o endividamento também atinge as famílias para patamares recordes.  Metade da renda das famílias estão comprometidas com o sistema financeiro.  Segundo dado divulgado hoje pelo Bacen e a CNC, 51% da renda das famílias nos últimos doze meses representam endividamento com os bancos.   Ela cresceu de 41.21% (dezembro de 2017) para 42,51% (dezembro de 2018), para 44,88*% (dezembro 2019) e, agora, 51% (novembro de 2020). 

É mais uma limitação que se impõe nesse ambiente de crise.  As restrições se acumulam no que tange ao desenvolvimento social.  Milhões de brasileiros deixaram de estudar no ano da pandemia. Os investimentos em educação parecem estar a bordo de um avião no circuito de tráfego padrão para o pouso.   Nesse interim, o Brasil discute porte de armas.  A polarização torna tudo mais difícil. 

Para encerrar eu gostaria de fazer uma referência à decisão da Câmara em aprovar a autonomia do Banco Central. Foram mais de cinco décadas para que a autoridade monetária guindasse essa posição.  É verdade que o resultado de 339 a 114 votos a favor da autonomia teve a participação do centrão.

A sanção de Bolsonaro à decisão do Legislativo implicará também que o Bacen estará priorizando o objetivo de promover, de alguma forma, o pleno emprego, iniciativa já tradicional entre os Bancos Centrais das economias avançadas. 

De tudo que acompanho de perto sobram algumas poucas frentes para tirar o Brasil da inércia atual.   Isso posto, eu creio que 

devemos, os brasileiros, aparar arestas com a chancelaria norte-americana porque eu creio que o mundo só sai, de fato, da crise da pandemia, a partir de 2021, com  a criação de um FUNDO que congregue pesadas somas de recursos financeiros voltados ao crescimento econômico, em medidas articuladas pelas comunidade internacional. É pouco provável que haja saída pontual.       

devemos estar presentes junto à nigeriana Okonjo-Iweala, nova presidente da Organização Mundial do Comércio, na nova pauta de abertura global do comércio internacional;

devemos formular um programa de desenvolvimento que preserve o agro, resgate a indústria, retome os serviços, sinalize a queda do desemprego e melhore a distribuição, concomitantemente à criação de um lay out que torne “palatável” o desequilíbrio das contas públicas e o incremento da dívida brasileira.  Sete anos em crise é demais;

devemos colocar uma frente de profissionais qualificados para analisar a extensão da crise do setor automobilístico; 

devemos buscar um caminho para a educação que está embretada entre insuficiência de recursos e falta de competência;

devemos, os brasileiros, recolocar a “pauta Grande Amazônia” na agenda internacional visando buscar investimentos em sustentabilidade.  Não podemos discutir a reboque dos acontecimentos.  Efeito demonstração para consumo interno já se esgotou. Precisamos ousar.  Para ontem, de preferência; 

Boa tarde, leitor do blog! 

FOTO ABAIXO: O RIO OTA QUE BANHA HIROSHIMA

Eu estive três dias em Hiroshima em 1974.  Foi o período mais longo que estive fora de Tóquio, onde funcionava a sede do Curso de Planejamento promovido por uma instituição japonesa que estava trocando de denominação nos anos 70.

Explico melhor.  Quando eu obtive a bolsa junto ao consulado japonês no Brasil, a instituição que me receberia se chamava Overseas Technical Cooperation Agency (OTCA), criada em junho de 1962.  Em cheguei a Tóquio quando estava em curso a substituição da OTCA para a JICA, a Japan International Cooperation Agency, transformação que iria acontecer em agosto de 1974. 

Normalmente, as aulas e as viagens eram devidamente planejadas.   Professores nos apresentavam aspectos setoriais e regionais do planejamento governamental e era possível conhecer em loco como tudo tinha acontecido.  Eu penso que a viagem a Hiroshima foi a mais longa por tudo o que ela representava na história da humanidade. 

Num turno a turma foi conhecer o castelo de Hiroshima.   Dali eu fui até o rio Ota para bater algumas fotografias.  Tudo era novidade, tudo era muito importante e tudo era muito distante de onde eu tinha partido. 

Era preciso conhecer o que nos apresentavam como conteúdo de aula porque todos sabíamos, de antemão, que dificilmente haveria possibilidade de retorno.  No meu caso eu mantive atividades relacionadas ao governo nipônico durante muitos anos.  Poderia ter retornado à Ásia, mas a vida em Porto Alegre foi sempre muito agitada e repleta de compromissos junto à FEE.  

Bem, o rio Ota tem 103 quilômetros de comprimento.  Ele tem origem no monte Kanmuri  e chega em formato de delta a Hiroshima e de lá segue rumo às ilhas de Honshu, Kyushu e Shikoki.  Esse espaço entre o Japão e as três ilhas é conhecido por Mar Interior, ou Mar Interior de Seto.   

Esse Mar Interior liga-se com o Mar do Japão e o Oceano Pacífico.   Tudo representa muita água.   A pesca é uma atividade de rotina na região. 

Em 1974 eu ainda comia carne – eu me tornei vegetariano em 1978 – e eu lembro que quando eu cheguei a Tóquio, a referência para mim em termos de carne de peixe era aquele servido no City Hotel, localizado na Rua José Montauri, no centro de Porto Alegre.   

Eu ficava feliz quando eu ia ao City e pedia um filé de peixe grelhado.  Eu considerava aquele um produto dos deuses. Naquela época tudo era na base do paletó e gravata.  O ambiente no local era em elevado nível.  Havia ar condicionado e eu apreciava demais o conteúdo e a forma como era servido.

Na segunda foto eu estou à frente do Rio Ota.  Eu lembro que era verão, algo como 17:00, e estava muito agradável no local.  Tudo era muito bonito. 

Na verdade, onde que quer que eu tenha estado no Japão, tudo era muito bem administrado.  Mesmo nos templos de antanho, tudo passava a impressão de ser construção recente.  As estátuas de Buda, todavia, jogavam a minha mente para o passado sempre que elas surgiam em local de destaque nas grande obras.

Paralelamente, quando os templos eram xintoístas eu também ficava pasmo.  Eu lembro, por exemplo, do templo xintoísta de Itsukushima em que a obra, em vermelho muito vivo,  ficava sobre a água quando a maré subia.  Era de uma beleza incrível.  Não havia adoração no local, mas guarda de objetos sagrados.

Outro dia escrevo mais sobre o rio Ota e as suas adjacências.  Imagine, o leitor, que eu dediquei a minha vida a fotografar.  Tenho muito material, mas não tenho muito tempo de sobra.  Diariamente, quando eu percebo, já anoiteceu!  

UMA CONJUNTURA ECONÔMICA BRASILEIRA COM POUQUÍSSIMAS OPÇÕES

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